Coldcut - Sound Mirrors (Ninja Tune)
02.03.06 01:45
Uma das duplas mais influentes na música "de batida" está de volta após alguns anos se dedicando a atividades mais econômicas e menos musicais. Os Coldcut regressam com um disco que mantém características próprias da dupla Jon More e Matt Black: fragmentos sonoros re-orientados sob a filosofia corta-e-cola e a base melódica em que estas parcelas se acomodam. Este "Sound Mirrors" (edição limitada com repertório diferente da versão normal no mercado) congrega essa diversidade e originalidade que nos faz lembrar os tempos distantes dos Massive Attack em "Blue Lines". Aliás, esta variedade e imaginação pode ser bem a desculpa para considerar este disco o melhor dos Coldcut, mesmo que isso signifique destronar "Let Us Play" com a pérola "Atomic Moog 2000".
Comecemos a viagem por um incisivo "Everything is Under Control", nada calmo ou confortável, mas forte e panfletário: um warm-up prometedor. O disco segue por viragens, curvas e contra-curvas até chegar ao dancehall sustentado por Roots Manuva, uma das numerosas entidades que participam em "Sound Mirrors" e etno-raffa-broken-beat parece-me um estilo apropriado que choca com a melancolia da terceira música "Man In A Garage" adornada com violas acústicas e bleeps. O desgosto não estanca até nos levar ao ponto alto do disco: "Walk a mile". "Walk a mile in my shoes/and before you abuse/criticise and acuse/walk a mile in my shoes" é o refrão de uma história de amor urbana com sons de cordas e percussão leve onde Robert Owens cantaria entre isqueiros num concerto ao vivo com multidão de olhos vidrados. A Ninja Tune compara-a a "Autumn Leaves" (esperando o mesmo sucesso?), mas o desespero amoroso de hoje não se compadece com o glamour sofredor deste tema. E Quando esperamos algo mais uptempo para nos salvar deste mar de mágoa, eis que nos aparece à frente a banda sonora de uma vida frustrada, mas carregada de esperança, a de "Mr. Nichols". Sexta faixa "Sound Mirrors" - ainda lenta e negra, mas por ser instrumental, eleva o espírito e fornece algum oxigênio entre sons dignos de banda sonora de filme. Foi o prelúdio de um cocktail de batidas e recortes sonoros com "Boogieman" que faz elevar a altitude deste "Sound Mirrors"; A linha de baixo que conversa com um loop de uns violinos de som destruído é deliciosa e faz a ponte para "This Island Earth" e "Just For The Kick", onde a música de dança se reduz à sua base atômica: A batida. Temos dance-floor hit para mentes distantes em after-hours. Após
outras faixas o disco desagua numas planantes "Colours Of The Soul".
Com uma produção impecável, este disco inicia a viagem no cume da montanha para lá terminar outra vez após uma passagem arrastada por um vale sombrio. Os Coldcut no auge da maturidade, com a orquestração das palavras doces ou amargas, positivas ou deprimidas, duras ou aconchegantes. É interessante acabar a audição e pensar que um disco dos Coldcut vale também pela sua mensagem lírica e não apenas pela manipulação dos sons. Incontornável.