Digitaria Digitaria (Lado Z/International Deejay Gigolos)
16.02.06 01:45
O festival multimídia Eletronika, em 2004 (a última edição do projeto mineiro em seus moldes tradicionais), teve bons momentos na sua programação diurna, quando o clima era mais de pensar e discutir música. Ao final da tarde, os shows e DJ sets eram a prática dos conceitos. Foi na espaçosa Casa do Conde que descobri o então grupo local Digitaria, que chamava atenção com sua forte presença de palco, principalmente com a inquieta postura do tecladista e vocalista Fabiano, um dos fundadores do grupo ao lado de Danihell.
O movimento setentista new romantic pairava naquele galpão rústico e o ponto forte do Digitaria já tinha expressão: o equilíbrio entre o rock e a música eletrônica. Não apenas ruídos e timbres manjados desta última, nem riffs toscos de rock, como é fácil de se ouvir hoje em pistas por aí. De forma original, o quarteto já mostrava uma sonoridade com complexidade ímpar, respeitando a essência de ambos os gêneros, porque os conhecem e entendem. O que em nada impede do Digitaria compor hibridismos homogêneos acessíveis, vale dizer. Na época, já haviam estreado com o primeiro single, "Anti" (co-produzido por John Ulhoa, do Patu Fu). O break que tem vocal de Cida Nogueira e letra poética (refrão: "...promessas de amor não cumpridas, se a chuva parar, a escada sem saída, assim sem razão, viveiros sem vida, se a vida ensinar, face contida, soam mais que nós..."), assume hoje a décima posição do álbum "Digitaria", recém-lançado no Brasil.
As marcações de bateria de rock confundida com a do breakbeat é uma das grandes sacadas e assim são os primeiros segundos do disco, que se inicia com a encorpada "Cheers!". O vocal distorcido no vocoder se confunde com a ênfase das camas instrumentais de teclados e sintetizadores, que ainda criam atmosfera de filme de terror. Relaxa, a linha de baixo rebolante da seguinte, "Dogon", quebra o drama. A estética desta e do hit disco-punk com vocais robóticos "Teen Years" carrega lembranças do sinth-pop minimal alemão dos anos 80, oferecendo sons inusitados, às vezes remetendo a timbres providos de tecnologias lo-fi. Hoje em dia, o pequeno selo germânico Areal investe com força nesta linha e não só.
A melodia de espanto, corriqueira em electro e techno francês, volta a aparecer nítida em "Ordo Sirius B", "Becquerel Found Out" e "We Are the New Ghosts", marcando o industrial como referência implícita. A rasgadeira com BPMs elevados e guitarradas mais características do Gigolo e onda electroclash rondam "Static Age" e "Kinetic" apenas. Nesta última, quem se destaca é o guitarrista Nest. Como bons ouvintes do produtor Vitalic, o synth progressivo (à furadeira) percorre o techno "CME Phloax 607". A próxima, "Sym", surpreende com sua levada safada de punk-funk e vocais espontâneos (quem solta o gogó é Fabiano), no nível, moderno, de gente como !!! (Chck Chck Chck).
E o fechamento não desanima. As metálicas "Not Visible" e "Our Nature" (que lembra o hit melodramático "Vicious Game", de David Carretta) pedem além de mais volume, o botão de repeat. A máscara que encobria as veias do experimental IDM cai de vez. Na 13ª e última música, todos cantam. Ouve-se mais a voz eficiente da Daniela, vocalista à frente do Digitaria, nas "Dogon" e "Kinetic". O disco tem belo encarte feito pelo designer Eduardo Recife e foi masterizado por Rodolfo Wehbba.