Annie - DJ-Kicks (Studio !K7)
15.02.06 01:45
A norueguesa Annie provou com sua participação nas compilações DJ-Kicks, do selo !K7, que é mais do que aquela cantora pop nórdica hypada pela mídia por samplear "Everybody", da Madonna, em "Greatest Hit", seu maior hit. Lançada em outubro passado, foi a segunda e última compilação DJ-Kicks do ano passado. Em abril saiu a do The Glimmers, insossa e previsível. Foi o melhor lançamento da série desde quando Tiga e Playgroup tocaram em 2002.
A loira de 29 anos começou na música em 1998 como DJ, despertando o interesse de clubs e selos da cena de Bergen, cidade onde também conheceu Tore Andreas Kroknes, o DJ Erot, futuro parceiro de trabalho e namorado. Original de Trondheim, cidade que com apenas 150 mil habitantes é a terceira maior da Noruega, Annie planejava gravar o álbum "I Will Get On" em 2001, com produção de Tore, mas após lançar o single de "Greatest Hit" foi surpreendida pela morte repentina do parceiro. Ele morreu aos 23 anos após várias internações repentinas na época da produção do disco. A causa divulgada da morte foi complicações no coração, mas as más linguas dizem que foi colocação excessiva mesmo...
Passada a tragédia e a fase depressiva, ela se recuperou e conquistou o coração da mídia com "Anniemal", lançado em 2004 com singles que ela já trabalhava a tempos, caso de "Greatest Hit" e "Chewing Gum", e futuros sucessos como "Heartbeat". É pop eletrônico em sua essência, com a voz doce e infantil de Annie em cima de faixas bem produzidas, como não podia deixar de ser na atual música moderna escandinava. Röyksopp, Sigur Rós e Kings of Convenience que o digam. Versátil, imprevisível e bem mixado apesar das viradas simples e secas, o DJ-Kicks da moça prova que ela de fato tem cacife musical, não se tratando apenas de um produto pop para exportação criado por produtores espertos.
Annie vai de house, electro (incluído aqui o que poderia se chamar de rock), pop eletrônico e um pouco de minimal e italo disco. Começa divertido, com canções que lembram trilhas do Master System. Vai nessa intro animada até a quarta música, um remix de Junior Senior para "Nanny Nanny Boo Boo", do Le Tigre, com baixo bem pop e vocal mais a la JJ Fad do que grrrrrrls neurótico, tradicional da banda. O CD surpreende porque melhora a cada faixa. A sexta, um versão de "Flextone", do Liquid Liquid, banda nova-iorquina de funk do começo dos anos 80, assusta pelo bumbo deliciosamente marcado. Foi o Liquid Liquid que, com a faixa "Cavern", fizeram a base gorda e swingada para "White Lines", hit do Grandmaster Flash. Com sua estrutura de banda e levada dançante e improvisada que flerta com o jazz, eles são uma espécie de pai do The Rapture. Tocou nos principais clubs cutting edge americanos da época e hoje os poucos EPs e coletâneas lançados são coisa rara. Para os curiosos pero não-colecionadores, é só dar uma passadinha no soulseek ou e-mule. (O remix break de Cut Chemist para "Cavern" também vale a pena, confira).
Voltando à Noruega: Annie também tem suas músicas no álbum. "Wedding" e "Gimme Your Money" estão lá, faixas 7 e 12, acompanhadas de outras produções nórdicas: "Geared Up", de Brundtland & Pehrson (Brundtland é Torbjørn Brundtland, metade do Röyksopp), "1939", do Motiivi:Tuntematon e "Fa Fa Fa", a última faixa, dos noruegueses do Datarock.
As influências são diluídas: o glam italo disco está em "Bongo Song", de Zongamin, é uma house nervosa bastante influenciada por Sylvester e Patrick Hernandez. "1939" é minimal; guitarras se fazem presentes no remix de "Black History Month", da banda indie canadense Death From Above 1979, feito por Alan Braxe e Fred Falke. A versão electro ficou melhor que o original, já que a linearidade eletrônica limpou tanto riff e deixou os vocais, o ponto alto da banda, mais sonoros. Outro momento rocker é "I Want Candy", de Bow Wow Wow, banda de new-wave dos anos 80 criada por Malcolm McLaren, guru dos Sex Pistols. Lembra The Bangles e tem muito bongô, pelo jeito, o loop preferido da norueguesa na compilação. Claro, tem electro: "Paris Hilton", do MU, cheia de cacarejos e bem electroclash, foi bastante tocada por aqui. "Sally, That Girl", do Gucci Crew II, é pancadão old school conhecidíssimo de qualquer pista brasileira.
Mas o ponto alto do álbum é "Lady Bug (I Just Wanna Be Your)" , música de 1978 do Bumblebee Unlimited, big band disco americana da época. Os vocais infantis com efeitos tem tudo a ver com Annie. Era o que ela faria se vivesse na época: infantil, pop, divertido e deliciosamente bem produzido. O vocal "just let me be your lady bug! 24hrs a day i give you love!" gruda como chiclete na cabeça. E é justamente isso o que Annie tenta fazer: pop-chiclete eletrônico, gostoso e divertido. Imperdível.