Boards of Canada - The Campfire Headphase (WARP)
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Boards of Canada - The Campfire Headphase (WARP)
02.12.05 01:45
O último disco dos Boards of Canada (BoC), "The Campfire Headphase", foi lançado em Outubro pela WARP sob grande expectativa dos admiradores do duo composto por Mike Sandison e Marcus Eoin. Estes apenas recentemente se declararam irmãos, como já desconfiavam os muitos fãs da banda; Pormenor estranho dos BoC, visto que o anti-estrelato (comum em artistas de música eletrônica, ao contrário dos criadores de música rock e pop que (sobre)vivem do "star-system") sempre foram atributo da dupla escocesa. Cansados desta "aura" de mistério que os envolvia, os BoC quiseram expor-se mais: as entrevistas em revistas multiplicaram-se (inclusive com fotos) e as notícias tão bem geridas pela WARP espalharam-se nos fóruns de discussão pela internet.

"The Campfire Headphase" apresenta-se (por fora) como um legítimo seguidor dos trabalhos anteriores, "Geogaddi" e "Music as the Right to Children" (mais deste), mas em relação ao conteúdo melódico, nem por isso. Especulava-se uma grande viragem na sonoridade BoC, da qual são eles os próprios (e únicos) autores. Uma assim tão grande mudança não será percebida. Alguns dos elementos tradicionais e estruturantes dos Boards of Canada mantêm-se e outros alteram-se: a ausência de vozes infantis e/ou mensagens faladas faz-se notar. No entanto, o "low-fi" característico permanece fortalecido pela adição de instrumentos acústicos como o violão adulterado e sujo, efeito da preferência de Mike Sandison e Marcus Eoin. Deste modo, as faixas com violão são condimentadas com lençóis de sintetizadores rugosos e vacilantes ("Chromakey Dreamcoat", "Satellite Anthem Icarus" e "Hey Saturday Sun" são exemplos); nesta altura, lembramo-nos de "Music as the Right to Children" em detrimento de "Geogaddi", pela aproximação mais ingênua que dura. Por outro lado, a audição de "Dayvan Cowboy" sugere-nos algo mais: a inclusão de uma guitarra elétrica (instrumento "maldito" na música eletrônica que vem, cada vez mais, ocupando espaço neste gênero) com efeitos atmosféricos confere a espacialidade própria dos BoC. Nesta faixa, eles foram longe: ouve-se duas e não apenas uma música: a componente rítmica rica, texturada, cortada e colada complementa a harmonia do sintetizador, mas rouba-lhe protagonismo devido à forma sumarenta que impõe à música. Sem dúvida, um dos pontos altos de disco que corrobora a informação de Mark quando diz que o trabalho sobre os sons e samples (individuais e em conjunto) foi intenso: "enquanto outros andam às voltas numa música durante quatro dias, nós gastamos o mesmo tempo a aperfeiçoar um som específico como um som de bateria".

Ainda (e sempre?) agarrados a uma estética sonora vintage, há muito apegada ao universo multimídia do final dos anos 70 e 80, (isto é, TV e rádio) os BoC mantêm, nesse esquema sonoro, a base de onde evoluem; aliás, a crítica acusa-os de se rarefazerem o suficiente para refletirmos se os fãs manterão a quase religiosidade que os caracteriza. Pode dormir a crítica musical descansada que as raízes se mantêm e que os Boards os Canada têm, como todos os artistas, a liberdade de se mover no sentido que melhor entenderem.

Para quem não apreciou os trabalhos anteriores dos Boards of Canada, "The Campfire Headphase" será apenas um excelente disco de IDM. Não tão grandioso como "Music...", pelo menos na interpretação de quem ouve, mas suficiente para estar na discografia de qualquer amante de música eletrônica.

Hugo Pedro
Hugo Pedro
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