Madonna - Confessions on a dance floor (Warner)
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Madonna - Confessions on a dance floor (Warner)
18.11.05 01:45
Era uma vez um reinado do pop dominado por uma só majestade: Madonna Louise Ciccone. Os tempos mudaram, o regime cambiou e hoje, para disputar a atenção da plebe com Beyoncés e Kylies, é preciso rebolar. Nesse caso, literalmente. Com sua pistola de polêmicas desmuniciada – afinal, a velha "causadora" passou ao comportado papel de mãe e devota da cabala – Madonna voltou à sua antiga receita mais básica: música para as pistas, sem vergonha de se assumir como tal.

Morra você de amores ou odeie "Confessions on a dance floor", não há como negar que o sucessor de "American life" é o álbum mais coeso de Madonna desde "Ray of light" (1998). Trata-se de uma suíte dançante com o pé no chão (xadrez), sem delírios de autora nem vocação para a controvérsia. As críticas ambíguas embutidas em American life (2003), que levaram o álbum a um relativo fracasso, e os excessos de Erotica (1992) a diva vê pelo retrovisor. Depois de vestir a camisa de Kylie Minogue na vida, Madonna muniu-se dela na arte.

No equilíbrio de forças de COAD, o underground Mirwais Ahmadzai, produtor dos últimos álbuns de Madonna, perdeu espaço para o inglês Stuart Price, cada vez mais próximo do mainstream. Seja em sua faceta DJ e remixer (Jacques Lu Cont), produtor (Les Rythmes Digitales) ou bandleader (no Zoot Woman), Price exala uma reverência pela música dançante dos anos 70 e 80 e um sotaque pop inconfundíveis. E é pra lá que o novo disco vai. Construído como um DJ-mix, com faixas emendadas,"Confessions" costura referências da disco music, do euro-dance e do electro até chegar ao french touch dos anos 90.

Madonna e Price foram buscar no passado não só inspiração, mas também material de trabalho. COAD se apóia em samples de gente como Abba (em "Hung up"), os Jacksons (em "Sorry"), Donna Summer/Giorgio Moroder (em "Future Lovers") e Stardust (em "Get together"). Os dois usam e às vezes abusam, como na radiofônica "Hung up", que martela uma linha de teclado de "Gimme gimme gimme" do começo ao fim. Da disco, eles cataram as cordas onipresentes e a nova persona da pop star, de maiô rosa shocking e óculos escuros. A artista que antes pilhava o underground e emergia com novidades quentíssimas é hoje retrô.

Ser fiel à proposta – uma homenagem à dance music de todos os tempos – ajuda, mas também engessa. Por um lado, diferencia COAD de sacos de gatos como Music (2000). Porém cansa. Desde a abertura com "Hung up", passando pelo euro-dance afrancesado de "Get together", a kylienesca "Sorry" e "Future lovers", levada no pulso disco de Giorgio Moroder, a seqüência de abertura do álbum segue uma mesma receita de bombação. Uma combinação de tensão/explosão que Price anda gastando demais nos seus remixes para The Faint, Gwen Stefani e Goldfrapp. Ele chega às raias do auto-plágio com o barulhinho de despertador que abre o disco, exatamente o mesmo de seu remix de "What you waiting for?", de Stefani. Menos fórmula, sr. Lu Cont.

Passado o furor bombativo, o álbum começa a mostrar a que veio em faixas como a electro-rocker "I love New York", a empolgante "Jump", embalada pelo baixo, e a exótica Isaac, a "Frozen" da vez. Cheio de "hmmmms", cordas em pizzicato, e cânticos religiosos, esse momento freak é o mais original que o álbum pode chegar. É nesse terço final que COAD passa de trilha descartável ao pop de risco. As letras seguem a mesma linha blasé do anterior, com muita lamentação sobre a fama e a perseguição pública. Para fechar, na sem sal "Like it or not", entre rugidos de synths, Madonna dá o recado: "Essa sou eu/Você pode/Gostar ou não/Você pode/Me amar ou me deixar/Porque eu nunca vou parar". É isso aí.

Gustavo Leitão
Gustavo Leitão
comentários
1 comentários
'Abba (em "Hung up")'
esse sample pra mim foi o responsável pelo melhor resultado musical do disco, é mto mais impactante que todo o trabalho realizado originalmente pela dupla Madonna/Price

'Donna Summer/Giorgio Moroder (em "Future Lovers")'
nessa track na verdade o produtor foi o Mirwais Ahmadzai, citado tb na matéria, produtor da top entre tops dance 'disco science' no album solo 'production'