M.I.A. - Arular (SUM/XL)
22.11.05 01:45
A ignorância sobre a situação política no Sri Lanka faz com que ampla parcela das visões sobre "Arular" o reduzam à mera releitura do funk carioca e de batidões em geral. É verdade que a cingalesa Maya Arulpragasam, a M.I.A, faz predominantemente batidas para bundas - tanto que sampleia Deize Tigrona -, mas seu conteúdo, assalto bruto e realista, é aquilo a que se deve atentar primeiro aqui.
O Sri Lanka vive há trinta anos um conflito com o movimento separatista tâmil, que custou a vida de mais de 60 mil pessoas desde 1972. O pai de M.I.A. é escritor e atuante da causa, que reclama a criação de um Estado independente no norte e no leste do país, o que abrangeria um terço da superfície da ilha, situada a 80 quilômetros a da Índia. Mas suas intenções, representadas pela organização da qual fez parte, a EROS, que pedia a independência sem armas, foram ofuscadas e mal-compreendidas por conta dos Tigres de Tâmil, que agem olho por olho, na base do ataque físico. Existem controvérsias aqui, porém: há relatos de que o pai de Maya se envolveu com produção de bombas, artefatos e armas químicas.
Não é para um exame vestibular que o rraurl está preparando você, mas para perceber que quase tudo na cantora referencia seu pai. A começar, M.I.A. é sigla que se traduz em missing in action, ou seja, "desaparecido em combate". Quando a família de Maya se refugiou definitivamente na Inglaterra, o pai não foi junto. Seu codinome? Arular. Ela não o vê desde 1995. Mas ela guarda mágoa, o chama de insano e apóia a mãe, que diz que a única coisa que o marido já deu a Maya foi seu nome.
"Arular", então, tem o amargo do rancor. O sotaque de Maya se entranha pelas letras e é só uma verborragia quase ininteligível que se ouve. Não que sejam de grande acréscimo seus comentários sociais; são idéias ingênuas narradas em versos e vocabulário rudimentares. Só que você não vai se ligar em nada disso. O que vai pegar você é o impacto rítmico. Vão confluir em panela de pressão grime, dancehall, bhangra, electro, hip hop e tudo que há de vigoroso e lascivo na body music. É como sublimação de uma história de violência e um saltar de uma voz que por muito foi calada. Ouvindo com cuidado, você vai reparar que cada batida é o eco de um tiro.
PROMO!
Escreva para promo@rraurl.com respondendo a pergunta: qual o nome do DJ norte-americano, entusiasta do funk carioca, que é namorado de Maya e também veio ao Brasil para se apresentar no TIM Festival?
As primeiras 5 (cinco) respostas corretas ganharão o CD "Arular", enviado pela SUM Records.
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