Ellen Allien - Thrills (Bpitch Control)
27.07.05 01:45
"Thrills", discurso de um tempo de coexistência entre homens e máquinas, sabe pulsar orgânico e industrial ao mesmo tempo. Mais sério e obscuro do que a média Bpitch Control, mas tão suave e melancólico quanto Ellen Allien sabe ser, o novo álbum da alemã, apesar dos tons monocromáticos à base de melodias simples, evoca uma corrente intensa de cenas, todas urbanas: fábricas, metal, fantasminhas ("Ghost Train"). O senso é gélido, mas ainda assim emocional - coerente com a idéia de que a máquina nasce como modelo de interpretação e reprodução do homem e do natural. Vale notar como é expressiva a fala em "The Brain is Lost", quando Ellen canta que "a carne a faz cega". Seria mais confortável e compreensível o mundo mecânico-cibernético? Ecoa o que a alemã já disse por aí: "no fim das contas, o techno é meu único amigo".
Mas o diálogo é equilibrado. Comprometido tanto com a introspecção de Ellen quanto com o contemporâneo, "Thrills" encarna um andróide gótico. Funciona perfeito como nova trilha-sonora para reler Metropolis, de Fritz Lang, quando os homens sucumbem aos avanços da tecnologia, se tornando meros escravos das máquinas, e um homem acaba se apaixonando por uma autômata, quanto para os replicantes de Blade Runner. É também a rádio da consciência do Homem Bicentenário de Asimov, quando o robô transcende o papel coadjuvante e ganha participação efetiva na comunidade. É um mundo em que falam as máquinas de lavar louça ("Washing Machine Is Speaking") e gases escuros tomam os céus ("Cloudy City").
Nitidamente autobiográfico, "Thrills" foi confessamente composto em um período de solidão e reflexão profunda. O álbum, que não faz mágicas de inovação mas cumpre suas metas, já figura na lista de trabalhos mais marcantes da escola Bpitch, uma das mais representativas da música eletrônica atual.