Tetine - Bonde do Tetão (Bizarre)
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Tetine - Bonde do Tetão (Bizarre)
12.04.05 01:45
Não há dúvida que Eliete Mejorado e Bruno Verner estão no mapa da música eletrônica feita por brasileiros (eles moram em Londres desde 2000). Nascido do encontro de uma atriz com um músico/poeta, ali pelo meio da década de 90, o Tetine produziu trabalhos bem interessantes, e sempre apresentou uma grande diversidade estética entre seus discos. O penúltimo, por exemplo ("Men in Uniform"), foi classificado por Eliete como um "desavergonhado mix de synthpop e electronic", e teve uma faixa selecionada para fazer parte de uma coletânea produzida por Larry Tee, aquele do Electroclash...

Nos últimos tempos venho acompanhando de longe o interesse crescente da dupla pelo Funk Carioca, estilo que desde 2003 (quando o DJ Marlboro fez algumas bem sucedidas turnês pela Europa e Estados Unidos) vem ganhando uma crescente fama internacional. Bruno e Eliete apresentam há quase dois anos numa rádio londrina (Resonance FM 104 - www.resonancefm.com ) o programa "Slum Dunk", do qual saiu ano passado a coletânea "Slum Dunk Presents Sounds of Funk Carioca", um lançamento do selo inglês Mr. Bongo, que sempre deu força para a música brasileira lá fora.

Portanto, quando ouvi falar pela primeira vez que o Tetine ia lançar um álbum inspirado no Funk Carioca, não me surpreendi, mas confesso que fiquei curioso para conferir o resultado. Conferi e fiquei decepcionado: é um pastiche mal resolvido e pouco inspirado com base em Funk Carioca, Miami Bass, Afrika Bambaataa e Fausto Fawcett (me lembrei deste último por conta da temática das letras, falando sobre noite, boemia, sexo fácil e sem pudor).

A capa ficou feia, e os "tetões" não chocam ninguém no Brasil, mas devem dificultar a venda do disco lá fora, em especial nos Estados Unidos. A primeira faixa ("Melô do Carrão"), meio que resume todo o disco: produção tosca e vocais em português (como no Funk Carioca), letra estranha, que tentando falar de sexo de forma despudorada acaba causando incômodo, ou um certo estranhamento. O ritmo está mais para Electroclash do que para Funk Carioca, e acho que faria feio em uma pista de Baile Funk no Rio. Não dá vontade de dançar...

"Ele é Louro" (Funk Melody)" é talvez a única faixa dançante do disco, mas o uso de um sintetizador a deixa mais próxima do synthpop do que do Funk. O sexo continua presente no vocal de Eliete, mas é engraçado, parece uma coisa "estrangeira", pouco natural. Me lembrou da canadense Peaches, o que não é necessariamente um elogio.

"Melô do Estudante" tem a batida típica do Funk no seu início, mas de novo falta alguma coisa para querer te levar para a pista. A letra é confusa, quase ininteligível, mas parece que continua falando de sexo. Na verdade acho que no disco todo faltou o baixo, o famoso "pancadão" que é a base do Funk Carioca e de outros ritmos "irmãos", como o Miami Bass e o Dancehall jamaicano.

A história se repete nas faixas seguintes, várias delas indo mais para o lado do Synth Pop/Electroclash do que do Funk Carioca. "Cereti" me lembrou das brincadeiras de outro duo famoso, o Stereo Total, enquanto "Lady's Man" parece ter saído direto de uma coletânea da Cri du Chat ali por volta de 1992 (isto é um elogio, eu adorava as coisas da Cri du Chat).

Gostando-se ou não de Funk Carioca, temos que admitir que as músicas do estilo falam da realidade da vida nas favelas e subúrbios do Rio. Tematicamente, vão muito além de sexo fácil, abordando temas como violência, preconceito e desemprego. Por outro lado, estes são temas totalmente "estrangeiros" para artistas que não vivam uma realidade semelhante, como é o caso do Tetine, portanto entendo a opção pelo sexo na temática. Entendo, mas não gosto. Achei que a coisa ficou repetitiva, pouco criativa, rasa e mesmo confusa às vezes (trecho de "Betty Faria (Eu tô aberta)": "o popozão balança, o popozão sacode...e a parte da frente nem se move." Ahn!?). Como brincadeira, tudo bem. Como obra de arte colocada à venda no mercado cultural (um álbum em formato CD, até que seja descontruído de vez pela crise da indústria fonográfica, ainda é uma obra de arte, certo?), ficou devendo.

Gostaria de ver o DJ Marlboro fazendo uns remixes de "Bonde do Tetão", ou quem sabe produzindo o próximo álbum do Tetine. Seria um encontro interessante.

Ivo Michalick
Ivo Michalick
Ivo Michalick é um mineiro inquieto de olho arregalado, que por onde quer que vá logo começa a agitar as coisas.
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