Alva Noto - Transform (Mille Plateaux, 2001)
31.03.05 01:45
Todo apreciador de música contemporânea (leia-se: toda e qualquer música feita hoje) deveria ler "O ouvido pensante", de Murray Schafer (Editora UNESP). Nele o professor, artista plástico e compositor canadense faz desafios maravilhosos a crianças, adultos e idosos, musicalmente leigos ou não. O primeiro é compor música. E compor música utilizando sons que estão à nossa disposição, juntando os instrumentos tradicionais, o computador, os eletrodomésticos e os sons da natureza numa única palheta sonora. O segundo é ouvir música. Não só em salas de concerto, no rádio ou no aparelho de som, mas nas ruas, no silêncio (?) da sua própria casa, nos parques. Todas essas idéias estão resumidas no que ele chama de "paisagem sonora" (soundscape), que é basicamente todo o som que nos rodeia percebido e utilizado como material musical. Essa idéia permeia a música desde o começo da modernidade, e está presente na obra de grandes compositores como Erik Satie, Iannis Xenakis e Charles Ives, e hoje em dia nas expedições experimentalistas da música eletrônica. É gratificante conhecer artistas contemporâneos que aceitam o desafio de Schafer e fazem da paisagem sonora um material de inspiração musical. Carsten Nicolai é um deles.
Formado em, vejam só, paisagismo, Nicolai a.k.a. Alva Noto trouxe o Noton ao selo Rastermusic, formando com Olaf Bender e Frank Bretschneider o Raster-Noton (www.raster-noton.de). Artista multimídia, é profundamente envolvido em pesquisas com música, áudio e ciência, e sua obra é permeada por essa pluralidade. Tem discos em parceria com outros peritos do experimentalismo sonoro, como Ryoji Ikeda (com quem forma o projeto Cyclo), Mika Vainio, do Pan Sonic (Mikro Makro, Raster-Noton, 1997), que esteve no Brasil para o Sónar, em 2004, Robin Rimbaud, do Scanner (Uniform, SFMOMA, 2001), Olaf Bender, do Byetone, e Frank Bretschneider, do Komet, formando o projeto Signal, e o experiente Ryuichi Sakamoto (Vrioon, 2002, e o fresquíssimo Insen, lançado neste mês; ambos pelo Raster-Noton). Inclusive fez um remodel de "Insensatez", de Tom Jobim, para o disco "A day in New York", de Sakamoto e o Quarteto Jobim Morelembaum. Participa das coletâneas Clicks & Cuts número 2 e 3 do conceituado Mille Plateaux, sub-selo do Force-Inc. Vitrine da chamada "click music" ou "glitch" (se quiser dar nome às vacas), o Clicks & Cuts é uma refinada seleção de trabalhos de produtores como Sutekh, Pole, Kid 606, Thomas Brinkmann, Vladislav Delay, Swayzak, Luomo e Antonelly Electric, todos bem diferentes entre si, mas com algo em comum.
Em Transform, Nicolai parece unir a mais complexa pesquisa eletroacústica com grooves infalíveis, flertando com o rock, o funk, o dub, o IDM, o deep house e o minimalismo (de Steve Reich a James Ruskin). Não que isso fique óbvio nesse álbum: ao ouvir Transform não chegamos a nenhum rótulo, ou mesmo um esboço de classificação de estilo. Tudo parece familiar e ao mesmo tempo estranho. Os ruídos que ouvimos todos os dias em interferências no telefone sem fio, aparelhos de som com mal-contato, máquinas de lavar de vizinhos, geladeiras, organizam-se em células deliciosas, mas nunca são freqüências que ouvimos costumeiramente na música cotidiana (música de rádio, de pista, de show, de concerto). Os graves são gravíssimos, os agudos, agudíssimos (cachorros não devem gostar de Alva Noto).
Por isso mesmo, recomendamos: ouça Transform no carro, no micro-system, nas caixinhas do computador, mas também com bons fones ou um aparelho de som com bastante grave para apreciá-lo por inteiro, pois cada lugar proporciona uma percepção diferente, freqüências que ora se sobressaem, ora se escondem. Isso faz com que a música de Carsten Nicolai crie a cada momento uma composição sonora própria, como uma instalação em constante mutação. A primeira música do disco, Module 01, é um ótimo prefácio à atmosfera sonora que está por vir: um verdadeiro acorde atmosférico de graves e agudos alterna-se com uma melodia gravíssima (sim, é uma melodia, você poderia ouvir alguém assobiando-a pelas ruas) coberta por um groove irresistível de estalos, ruídos, atritos. Está tudo lá: melodia, harmonia, ritmo - bumbo, caixa, hi-hat, baixo.
A música de Alva Noto nos proporciona um deleite sonoro, como se descobríssemos um novo mundo dentro do nosso, mas sobretudo nos chama a atenção para o elemento mais sacralizado da música moderna: o silêncio. Nicolai nos pede silêncio para a apreciação musical, tanto ao ouvir música quanto no nosso dia a dia. Ouça Alva Noto, e em breve estará perplexo diante do imenso leque de sons musicais que ganhamos de presente todos os dias e jogamos no saco de lixo auditivo, fechando nossas janelas anti-ruídos.
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Edson Zampronha