A TB 303 ocupa um lugar especialíssimo no hall da fama da música eletrônica. É uma pequena caixa prateada lançada pela Roland no início dos anos 80 cuja intenção era fornecer linhas de baixo sintetizadas para acompanhar guitarristas. Não virou por que seus sons simplesmente não agradaram o pessoal da guitarra. Logo saiu de linha.
O equipamento foi redescoberto pelos produtores e DJs de house e tecno, que viram nela possibilidades de frequências e timbres de outro planeta. A TB 303 é uma das sonoridades mais usadas na música eletrônica, tanto na máquina original (que virou raridade) quanto nas dezenas de emuladores em hardware ou virtuais que sairam ao longo dos anos (e está na moda de novo, através das produções resgatando a sonoridade da acid house). A seguir alguns discos cruciais que fizeram bom uso do brinquedo (faltou algum? Dê um toque).
"Problèmes D'Amour" ALEXANDER ROBOTNICK (Fuzz Dance, 1983)Ninguém sabe ao certo qual foi a primeira faixa a usar a TB. Meu palpite é este: um electro-funk italiano que até hoje bate bem na pista. Tudo é perfeito: a introdução com a TB (que já foi loopado e apareceu em disco do The Hacker), o riff de synth intenso, a guitarrinha funky, as menininhas cantando em francês.
"Acid Tracks" PHUTURE (Trax, 1987)É aqui que a geração house descobre a caixinha prateada. Também a origem de se chamar tudo que tem TB 303 de "acid" (acid house, acid tecno etc. etc.). DJ Pierre, Spanky e BLA BLA deixando as minhocas tebezóides comerem solto por cima de uma base minimal. Bagulho alucinógeno, sem dúvida.
"Humanoid" STAKKER HUMANOID (Westside, 1988)Aqui batidas quebradas carregam um ataque assassino de TB 303, pontuado por aqueles "gritos-cuíca" tão comuns nessa época. Um hino da acid house, escrito por ninguém menos que os caras que formaram o Future Sound of London depois. Acaba de sair um bootleg do Hertz, dentro da série Clones (existem remixes matadores do Krafty Kuts e Plump DJs também).
"Machines" LAURENT X (Trax, 1987) / "Where's Your Child" BAM BAM (Westbrook, 1987) / "This Is Acid" MAURICE (Vendetta, 1988)Chicago na sua fase mais ácida em três de seus melhores momentos. Na Inglaterra, o fenômeno acid house explodia, com remixes "acid" até para Erasure e Pet Shop Boys. Mas esse pessoal acima era o produto original, o underground do que era então o som mais radical que já tinha entrado numa pista de dança.
"Aceperience" HARDFLOOR (Harthouse, 1992)Depois da saturação de TB na acid house de 88/89, ela sumiu de cena. Foram esses dois alemães, Ramon Zenkel e Oliver Bonzio, que trouxeram a ferramenta de volta para o centro das atenções (seu primeiro álbum se chamava inclusive "TB Ressucitation"). Aqui a TB passou a ser usada de uma nova maneira, apropriada à estrutura do trance que surgia na época: num crescendo, com camadas se sobrepondo, até atingir um clímax explosivo.
"Alpha Wave (Plastikman Acid House Remix) SYSTEM 7 (Butterfly, 1994)Richie Hawtin foi outro que se manteve fiel à caixinha mágica. Com seu projeto Plastikman desenhou minimalismo seco baseado em sinuosos caminhos tebísticos. Material de difícil digestão. Mas às vezes ele se lembrava da pista e soltava uma ogiva como essa na massa desavisada, transformando o ambient-tecno do System 7 em mais de 19 (!) minutos de odisséia pela rodovia 303.
"Higher State of Consciousness" JOSH WINK (Strictly Rhythm, 1995)Um dos maiores sucessos dos anos 90 nas pistas surgiu como segunda do lado B do single original! Que ingenuidade! O lugar certo desse breakbeat acid de alta octanagem é no banco da frente. Coisa de hora do pico, é a faixa que apresentou Josh Wink ao mundo,
"Ego Acid" PUMP PANEL (Synewave, 1994)Genial momento do Pump Panel, que eram Tim Taylor e Dan Zamani. e base rítmica se desdobrando em longas linhas hipnóticas, num resultado simples e eficiente.
"Access" DJ MISJAH & DJ TIM (X-Trax, 1994) / "Neuromancer" WIPPENBERG (Prolekult, 1995)Hits da TB que bombaram em meados dos anos 90, num terreno entre pré-acid tecno, acid trance e hard trance. A TB doidona a serviço da aceleração.
"The Rabbit Name Was..." A&E DEPARTMENT (Stay Up Forever, 1995) / "Nothing Can Save Us... London" STAR POWER (Stay Up Forever, 1996)O underground de Londres abraça a TB 303 de corpo e alma. É a alvorada do acid tecno e de TBs insolentes e esporrentas em dezenas de faixas de selos como SUF, Havok, Boscaland, Smitten, Hazchem, entre outros. A trilha oficial das squat parties inglesas.
Muito bom!