Dizzee Rascal Boy in da Corner (Matador/USA XL/UK)
26.05.04 01:45
Você é um jovem londrino de 17 anos, pobre, negro e sem grandes perspectivas na vida. Vai fazer o quê? Se seu nome é Dizzee Rascal, vai produzir num PC da escola pública que freqüenta (e com a ajuda de um professor de música!) um disco onde descarrega toda a sua raiva e influências. E aí vende zilhões de cópias e ganha o Mercury Prize de 2003 (álbum do ano no Reino Unido).
"Boy in da Corner" é o nome desta sessão de auto-análise feita por Dizzee Rascal (a.k.a. Dylan Mills). Lançado no Reino Unido em julho de 2003, foi um raro caso de unanimidade entre público e crítica. Por causa das múltiplas influências ficou difícil colocar o trabalho numa categoria específica, trata-se de algo como uma fusão bem eletrônica entre Garage e Hip Hop (inglês, que é bem diferente do americano em termos de ritmo e temática). Um rótulo recente inventado pela imprensa britânica para esta turma é "Grime" (no qual também se encaixa o grupo So Solid Crew). Para dar uma idéia do impacto do disco sobre a crítica (consumado no Mercury Prize), vejam este comentário de Alex Petridas, do londrino The Guardian: "o artista mais original e excitante a emergir da cena Dance (nota: é assim que os britânicos se referem à cena eletrônica) em uma década".
Diante de tais credenciais, confesso que esperava algo como uma versão negra de Mike Skinner (The Streets). Ledo engano: apesar de ambos serem trabalhos de jovens pobres londrinos e abordarem vários temas em comum (raiva, desemprego, violência, desilusões amorosas etc.), o trabalho de Rascal é bem mais radical na forma e conteúdo. Ao ouvir o disco inteiro pela primeira vez confesso até que fiquei meio incomodado, um efeito que ocorre até hoje, 3 meses depois da primeira audição. Aliás, esta é uma grande preocupação que os executivos da americana Matador (que lançaram o disco nos EUA em janeiro e estão investindo pesado em divulgação) devem estar tendo, pois "Boy in da Corner" não é exatamente um disco de Hip Hop falando de carrões, "bling-blings" e outros temas mais "profundos" comuns no Hip Hop americano.
O disco parece mesmo uma viagem pela cabeça de Dizzee: começa calminho, com "Sittin'here", onde Dizze fala a letra em cima de uma base bem simples, com uns ruídos de sirene e tiros esporádicos ao fundo. A letra é sobre...nada! Ficar sentado no quarto, ouvindo música, olhando pras paredes. Aqui vai um trecho (sinto, mas este tipo de letra não fica legal traduzida, pois perde boa parte do impacto):
"I'm just sitting here, I ain't saying much I just think
And my eyes don't move left or right they just blink
I think too deep, and I think too long
Plus I think I'm getting weak cos my thoughts are too strong
I'm just sitting here, I aint saying much I just gaze
I'm looking in to space while my CD plays
I gaze quite a lot, in fact I gaze always
And if I blaze, then I just gaze always my days"
Aproveite esta calmaria inicial, pois daqui pra frente a coisa só piora: "Stop Dat" tem uma letra praticamente ininteligível, mas destila raiva na forma e no conteúdo. O fundo com o baixo eletrônico típico da cena Garage deve ter ajudado a rotular o trabalho inicialmente dentro daquele estilo. "I Luv U" começa bem no título, você pensa que deve ser uma bela estória de amor ou algo no gênero. Ledo engano: a batida meio "Electrofunk" e a letra, um duelo verbal entre Dizzee e uma suposta namorada grávida (sem querer), te deixam ainda mais incomodado.
"Brand New Day" parece uma brincadeira do artista com algum software barato de produção musical, mas a letra é séria e fala sobre rivalidades entre gangs sendo resolvidas a bala. "Gotta stay strong", termina dizendo a letra. A forma meio incômoda e a temática baseada em raiva e inadequação continua em "2 Far", e aí vem um crossover bem interessante que deve ajudar a vender o disco nos EUA: Dizzee pegou "Big Beat", um rock de arena típico dos anos 80 americano Billy Squier, e fez um mashup colocando uma letra típica da turma americana do "Gangsta Rap".
O resto do disco segue esta mesma linha: ruídos estranhos, letras raivosas, harmonias esquisitas. E no entanto a coisa fica na sua cabeça. Bom, o disco tem pelo menos um hit, que dá uma boa idéia de onde pode chegar um Dizzee Rascal bem comportado (ao menos na forma): é "Jus a Rascal", com uma base de guitarra meio Heavy Metal, uma harmonia meio Dancehall (forte na cena Londrina), e uma letra que destila ódio por todos os poros. "Wot U On" começa parecendo que vem aí um Drum'n'Bass pesado, mas em nenhum momento a coisa "decola", tornando a faixa inútil para as pistas.
Aliás, por falar em bom comportamento, tem uma participação legal de Dizzee Rascal na faixa "Lucky Star" em "Kish Kash", o disco mais recente do Basement Jaxx (que saiu por aqui).
Mas o cara não é só raiva: na letra de "Jezebel" dá para perceber um mínimo de simpatia pela situação da "homenageada": 16 anos, duas filhas de pais desconhecidos, cheia de doenças venéreas, tão jovem e já sem nenhuma esperança na vida.
Parece que, além do professor (Mr. Smith) que o ajudou a criar o disco, a única pessoa que Dylan Mills ama e respeita na vida é a sua mãe, a quem faz uma bela declaração de amor no encarte. Com tanta raiva dentro de si, talvez a música seja a única alternativa capaz de mantê-lo em paz consigo mesmo e com o resto do mundo. Mal posso esperar pelo segundo disco...
Ivo MichalickIvo Michalick é um mineiro inquieto de olho arregalado, que por onde quer que vá logo começa a agitar as coisas.