Mudhoney e a catarse grunge
Mark Arm
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Mudhoney e a catarse grunge
Apresentação de pioneiros mostra que o espírito grunge ainda tem lenha pra queimar.
05.06.07 12:50
A paulistada teve uma chance única de entender porque o rock grunge dos anos 90 foi o que foi. Na sexta, mais de mil pessoas lotaram a Clash, na Barra Funda, para ver aqueles que estavam entre os criadores do som de Seattle, momento do rock no começo dos anos 90 que sinalizou com um fim de qualquer estética oitentista ou new wave, e criou mitos como Kurt Cobain, Pearl Jam, Soundgarden, camisas de flanela xadrez e a tradicional variação entre guitarras e vocais pop melódicos e pesados.

É a volta do grupo ao Brasil depois de um ano e meio, quando abriram a primeira turnê do Pearl Jam por aqui. Nessa época, um show rápido, rasteiro, sucinto, que deve ter deixado os moradores do Pacaembu com dor de cabeça de tão pesado. Foi um contraste e tanto ao epopéico Pearl Jam de Eddie Vedder, o Bono Vox do grunge. Dessa vez o Mudhoney teve o palco apenas para si e o público todo na sua mão, ensandecido, disposto a absorver e um show mais ilustrativo de toda a carreira da banda americana..

Tudo começou muito descontrol, e em 15 minutos três grandes hits dos caras já tinham sido queimados em meio a moshes, gritaria, empurra-empurra e gente passando mal: "It is Us", "Suck You Dry" e a épica "Touch Me I'm Sick", que vem como uma catapulta em guitarras reverberadas em riffs curtos, com um vocal bem nos moldes do punk dos anos 70, a mesma pegada de refrão de quando Iggy berra "I wanna be your dog!". No meio disso, um momento mais progressivo com "Where is the Future", música do ano passado, com o vocalista/guitarrista Mark Arm engolindo o microfone em hipnose e
cantando que vivia numa bolha e ia visitar seus pais em Marte. Psicologias para adolescentes e duas referências originárias do grunge já haviam sido expostas ali, no ato: o punk e o progressivo rock 70. Tudo sem os excessos daquela época, já que uma boa característica do grunge foi sua veia sucinta de músicas com menos de quatro minutos. Rápido, intenso e rasteiro.

E seguiu assim, uma música e outra, moshes do público, na sua maioria adolescentes (sim, o espírito continua vivo!) e quase-trintões lembrando seus tempos de "89, a Rádio Rock!" A banda parecia gostar do que via, o vocalista, um americano com cara de escocês, contemplava, estático, o público em vários momentos. Para retribuir, a banda mostrou uma bandeira "Superfuzz" do Brasil, soltou "obrwigadows" e verteu várias latinhas de cerveja.

OS BONS E VELHOS "LOSERS"
Antes do primeiro bis - foram dois até o final dos 100 minutos de show -, a banda engatou "The Money Will Roll Right", ironizando a ambição da fama em bom inglês, dizendo que um dia eles poderiam foder a Brooke Shields, mas seriam idiotas deslumbrados, o bom e velho "loser". As letras mal-educadas, mais rebelde sem causa do que punk britânico afetado, talvez sejam uma das razões pela qual a banda não seguiu o trilho de Pearl Jam, Nirvana, Alice in Chains, Soundgarden e afins. Poderiam tê-lo feito, como provou "New Meaning", a música que entrou na seqüência e rimou de maneira inocente o fim de um namoro em versos, pontes e estrofes bem escritas. É a veia pop do grunge, aquela que tem como expoente máximo a melosa "Last Kiss", do Pearl Jam.

Depois, num momento mais no improviso, uma faixa que não sei qual o nome, a mais longa do show, que em seis, sete minutos foi de guitarras rasgadas até os riffs mais agudos do punk, do psicodélico lento, quase hipnótico, que de repente se transformou num proto-heavy metal melódico, bem "Fear of the Dark", "Mama Said" e afins. Taí outra influência inegável do grunge, o metal caveira, o death, trash metal do fim dos anos 80 e 90, que perdura até hoje em vários rincões musicais.

Daí até o final foi mais pesado, mais punk, "You Stupid Asshole" e coisas do tipo, e como o grunge por vezes é barulho demais, você começa a focar em certos detalhes, como a potência do gogó do vocalista. Mark não tem mais 22 anos e sua garganta nunca foi rasgada como a de Kurt Cobain, mas em 2007 ela continua lá, prolongando os yeaaaaaaaaaaaaahs em longos segundos, sem atrapalhar a cadência da música. Voltaram para um segundo bis, atendendo berros, e lascaram "Here Come Sickness" e "Hate the Police". Essa última é regravação de uma tal banda Dicks, bem importante, mas definitivamente a maioria da garotada se acabando ali não pensou nisso, queria apenas pular, berrar, ouvir a guitarra tremer. E isso o Mudhoney sabe fazer em shows como esse, impecáveis.

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
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