Richie Hawtin, mercado de moda, calor e céu azul foram os presentes de dois anos da festa
Dezembro chegou com o verão batendo à porta e o turismo clubber começa a aflorar no Brasil tendo o Rio de Janeiro, nossa Barcelona, como um dos principais destinos. Sem ser necessariamente um defeito, a cena eletrônica do Rio é permeada por poucos clubes no roteiro Zona Sul, trezenas de boates gays, algumas "festas de house" (ao contrário do que acontece em SP, o termo ainda vive com força), uma paixão permanente pelo electro e festas de psy bem questionáveis nas estradas para a Baixada ou lá longe na Zona Oeste.
De vez em quando pipoca algo paralelo, como a MOO, festa criada há dois anos pelo DJ Eduardo Cristoph, que tem como conceito básico unir festa e design, veia artística extravasada nos famosos flyers da festa. A estética contemporânea e o grafismo característico das filipetas layers, sobreposições, fotos vs traços, minimalismos, etc -, viraram pôsteres de fazer coçar a mão (e o bolso) no bazar que rolou na edição de dois anos do evento, esse sábado no Rio.
Na sexta, sábado e domingo funcionou um mercado de moda, não necessariamente um bazar. Quem chegou lá com trocados se assustou, ponta de estoque só na Vila Madalena mesmo. Marcas cariocas como Flesh Beck Crew, Isabela Capeto, Osklen e outras multimarcas dividiam espaço com os pôsteres, peças de neon em exposição e o animado restaurante Miam Miam, criando um mini-Mundo Mix de luxo.
ABAFADOReza a lenda que toda festa/evento grande no Brasil tem a benção holística do Cacique Cobra Coral, para evitar tempo ruim. Um ebó bem caro, coisa de dezenas de milhares de reais, que ou o crew da MOO pagou ou Pai Coral fez de graça, já que o Rio passou de uma semana úmida e chuvosa para um sábado fresco, com céu tropical e sol a 35º, quente como a savana africana. O convidado de honra da festa veio do gelado Canadá, Mr. Richie Hawtin, que, animado, tocou quatro horas até o sol vazar da clarabóia do imponente prédio de quatro andares, datado de 1900 e pouquinho, com estética art noveau em pleno centrão do Rio.
Com uma águia (ou fênix?) no topo do edifício segurando o mundo com o bico, é um novo espaço na cidade que depois de anos fechado foi restaurado e agora entra no incomparável roteiro de lugares incríveis para festas no Rio: Morro da Urca, Mourisco, Marina da Glória, Ipanema, etc... Hora de baixar a guarda do bairrismo e a paulistada engolir o Anhembi e admitir o ditado: "Me desculpem as feias, mas..."
TECHNOVoltando à música, os cariocas tinham a lembrança de Hawtin no verão de 2005, quando ele tocou com Villalobos na falecida festa Delírio. Quase contemporânea da MOO, essa label foi um boom de ousadia na cena local, mas desapareceu com a mesma força que apareceu.

Sábado Richie baixou lá com seu Final Scratch, aqueles plates brancos que mais parecem LPs antigos de histórias infantis (foto). Não revolucionou as concepções musicais de ninguém em uma noite mas animou bastante, deixando gotículas muito programáveis de minimal para lado com um set mais techno: baixo/beat gordo, bases bem longas ele parecia repleto de opções nos seus laptops, demorava pra escolher? -, e loops que as vezes pareciam saídos do chão ou da parede ao lado.
Ele tocou com pompa demais, agora cabeludo, parando para colocar o cabelo atrás da orelha. E o olhar compenetrado de quem tira de letra aquele monte de botões e canais? Ele se leva muito a sério... Faz parte, talvez se não fosse assim ele não seria Richie Hawtin, amém. Quem abriu a noite foi Diogo Reis - space disco é uma realidade no Rio -, e Edu Cristoph, mais requebrado, a cara da cidade. Com um telão gigante, pista pequena e quatro andares de área de festa, teria sido perfeito se não tivesse um bar tão tumultuado.
O Rio é uma das cidades mais abastecidas de flyers do mundo, de saunas gays a rodas de samba, todo bar tem toneladas. A MOO trabalha a divulgação mais contida, específica, tornando-se o tipo de festa-acontecimento que está na boca de muita gente, tipo de evento em falta na capital paulistana acostumada à intensa rotina de clubes e festivais.
Adicione a isso as vicissitudes boas do Rio - carisma, beleza, bom humor, sexualidade iminente, turistas - e os tradicionais problemas transporte caótico, atendimento ruim, confusão, criminalidade e tenha um fim de semana inesquecível de alguma maneira, com ou sem Richie Hawtin.
Veja abaixo a cobertura em vídeo da festa:
Diogo Reis + Mercado de Moda
Eduardo Christoph
Richie Hawtin
Richie Hawtin 2*O repórter viajou ao Rio a convite da festa
nem foi do Sónar, foi de um festival meio MTV da bélgica, pega leve