Soulwax, Dominik Eulberg, 2Many DJs, James Holden e espaço tecnológico. Chuva pode ter prejudicado presença do público
Acabou. O Nokia Trends encerrou um ano intenso de festivais, festas e mega-eventos musicais no Brasil, confirmando mais uma vez a primavera brasileira como alta temporada de atrações. Ao contrário da edição de 2005, que teve lotação excessiva, problemas no som e pontos localizados de muvuca e empurra-empurra, o Nokia desse ano zelou por uma organização impecável, artística e tecnológica, além de line-up versátil e com nomes de peso relativo: Ladytron, 2Many DJs, James Holden, Soulwax, The Bravery...
O aquecimento global marcou presença no sábado e soltou um calor infernal de dia com chuvas torrenciais à tarde e à noite. Marginal molhada, pontos de alagamento pela cidade e preguiça de enfrentar tempestade podem ter tirado público do evento, já que muita gente não sabia que seria uma festa coberta. A assessoria do festival divulgou que 12 mil pessoas estiveram presente, mas a imprensa local de hoje fala em 7 mil, número mais coerente com a tranqüilidade da Nokia Connecting Street, a área de convivência do festival.
Outro ponto a se ressaltar: a inserção comercial da Nokia foi suave se comparada à outros festivais e a própria edição de 2005, que tinha até cueca da marca à venda. Além disso, a empresa preferiu diluir seus conceitos em instalações artísticas (Digital Spray era lindo) e parceria com a RESFEST, o que é sempre bom.
Prefeitura, sempre presenteComo não podia deixar de ser, a Prefeitura de São Paulo também teve seu papel na festa. Alegando "diminuição da violência', vetaram na última hora a venda de bebidas destiladas quentes (vodka e whisky). Amantes de um scotch ou de uma caipiroska, é bom se preocupar: há o risco da moda pegar, ainda mais que a assessoria do evento divulgou zero ocorrências policiais e médicas.
A escalação desse ano foi mais conceitual e misturou minimal, indie rock, electro, mash-ups, prog e techno. Mesmo sem um headliner de peso (Motomix teve Franz, Skol Prodigy, Daft Punk no TIM..), foi um leque abrangente o suficiente de estilos para alegrar insiders e nerds musicais internéticos. Quanto mais desconhecida era a banda, mais tinha gente sabendo as letras de cor.
Uma iniciativa ousada deu certo: a organização destinou um espaço bem maior para o Club Stage, enquanto os shows de rock ficaram no intimista e escuro Live Stage. A lotação do 2Many DJs no Club seria insuportável no outro palco, em festivais o interesse ainda parece ser dançar.
Com o festival encerrado sem traumas e com boa impressão, é aguardar a edição 2007. Confira o review das atrações, em breve, cobertura fotográfica e em vídeo, com entrevistas e cenas de backstage.
LIVE STAGE
We Don't Play Guitars (Anymore)A banda dos irmãos Dewaele não só apagou a impressão do show morno no TIM Festival de 2004 como fez talvez a melhor apresentação desse Nokia Trends. Falou-se muito do "show de rock mixado", mas o Soulwax passou de banda indie a um "live PA de banda". O Soulwax agora tem samples: cornetas new rave (o destino deles), loops de acid house, Chemical Brothers, Patrick "Born to be Alive" Hernandez, Tiga, Altern-8, Alter Ego e até Nelly Furtado.
Destaque para o bateirista, nervoso, dava o tom da apresentação junto com as programações de Dave. Poucos vocais, muitos berros: Stephen as vezes parecia o Johnny Rotten do mash-up, chamando São Paulo muitas vezes. Como era cedo, ganhou o pouco público presente fácil, que foi feliz com "NY Excuse" e "E-Talking".
O Soulwax é um dos poucos casos inversos de bandas de rock que caíram nas graças da eletrônica. Hoje em dia, geralmente acontece o contrário, vide Ladytron. Assim como o Simian Mobile Disco, que antes era insossa banda Simian e só foi ficar conhecida ao ser remixada e agora são os reis da new rave, Soulwax tem um longo e promissor caminho pela frente.
Cotação: 5 estrelas
AdolêEm 2003, eles eram, ao lado do Rapture, um vigor e uma promessa. Em 2006, dois álbuns depois, o Hot Hot Heat fez um show alternativo-adolescente no Live Stage do Nokia. A pose do vocalista Steve Bays não valia o gogó e a calça apertada: "Talk to Me, Dance with Me" foi a carta na manga que a banda já queimou, sem muito clima épico, na terceira música com participação do bateirista do We Are Scientists em um cowbell. Ganhou mais aplausos com a ótima "Bandages" e "Good Night", hit barulhento que seria perfeito para trilha de
American Pie. Desde
Elevator, o Hot Hot Heat deixou o dance punk para trás e admitiu um caminho mais pop. O problema é que ao vivo isso pode ir contra as origens mais criativas da banda, pasteurizando tudo.
Cotação: 2 estrelas
We Are ScientistsO We are Scientists na seqüência foi a evolução natural do Hot Hot Heat. Surgida em mais um boom de rock cru, ao lado do Arctic Monkeys, a banda indie americana conseguia misturar refrões fáceis com bases consistentes: paradinhas grunges, vocais a la P.I.L., e melodias estruturadas com o baixo, que na banda tem a mesma importância da guitarra.. Outra vez, a surpresa ao ver o público cantando muitas músicas junto. "Nobody Move, Nobody get Hurts" foi o ápice, entrecortada por muito falatório de Keith Murray (guitarra/vocal) e Chris Cain (baixo/vocal). Compreensível que a banda seja um dos principais expoentes da tag "catchy" (grudento) no last.fm
Cotação: 4 estrelasBravosA primeira atração roqueira anunciada para o festival e a terceira a subir ao palco do live stage, o Bravery reuniu um bom público diante do telão que entretia a multidão no intervalo dos shows.
Mesmo sem ser muito conhecido por aqui, o quinteto nova-iorquino animou bastante o povo com sua postura roqueira sobre o palco. Teve até baixista subindo na bateria e o vocalista Sam Endicott oferecendo o microfone pra platéia cantar junto. E o povo não decepcionou, as letras estavam todas na ponta da língua e os refrões eram cantados a plenos pulmões.
Com a franja desmanchada pelo suor, Endicott anunciou algumas das músicas inéditas. Em seguida, tocaram "Every Word From Your Mouth Is A Knife In My Ear", uma das novidades do novo disco.
Cotação: 4 estrelas
PlaygaaaalFoi o show que dividiu mais opiniões, mostrando a divisão dos fãs da banda em dois tipos: os novo roqueiros, fãs de "Sugar" e do último álbum, e dos antigos admiradores da fase mais eletro(clash), "Playgirl", "Seventeen", "Paco!"...
Com clima intimista, esfumaçado e gótico (sim, gótico, tudo muito introspectivo), a banda obviamente fez a alegria do primeiro time de fãs. Nada de electro "frívolo e superficial", nas palavras de Ruben Wu (aguarde a cobertura em vídeo) - e açúcar dos tempos de
604, a ênfase foi o álbum
Witching Hour, aquele em que eles fazem dos synths guitarras. Mira Aroyo e Helen Marnie, lindas e delicadas, fizeram as vezes na frente. O sotaque escocês de Helen, uma mistura de Shirley Manson com Louise Brooks, assustava: playgirl virou PLAYGAAAL. Outro susto foi a versão pesada para "He Took Her to a Movie". É um caminho sem volta, a banda já anunciou que o próximo álbum, a ser lançado no ano que vem, segue a mesma linha e o mesmo produtor, que já trabalhou com Placebo.
Intimista demais, etéreo e delicado ao extremo, a banda não prendeu muito a atenção de quem esperava algo mais dançante e talvez até para alguns fãs do "outro lado", foi difícil curtir um show sem muitos hits o tempo todo. Morno demais para uma atração headliner (corporativamente, para a Nokia, o Ladytron era a principal atração). O final com "Destroy Everything you Touch" levantou a pista e compensou. Helen não parecia, mas ela estava muito feliz.
Cotação: 3 estrelasCLUB STAGE
Outra franja minimalTerminados os sets dos residentes da seleção brasileira de clubs, foi a vez de Dominik Eulberg. Nada de redes de caçar borboletas ou samples de passarinhos. Dominik subiu ao deck com o típico penteado escorrido dos entusiastas do minimal techno e fez, pelo menos de início, o que era esperado. O set do alemão começou com bateria 4x4 abafada e bem marcada, arranjos simples que pouco a pouco preencheram os buracos que haviam na pista.
Da metade em diante, parece que Dominik se entregou e largou mão do seu tão defendido minimal para soltar um electro mais cabeçudo. Teve até "La Rock", do Vitalic, com direito a multidão com bracinhos para cima. Parecia que Eulberg estava dando a dica de que a próxima atração eram os hiteiros do 2Many DJs.
Cotação: 4 estrelas
2Many HitsUma das atrações mais esperadas do festival, Stephen e Dave Dewaele foram o ápice de lotação no Club. Segunda vez em São Paulo, a banda perdeu a aura de novidade e como não foi fundo na esquisitice e na ousadia do repertório fulano queria ouvir Dolly Parton com Grace Jones , a dupla ficou na empolgação de seu público e na excelência de sua técnica.
Em entrevista ao rraurl, Stephen se declarou o "rei da new rave". E ele parece levar o auto-título a sério: o excesso de electro-rock e rock eletrônico cansou, tornando o set muito cabeçudo em vários momentos. Mas aí vinham Blur x Simian vs Justice, Bonde do Rolê com reggaeton, Prodigy com breakbeat e minimal com Miss Kittin.. a lista é longa: "La Rock", do Vitalic, foi épico, assim como foi com Eulberg, Lipps Inc., Madonna, Primal Scream, Justice, CSS, Technotronic e Locomia (sugestão do rraurl para a dupla, aguarde a cobertura em vídeo). Muita coisa que um DJ old school poderia ter no seu case.
Mas como a apresentação deles ainda é um estilo não muito freqüente a ser visto em festas e a técnica ainda é realmente algo impressionante era legal ver no telão da praça de alimentação a filmagem do palco, mostrando a rapidez e a tensão dos dois -, ver o 2Many DJs é tão legal quanto ver um turntablist. Mas é só isso e é uma pena que uma dupla conhecida pela sua versatilidade agora queira ser o máximo de um novo gênero inventado pela mídia.
Cotação: 3 estrelas
MiniprogCom uma pancada no play do CDJ, James Holden começou seu set como era esperado quem já tinha ouvido alguma de suas compilações já sabia que o que vinha durante o set do inglês. Com o cabelo comprido caído sobre o rosto e soltando uns sorrisos esquisitos, Holden voltou com os BPMs tranqüilos e com a bateria reta. A multidão, que havia transformado o club em um inferninho durante o set do 2Many DJs, foi conferir o show do Ladytron e deixou a pista em um clima bem mais sossegado.
Para colaborar com o clima prog viajante que tomou conta do ambiente, alguém soltou uma essência de eucalipto que, se não fosse o ar condicionado potente, teria transformado o club em uma sauna. No fim do set, Holden escapou um pouco do habitual e deu uma canja de timbres minimalistas para os que não estavam no clima do Ladytron.
Cotação: 3 estrelasminiMau MauNão sei se faz tempo que esta reportagem não via o Mau Mau tocar, mas ele tocou minimal! Claro, minimal no viés funky techno que lhe é característico, mas como nos foi bem lembrado, ele está na véspera de um novo disco. No mais, fez jus à fama de bom condutor de grandes platéias. Pista animada até o final, às oito da matina, funky techno, muitos vocais, breaks e ressuscitou a cintura de todos os fritos e cozinhados.
Cotação: 4NOKIA TRENDS 2006Estrutura: 5 estrelas
Escalação: 4 estrelas
Shows: 3 estrelas
Vibe/Fervo/Magia: 3 estrelas
Presença Corporativa: 4 estrelas
Cotação geral: 4 estrelas
Dois paus!
Já na galeria, o erro foi consertado. E o Digitaria não era o único "artista brasileiro" no palco. Teve dallanese, claudinho I, ratier e mau mau, que foi resenhado.