New Order - EU GOSTEI
17.11.06 17:40
Foi Nietzsche que disse uma vez que "é na música que as paixões se divertem".
O show do New Order no Via Funchal foi uma prova contundente de que o velho filósofo estava coberto de razão: as paixões desceram em peso no local e eram palpáveis na atmosfera. Para mim, não há como analisar de outra maneira. Por isso, foi um dos melhores shows que já vi na vida. Aposto meu vinil do "Thieves Like Us" que 80% das pessoas ali presentes concordariam comigo.
Então, não adianta dizer que Bernard Sumner desafinou e entrou errado em algumas músicas (ele sempre foi um vocalista limitado tecnicamente; o que importa na sua voz é o timbre frágil e emotivo); que o som do Via Funchal deixava a desejar; que o New Order estava "cansado" e não "agitou" (eles sempre foram meio parados no palco; ridículo seria eles entrarem saltitando com os braços erguidos). Eu vou deixar esses pormenores técnicos e burocráticos para aqueles que Nelson Rodrigues chamava de "os idiotas da objetividade". (Mas vale lembrar que cobrar virtuosismo técnico de uma banda surgida no punk, inspirada pelos Sex Pistols, é mostrar total falta de entendimento do contexto histórico do grupo)
Para quem foi ali ver ao vivo, a grande maioria certamente pela primeira vez, uma banda que há muitos anos participa de sua vida como trilha de noitadas, estradas, roubadas, horas solitárias, horas coletivas, momentos altos, momentos baixos, etc.; etc. não há nada o que discutir. Estava tudo certo, perfeito e feliz (e, fazendo uma concessão ao debate técnico, eu acho que eles tocaram muito bem no geral).
Faço minhas as palavras do parceiro Alexandre Matias sobre o New Order no seu blog Trabalho Sujo: "algo que se tenha ouvido com tanta frequência em uma determinada época da sua vida, que se torna, de certa forma, parte, mais do que da sua formação musical, mas da própria formação da sensação de ser você mesmo."
Este não era um espetáculo qualquer, mas sim a realização de uma antiga paixão platônica que agora, finalmente, podia ver de perto, respirar o mesmo ar ou até tocar o objeto de seu desejo. Sabe aquelas pessoas que se correspondem por anos mas nunca se encontraram? O show no Via Funchal foi esse encontro para a maioria dos presentes. Para alguns ali foram quase 20 anos no aguardo.
Dá para começar a entender a carga emocional ali presente? Quando Sumner se esguela em "Perfect Kiss", faz sua dancinha de helicóptero em "True Faith", toca sua gaita de boca em "Love Vigilantes"; quando Peter Hook faz pose de rockstar com seu baixo imponente e desfila sorridente perto do público; quando ouvimos faixas do Joy Division como "Transmission" (com Sumner cantando bizarramente parecido com Ian Curtis) e "Love Will Tear Us Apart"; ou mesmo quando pegamos um relance do tímido Stephen Morris escondido atrás de sua bateria
tudo isso nos deixa, devotos fãs desse pessoal, entre o arrepio, a euforia e a lágrima.
How did it feel? Aboslutamente fantástico!!!
Poderia ter sido uma merda, seria bom de qualquer forma. A gente nunca se arrepende de encontrar o tal amor platônico, por que é impossível, depois de tantos anos à distância, perceber no dia do encontro, que nunca o amou de verdade.
Me arrepiei novamente lendo seu texto! Me senti no show...
Realmente foi um dos MELHORES SHOWS DA MINHA VIDA!
Parabéns Camilo!
E parabéns NEW ORDER!
Fora a comodidade, sem molecada etc etc