Oh não! Todo mundo quer ser DJ!
01.05.02 01:45
Seja pelo glamour, seja pelas novas e maiores possibilidades de conquistas sexuais, seja pela fama, seja para entrar de graça na balada, ou - motivo raro mas ainda possível - seja pela boa e velha música, hoje em dia até sua vó quer ser DJ. Aliás, o fenômeno é geral: saiu uma pesquisa da Visa no Reino Unido que diz que um em cada sete homens ingleses acima dos 30 sonha em ser DJ.
Isso vale também para os que não admitem publicamente o fato, aqueles que só estão comprando pick-ups, mixer e vinil "para brincar um pouco". Mesmo esses, não demora muito, estão tendo seu nome colocado em algum flyer no set das três da tarde do after hours do Rabo de Saia.
Por um lado, acho tudo isso muito divertido. Música é um hobby excelente, se virar uma carreira melhor ainda. Outra coisa boa é que faz girar todo o mercado de venda de vinil e equipamento, que se fosse depender só de DJs profissionais não teria muito futuro. Só que é importante lembrar de uma coisa: simplesmente não há espaço para todo mundo e, na enorme peneira que é a vida, a maioria nunca vai ser ouvida além da sala de estar de sua casa. Pode ser injusto, pode ser sacanagem de uma ditadura opressiva dominada pelas Grandes Panelas do Mal, mas é a realidade nua e crua.
Eu tenho a solução: diversificação. É o seguinte: enquanto assistimos a essa hiper-inflação de disc-jockeys, existe uma falta desesperadora na cena de profissionais top que sejam designers gráficos, artistas visuais, web designers, fotógrafos, decoradores de clubes e festas, especialistas em equipamento de som e luz, promoters, divulgadores, jornalistas, fanzineiros, hostesses, barmans e womans, empresários, donos de selo, engenheiros de som, entre outras coisas.
Embora já tenhamos muitos caras bons em todas essas áreas, a maioria ainda deixa a desejar. Uma boa fatia é ruim mesmo. Veja, por exemplo, a quantidade de flyers feios e sem imaginação que tem por aí. Já na Europa e EUA essas são todas profissões muito sérias, reconhecidas e bem remuneradas, com muita gente se destacando nelas.
Acho que a maturidade de uma cena se avalia também pela qualidade geral do que faz parte dela: não só bons DJs e pistas cheias de energia mas também eventos bem organizados, publicações de nível, decorações fantásticas, flyers de cair o queixo, produção musical criativa e tecnicamente bem feita, sites interessantes etc.
Enquanto tudo isso não for satisfatório e todo mundo só quiser ser DJ, significa que o deslumbramento ainda determina muito do que essa cena é. E esse outro lado da questão não tem nada de divertido, é mais para medíocre mesmo.