John Peel Center for Creative Arts abre ainda esse ano
Fachada do prédio do futuro John Peel Center, em detalhe do poster de divulgação
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John Peel Center for Creative Arts abre ainda esse ano
04.12.12 15:10
O último dia 25 de outubro marcou mais um John Peel Day, o oitavo desde que John Peel faleceu. Num dia gelado de outono na Inglaterra, dentro de um galpão de 1835 no centro de Stowmarket, condado de Suffolk, arcos de metal que sustentam o teto estão sendo pintados de vermelho vivo. É mais um detalhe do trabalho de preparação do John Peel Center for Creative Arts.

O centro cultural, batizado com o nome do DJ e radialista inglês que durante quatro décadas apresentou ao mundo bandas que vão de Pink Floyd à Underworld passando por The Cure e Goldie, deve abrir nesse fim de ano. Mas Tom Barker, vice-diretor responsável pela empreitada, não quer dar nenhum detalhe.

"Nós queremos evitar pressão. Provavelmente vai haver uma abertura tranquila, até porque nós temos que nos dar tempo para treinar os voluntários que vão cuidar do espaço," diz Tom. A banda que vai tocar na abertura não está sequer sendo discutida agora, ainda que seja fácil ter idéias mirabolantes sobre o assunto.

"Muita gente gostaria de tocar, claro, mas não vamos apressar as coisas," ele pondera, antes de lembrar que há pouco Billy Bragg, The Fall e Undertones tocaram em comemorações do John Peel Day ao redor do mundo.

Os recursos estão vindo de diversas fontes: "São cerca de dez patrocinadores principais e depois nossa própria captação de recursos e doações do público e da cidade." Tom me explica que a maior parte do dinheiro vem de recursos públicos como o National Lottery e da construtora responsável, que considera esse seu maior projeto do ano. O custo total é de quase um milhão de libras. "Como uma organização, todos nós trabalhamos de graça, é um voluntariado, ninguém recebe pagamento," Tom me diz. "Há cerca de dez pessoas trabalhando no projeto, com graus de envolvimento variados. Tudo isso está dando bastante trabalho."

O prédio onde o centro cultural vai funcionar não é muito grande, com dois andares e muitas janelas para entrada de luz natural. Deve receber cerca de 250 pessoas por vez. Depois da entrada há um pequeno lounge, um palco central, um bar lateral e uma escada para um mezanino. Além dos já citados arcos vermelhos, há bonitos vidros coloridos pintados nas janelas e placas de captação de energia solar instaladas nos telhados.

O John Peel Center anunciou nas últimas semanas que está recebendo doações de voluntários agora na finalização da obra. Segundo eles tudo é útil: cadeiras, mesas, objetos de escritório. Há também vagas para quem for trabalhar no Centro, que fica na pequena cidade de Stowmarket, condado de Suffolk, leste da Inglaterra. Tá na área? Vai lá!
Nada disso veio fácil, claro, e ainda há muito a ser feito antes do centro realmente poder ter uma data de abertura (veja box ao lado). Mas a idéia foi muito bem aceita desde o começo pela comunidade de Suffolk, que vê o centro como uma oportunidade de colocar a vila, que fica cerca de uma hora e meia de trem ao leste de Londres, no sempre produtivo mapa musical da Inglaterra.

Ajuda o fato de que Peel era parte bastante querida da vida de Stowmarket. O próprio Tom é um entusiasta, veterano das raves e fã de drum'n'bass que lembra da primeira vez que ouviu o programa dos DJs Fabio e Grooverider na Radio1 - "Tudo sempre nos leva de volta à John de alguma forma, sabe? O programa de drum'n'bass na Radio1 só aconteceu porque ele cedeu o espaço na programação para a dupla."

John Peel faleceu subitamente, durante um período de férias no Peru em 2004, deixando filhos e a esposa, Sheila Ravenscroft, no comando da fabulosa coleção de discos e da sua memória. Qualquer fã de musica com mais de trinta anos na Inglaterra tem alguma lembrança ou história relacionada à Peel para compartilhas, mas não dá pra dizer que ele é exatamente popular entre os jovens hoje. Então o centro é, também, uma forma de fazer com que as novas gerações reconheçam o nome como mais do que um DJ velho que seus pais curtiam.

Interior do prédio sendo reformado



Visitando os Peel Acres

"A gente tem que fazer uma visita rápida, sério," Tom fala enquanto dirige por uma estradinha na periferia de Stowmarket. ele está falando sobre a visita à casa de Peel, onde fica o estúdio onde ele gravou os Peel Sessions e programas da BBC ao longo dos anos, a coleção de cerca de 80 mil discos e onde viveu com a família (ele e Sheila tiveram quatro filhos) desde a década de 1970.

Tom fala sobre Sheila com respeito notável e admiração honesta. "Sem ela nada disso estaria acontecendo, mesmo." Ele a descreve como uma pessoa sensata e trabalhadora, que coleciona admiradores entre os vizinhos de Stowmarket por seu trabalho de caridade e benefícios que ajudou a trazer para a cidade. "Ela abraçou a idéia desde o começo, mas não queria que o projeto tivesse apenas o nome de John. Tinha que ser mais que isso. Ela acabou sendo uma padroeira da idéia." Ele conta animado que Sheila "até ajuda a vender cerveja nos eventos de angariação de fundos."

O dia da minha visita, 25 de outubro, também era aniversário de oito anos da morte de Peel e eu entendo que Sheila não deve ser incomodada com perguntas indiscretas. Além do mais, ela vai receber familiares no fim da tarde. Eu me preparo para agir como um ser invisível.

Os Peel Acres estão localizados há cerca de dez minutos de carro do centro de Stowmarket, um chalé pintado cor de salmão, totalmente inglês. Potes de chá, um fogão a lenha, cinco gatos e um cachorro super animado são as primeiras coisas que eu noto, junto com alguns itens da interminável coleção de discos de Peel. Mas não há um iPod/iPad/iPhone à vista.

Falante e animada, Sheila oferece chá e se preocupa com os pulos que o cachorro dá em cima de mim, ao mesmo tempo em que enche Tom de perguntas sobre o centro e conta sobre ter que subir ao palco dos Q Awards, no começo da semana, para entregar prêmio para o Pulp. Fica claro rapidamente que essa é uma mulher apaixonada pela musica que seu marido ajudou a divulgar durante sua vida juntos e que ficou tranquila nos bastidores durante todo o tempo.

Sheila Ravenscrof


Ela fala com naturalidade sobre conversar com Jarvis ‘ele é sempre tão doce' Cocker e Damon ‘ele me deu um abraço de urso!' Albarn, além dos caras do (‘eu AMO') Underworld, e o chefão da Rough Trade Records, Geoff Travis, que sentou com ela durante toda a cerimônia. Todos eles, Sheila conta, perguntaram sobre o centro, querendo saber mais. E, ainda que nenhuma promessa tenha sido feita, há uma expectativa palpável em relação à quem estará disponível quando for a hora de fazer um convite. Afinal, como Cocker lembrou durante seu discurso na entrega dos Q Awards, ‘todos estão em débito com John Peel.'

Escritorio de John Peel


O estúdio em que Peel trabalhou continua da mesma forma que ele deixou antes de viajar para a America do Sul em 2004. A conexão direta com a BBC, que permitia gravação dos programas em excelente qualidade, continua ativa. Os toca-discos, os CD players (me pergunto o que Peel faria com o tanto de MP3 de péssima qualidade que os repórteres de musica recebem hoje), os microfones, a cadeira e o equipamento continuam no mesmo lugar. Há uma infinidade de papéis, caixas, jogos de tabuleiro, álbuns de fotos,revistas, presentes, prêmios, credenciais de festivais e todo o tipo de parafernália ocupando o quarto, que tem uma grande janela para um gramado e a estrada. Aqui também fica uma mesa de sinuca que ele comprou para os filhos, então crianças, brincarem enquanto trabalhava.

Os discos, claro, chamam a atenção imediatamente. Eu não sinto nenhuma urgência de começar a mexer nas coisas dele para encontrar discos que reconheça e, honestamente, nada chama a atenção logo de cara. Tenho certeza de que se começar a mexer nas caixas vou encontrar coisas familiares, mas os que estão por cima são bastante exóticos. Tom me ajuda: ele acha uma cópia original em vinil, bastante usada mas bem cuidada, de Tubular Bells do Mike Oldfield, com o release para imprensa ainda guardado dentro da capa de papelão.

Tom Baker e o Tubular Bells
Tom Baker e o Tubular Bells
Esse disco, que fez parte da comemoração musical da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Londres, tem uma história. Quando recebeu o disco do então iniciante empresário Richard Branson, Peel tocou na íntegra na rádio, dizendo que "esse é o disco mais importante que você vai ouvir esse ano."Anos mais tarde, depois de construir um império, Branson disse que "se Peel não tivesse feito isso, talvez todo o império Virgin não teria decolado. Depois de Mike Oldfield nós assinamos com os Sex Pistols, Rolling Stones, Genesis e Phil Collins."

Cem álbuns de cada letra do alfabeto no TheSpace;
Site dedicado ao #JohnPeelDay, mapeando outros sites e eventos todos os anos;
Alguém ~muito gente fina colocou no ar mais de 400 edições do programa de Peel na Radio1;
Documentário John Peel Record Box;
Há muito mais histórias como essa perdidas na inacreditável quantidade de discos espalhada pelos Peel Acres. Mas alguém já está contando: o site TheSpace criou uma série online dedicada à digitalizar toda a coleção e registrar as histórias por trás de discos selecionados. Veja esse e outros links no box ao lado. Vinte e seis discos, um para cada letra do alfabeto, são mostrados junto com entrevistas e cenas de arquivo. Absalom, Babes in Toyland, Cabaret Voltaire e East of Eden são as quatro primeiras e já dão a dimensão do ecletismo do mundo de John Peel. Todas as edições são apresentadas por Sheila e trazem entrevistas com gente como Andrew Weatherall (que conta que Peel foi o primeiro a tocar sua seminal colaboração com o Primal Scream, "Loaded", na rádio e a repercussão que isso teve) e Nina Nastasia (escolha pessoal de Tom se ele pudesse decidir quem vai tocar na abertura do centro).

Outras histórias vêm da própria Sheila. Ela lembra do dia em que PJ Harvey veio gravar seu primeiro Peel Session e, como era um dia quente de verão, John abriu a janela e ela e as crianças sentaram na cerca na beira da estrada para assistir. Ou quando os escoceses do Belle & Sebastian não couberam todos na sala e acabaram colocando o baterista para gravar dentro do banheiro. Já Mark E Smith, frontman do The Fall, a banda que mais gravou Peel Sessions (24 no total!) nunca era convidado - John preferia gravar nos estúdios da BBC, já que "Mark sempre foi muito imprevisível," ela conta dando risada.

Os toca-discos, ligados com a BBC


Eu pergunto a Sheila como era a vida em família com tanta gente vindo tocar dentro de casa. "Ah, as crianças se divertiram como nunca. Mas eles não sabiam disso na época." Todos eles, claro, cresceram para ter ótimo gosto musical, ela diz. Um é, inclusive, um DJ seguindo orgulhosamente os passos do pai. Tom Ravenscroft, 32, apresenta um programa de novidades musicais todas as sextas-feiras na Radio 6 da BBC.

O pessoal do TheSpace deixou caixas e caixas de discos por todo o chão do estúdio, mas a maioria dos discos estão arquivadas cuidadosamente em dois espaços: uma pequena sala construída para guardar os CDs e um anexo ao lado da cozinha com os discos de vinil. Os CDs estão em ordem alfabética, mas eles chegaram muito mais tarde. A coleção grande mesmo é de discos de vinil - John tocava principalmente com vinil. Essa coleção foi armazenada em ordem de chegada, fato que a torna uma interessante linha do tempo musical. Só John mexia nos discos, e ele tinha um jeito todo próprio de saber o que estava onde: cada disco foi acompanhado de um pedaço de papel com um número, relacionado à uma ficha técnica guardada em um arquivo de metal, por ordem alfabética.

Cds, CDs, CDs


Sheila não se importa em dividir a casa com tanta musica, mas o futuro da coleção de discos é incerto. Há interesse da British Library em arquivar e disponibilizar para consulta do público e a BBC teria manifestado o desejo de arquivar no seu novo prédio. Mas, segundo Sheila, a decisão "é dos nossos filhos e de mais ninguém."

Antes de sair eu passo por um cartoon, num pequeno quadro no corredor: ele mostra uma sala cheia de discos, uma mulher de cabelos longos sentada num pufe e um homem entrando por uma porta carregando... um disco de vinil. Ela diz "ah, que ótimo, mais um disco." Sheila conta que foi presente de um amigo cartunista que, claro, se inspirou na vida do casal. Mas ela em momento algum jamais reclamou de ter tantos discos na casa: "É apenas como as coisas são, a casa foi sendo expandida junto com a coleção, nunca foi um peso."

Antes de partir eu pergunto qual a sua banda predileta. "O Fall, talvez... mas eu realmente sempre gostei de tudo que John tocava," ela responde, sem pensar muito para, de repente mudar de idéia: "Não! Tem que ser algo de dance music... Underworld! Eu sempre adorei dançar..."

"Eu ouvi muitos dos Peel Sessions ainda adolescente em São Paulo: discos com quatro faixas e capas cinzentas que traziam nomes de tudo quanto é banda na capa. Eram raros e caros nos anos 80/90 em São Paulo e eu era a dona orgulhosa de cópias do Cure, XMal Deutschland e Siouxsie & the Banshees. Mas eu não tinha uma idéia clara do que eles eram. Só muitos anos mais tarde, quando os programas de Peel começaram a ser transmitidos pelo site da BBC, é que eu fui saber melhor do que se tratava. Quando Peel morreu, em 2004, eu já era uma fã. Obviamente nunca o conheci em vida, mas me parece que muito do amor pela musica e capacidade de permanecer interessada no que é novo e fresco vem da figura dessa mulher pequena e cheia de energia que me recebeu para um chá. Obrigada, do fundo do coração, a Tom Barker e Sheila Ravenscroft por me receberem nesse lugar onde tanta coisa aconteceu. E todo o sucesso do mundo para o Peel Center, um belo projeto." (Gaía)

Gaía Passarelli
Gaía Passarelli
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comentários
2 comentários
DJ KYLT
DJ KYLT(05.01.13)
0AprovadoQueima
Uma homenagem materializada para a povo conhecer o seu legado! Muito bom!
Laerte
Laerte(07.12.12)
1AprovadoQueima
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