O festival Eletronika abriu as portas do Palácio das Artes para o público no dia 12 de novembro, com exposições, palestras, mostra de vídeo e algumas apresentações musicais, no coração de Belo Horizonte. Nós chegamos na cidade na sexta-feira, pouco antes do início dos maiores shows do Eletronika. A estrutura do Palácio das Artes ainda estava tranquila, e o público chegava devagar.
Enquanto nos movimentávamos até os camarins, vimos de relance a primeira atração da noite. O grupo São Paulo Underground, formado pelo trompetista americano Rob Mazurek e o baterista do Hurtmold Mauricio Takara, fazia aquele som bem característico dos projetos de Takara: longas sessões de improvisos e sensação jazzística, enquanto o público se aclimatava ao amplo espaço do auditório principal do evento. Fomos apressados encontrar com Cameron Mesirow, a voz por trás do projeto Glasser que estava prestes a entrar no palco.
Cameron nos recebeu com um sorriso largo e com um pouco de ansiedade. Quando perguntamos sobre a forma que a sonoridade das gravações do Glasser se traduziam no palco, Cameron nos contou que recentemente mudou o formato das suas apresentações. Até bem pouco tempo, ela viajava com uma banda de apoio que re-interpretava as canções ao vivo e compartilhava um tanto das luzes dos holofotes. Cameron reduziu a equipe para um só, buscando dar mais ênfase a sua performance vocal.
De fato, quando o
Glasser subiu ao palco do Palácio das Artes, vimos uma performer com capacidade de preencher o espaço vazio com sua presença e voz. As composições gentis de
Ring, primeiro álbum de Cameron, são orquestrações delicadas com toques orientais e orgânicos, que dão espaço para sua voz brilhar. A apresentação foi bem rápida e ficava nítido que a americana estava um pouco ansiosa com as cadeiras vazias do auditório, mas isso não impactou de forma negativa sua performance.
Glasser: voz delicada, influências orientais e apresentação intimista, apesar do grande palco e pouco público.

No foyer, um segundo palco transferia o público de uma atmosfera policultural difusa para um clima definitivamente mexicano. O coletivo
Nortec, formado por Fussible, Bostich, Clorofila e Hiperboreal, propunha uma apresentação que unia a mais alta tecnologia musical com a tradição mariachi, diretamente de Tijuana. Na teoria, tudo lindo. Acontece que os três mariachis que acompanham o grupo tem uma presença de palco infinitamente mais marcante que os outros integrantes do grupo em seus ipads. No fim, a camada eletrônica não marca presença. Não sentimos a relação causa/efeito das traquitanas tecnológicas com o que acontece nas caixas de som. E no fim, fica a sensação de que o grupo não entrega a proposta.
Já o outro coletivo da noite, o
Surtek, vai mais fundo na instrumentação eletrônica. A dupla formada pelo alemão ATOM e pelo chileno Vicente Sanfuentes trabalha em um universo mais reconhecível: batidas 4x4, sentimento techno e timbragens acid house. O elemento característico do Surtek são misturas com cumbia e reaggaeton. Um típico live-act eletrônico, com uma relação de causa/efeito muito mais bem delineada, porém menos aventureira. O som do Surtek não é nada de novo (Mathias Aguayo e alguns outros já brincavam com isso há algum tempo) mas não fez feio e botou o público pra dançar noite adentro.
Na noite de sábado o perfil das apresentações mudou um pouco, assim como a dinâmica do público, que não se contentou em assistir às apresentações do auditório principal nas cadeiras.
Os Mariachis carregam nas costas a apresentação do Nortec. Tecnologia e ipads ficaram em segundo plano.

Público chegou a última noite do Eletronika mais animado e em maior número.

Na noite de sábado, Rubinho Troll e Gui Amabis representaram a música brasileira na pequena sala Juvenal Dias para um público bem mais volumoso. Aos poucos o Palácio das Artes ia se enchendo e o Grande Teatro estava cheio para a apresentação do
Kisses. A dupla californiana fez um show fofinho, que surpreendentemente funciona muito melhor do que o imaginado. O ritmo quase baleárico do Kisses ganha volume ao vivo e agradou o público, que terminou o show literalmente em cima do palco. A dupla mostrou potencial e deve ser observada mais de perto em 2012.
Kisses: show fofinho melhor que em estúdio, que literalmente levou o público pra cima do palco.

Já a grande apresentação da noite deixou um pouco a desejar. Os ingleses do Laydtron fizeram uma apresentação linear e sem muita progressão, misturando músicas do último trabalho, o disco
Gravity The Seducer (que o rraurl
resenhou há pouco tempo), com faixas que levaram o grupo ao status de hoje em dia. O público se divertia com faixas como "Destroy Everything You Touch" e "Seventeen", mas a banda parecia apática e desinteressada. Talvez seja parte da fleuma quase gótica do grupo, mas o som também não ajudava, com os vocais embolados na teia de sintetizadores e um ritmo pouco marcante. Foi um show estritamente para fãs. Todos aqueles que talvez não conhecessem o Ladytron a fundo não foram atingidos.
O Ladytron fez um show estático que não engrenou, mas que agradou aos fãs mineiros da banda.

Mudando completamente de clima, o canadense
Rich Aucoin esquentou a plateia antes do show com uma série de frases projetadas em português. Ao contrário do clima funesto do Ladytron, a apresentação de Rich seria completamente
life-affirming e bem-humorada. Baseado nos anos 80, o som de Rich Aucoin é quase como uma sessão ao vivo de
Footloose. O rapaz alto e magro saiu dançando frenticamente no meio da galera, jogou bastõezinhos fluorescentes para cima, serpentina e confeti, uma bandeira colorida que se estendeu por cima do público, foi levado para o meio da pista em cima de uma prancha de surf e todo tipo de macaquice que se possa imaginar. Além de músicas com nomes inusitados como "Brian Wilson is A.L.I.V.E" e "We're all dying to live", as projeções misturavam memes atuais da internet (incluindo Vitinho Sou Foda) com filmes americanos de domínio público. Um dos shows mais divertidos de todo o festival.
Projeções criativas e muita interação com o público fizeram do show de Rich Aucoin um dos melhores do festival.

Fecharam a noite os nativos de Chicago
The Hood Internet, com mashups de músicas populares e bem díspares. A animação do público permaneceu alta, depois da injeção de adrenalina proporcionada por Rich Aucoin. O balanço final do festival é positivo. Belo Horizonte recebeu um evento cheio de possibilidades de inovação, com apostas nada convencionais e com uma produção pontual e sem nenhuma falha. O público aproveitou cada momento, até mesmo quando alguns artistas pareciam não estar fazendo o mesmo. Talvez esse novo rumo para o Eletronika seja muito mais interessante que o anterior, e neste formato o evento só tem a crescer.