O novo sabor do R&B
O How to Dress Well e a nova cara do R&B.
faça login para votar!
Enviar esse texto
login para votar!
Enviar esse texto
social bookmarks
Digg
Mugg
del.icio.us
O novo sabor do R&B
Um dos gêneros com mais horas de rádio fm dos anos 90 começa a ser re-interpretado por uma garotada interessante.
22.09.11 10:30
R. Kelly, Boyz II Men, Montell Jordan, TLC, Salt'n Peppa, En Vogue, Ashanti, Aaliyah, Brandy, D'Angelo, Maxwell, Timbaland, Rick Ross... se esses nomes gritam "POP!" nas cabeças da nossa geração MTV, imagine só em cabeças norte-americanas. Como diz a ditado: "O lixo de um é o tesouro do outro". Vejam só vocês, o tipo de R&B genérico que foi sinônimo de pop em todas as fms do país e que passaria completamente desapercebido para grandes connoiseurs de "música de qualidade", começa a ressurgir mastigado e transfigurado em novidade. Para alguns, essas infinitas revoluções do música ainda causam algum tipo de espanto, mas se analisarmos com atenção não é tão difícil de entender. A geração que exaltava os anos 80 o fazia por ter vivido isso em suas infâncias e adolescências. Essas pessoas envelhecem e abrem espaço para os mais novos, que trazem um furor criativo e uma bagagem de influências diferentes. Muda-se a tendência musical da vez.

A verdade é que a cabeça da geração dos anos 90 começou a funcionar em uma frequência absurdamente mais rápida que a das gerações anteriores. Não aquelas pessoas que em 1991 tinham 15 ou 16 anos. Aqueles que de fato nasceram nos finalzinho dos 80 ou ainda mesmo nos anos 90 e foram começar a juntar "lé com cré" lá pelo final da década começaram a conviver com um mundo musical muito pop (E você deve concordar que não existem muitos hipsters de 10 anos de idade que conhecem tudo do underground, não é mesmo?). Foi na metade dos anos 90 que o Rap tomou de assalto a indústria musical americana e trouxe no reboque o R&B, que apelaria aos românticos de plantão. Nesse furdûncio gostoso entre o rap mainstream enxarcado de testosterona e o R&B de progesteronas uivantes, milhões de jovens americanos passaram por um momento tenso da existência de todos os mini-adultos: a puberdade (ou inferno, para alguns). E quando você está passando pelo inferno, a música pode ajudar...

Boyz II Men e R. Kelly: estrelas de quando o R&B foi a bola da vez pop.
Boyz II Men e R. Kelly: estrelas de quando o R&B foi a bola da vez pop.



Divagações antropológicas sobre a importância do R&B na formação do caráter do jovem americano a parte, o fato é que ecos da convivência com ele começam a reverberar cada vez mais alto entre novos artistas, que juntam à mistura tudo que estiver por perto. Em 2009, o The XX lançou o EP Teardrops, que trazia um cover de "Hot Like Fire", da americana Aallyah.

A cantora tragicamente faleceu em um acidente de avião em 2001 com apenas 22 aninhos e até hoje é considerada uma das maiores vozes deste R&B moderno e popular, tendo colaborado com Timbaland e Missy Elliot nos seus últimos dois trabalhos registrados em álbum. O The XX afirmou em diversas entrevistas que o R&B dos anos 90 é uma influência direta no trabalho da banda, e com essa informação em mente fica muito fácil de ver traços de Aallyah em faixas como "Crystalised" e "Basic Space". Jamie XX abraçadinho com o Timbaland?! Pois é, amigos.


A versão original da novaiorquina Aallyah



O cover dos ingleses do The XX: minimalismo



R&B PÓS-DIGITAL E AS FRONTEIRAS DA PERCEPÇÃO

Jovens criadores com acesso a notebooks, sequenciadores e ao universo de informação, criando música eletrônica fresca e, advinhe só, com muito R&B nas entranhas. Aqui no rraurl, acabamos de resenhar o SBTRKT e o Machinedrum, que produzem bass music altamente inventiva e energética e trazem vocais que poderiam ter sido retirados da parada de sucesso R&B da Billboard. Mas no fim das contas, esses caras ainda estão fazendo um som muito próprio e o R&B é apenas um tempero. Há quem leve o negócio muito mais longe.




Diretamente de Montreal, o produtor/compositor/cantor d"Eon tem uma história de vida curiosa. Por conta de vários problemas psicológicos, o cara cresceu dentro de casa cercado por vários sintetizadores e começou a escrever música desde cedo. D'Eon teve uma formação clássica, mas largou tudo em determinado momento para estudar escolas musicais orientais, como a iraniana e a tibetana. Com esse clima meio místico, d'Eon produz faixas que vão desde a ambientação eletrônica gentil até pancadões cheios de subgrave e com elementos que remetem ao R&B: sintetizadores não abrasivos em arpegios menores simples, vocais cheios de emoção. A sonoridade é quase lo-fi, mas os resultados são hi-fi. Classudo. Elegante.





Hudson Mohawke, d"Eon e How to Dress Well reimaginam o R&B e o levam além.
Hudson Mohawke, d



O escocês Hudson Mohawke foi rapidamente capturado pelo radar criativo da Warp e lançou em 2009 o disco Butter, seu primeiro pela gravadora. O álbum mostra um produtor extremamente proficiente no dicionário sonoro do R&B e do funk, mas que não tem o menor medo de experimentar até as últimas consequencias, como todo bom artista da Warp. Porém, nos últimos lançamentos Hudson Mohawke escancarou a referência às fuças do ouvinte, de forma bem irônica. No seu mais recente ep, Pleasure Principle (lançado no começo deste mês, vale a caça), Mohawke pega o R&B e todo o hip-hop mais pasteurizado dos anos 90 e dá um tratamento ácido 1080p widescreen. Ao contrário da música genérica de rádio fm, cada pequeno detalhe é ajustado e re-ajustado com afinco, para criar um resultado impactante para quem tem ouvidos pacientes. É só botar os fones de ouvido e se lançar em órbita.





Ao invés da profusão de cor e agitação da música de Hudson Mohawke, a inquietação do How To Dress Well é causada por uma sensação constante de claustrofobia e distanciamento onírico. Os vocais de Thom Krell envoltos em fumaça e reverberação são acompanhados por uma ambientação longínqua e lavada, que acabou lhe jogando no mesmo balaio de gente como Balam Acab, oOoOO e Clams Cassino. Isto não está de forma alguma errado, mas a linha criativa proposta pelo How To Dress Well bota o elemento R&B na alma de suas músicas.





O Future Sound vem da Flórida e é relativamente desconhecido. O cara tem apenas um ep, disponível de graça em seu bandcamp. Mas vale a pena ficar atento nas composições, que brilham no escopo estéreo e tem diversidade o suficiente para lhe deixar interessado do início ao fim.




NOVAS ESTRELAS DO FUTURO R&B?

Enquanto estes citados acima e mais uma batelada de novos artistas experimentam com o som romântico e acessível do R&B, alguns outros miram na sucessão do trono. É bem verdade que este já foi um gênero muito mais vendável em alguns outros momentos, mas o bom cantor R&B com a postura certa tem trabalho por uns bons anos. Seria possível alcançar o sucesso de público e crítica?

A mais nova aposta da Island Def Jam para o posto de Rei do R&B moderno atende pelo nome de The-Dream. O cara é mais um daqueles casos de "produtor de backstage" que aparece na frente das cortinas vermelhas para receber o aplauso do público. Como compositor, o cara é responsável por algumas das maiores pragas radiofônicas dos tempos recentes, como "Umbrella" e "Put a Ring on It". Ele é o culpado. Mas enquanto em seu trabalho como compositor-mercenário o fator chiclete é predominante, no seu trabalho solo The-Dream desenvolve essa tendência cafona bem própria do R&B até o zenite da cafonice possível, de forma quase épica. Pop over-the-top.

O canadense Drake tem potencial na disputa pela coroa. O cara ganhou o Juno Awards do ano passado de melhor disco de Rap, colabora com uma turminha da pesada como Jay-Z, Kanye West, Usher e Lil Wayne, e tem talento vocal (apesar de fazer algumas rimas um pouco inócuas). Talvez o cara se leve muito a sério.

Agora, pode ser que alguém roube a coroa de Rei do R&B, derreta e venda para comprar algum tipo de entorpecente. Frank Ocean, um dos membros do mais que polêmico (mamilos!) coletivo rapper Odd Future Wolf Gang Kill Them All, também se envereda pelos caminhos trilhados por R. Kelly e Rick Ross. Frank também tem um trabalho como produtor de backstage e já compôs para John Legend, Justin Bieber (?!!?!!) e Brandy, mas em seu trabalho solo não tem muito respeito pela classificação indicativa. Certamente não é o tipo de música para ser trilha sonora de House ou que você coloca no rádio pra seduzir uma gatinha, mas com o apoio do mundo indie que ovaciona o Odd Future e bastante talento na produção, Frank Ocean pode fazer muito estrago.

Thiago Freitas
Thiago Freitas
everybody love everybody
comentários
3 comentários
Keyler Oliveira
Keyler Oliveira(22.10.11)
0AprovadoQueima
Na mesma pega do HudMo, também destaco o Rustie.
http://www.youtube.com/watch?v=P5fkBoLG-Oc&feature=related
Guilherme
Guilherme(25.09.11)
0AprovadoQueima
Ótima resenha, mas esqueceu de um dos principais: The Weeknd.
Tiago Ferreira
Tiago Ferreira(22.09.11)
0AprovadoQueima
Parabéns pelo artigo xará, realmente muito bom! Gostei bastante do EP nostalgia ULTRA, do Frank Ocean, e tive uma certa afinidade com o lo-fi/R&B do How To Dress Well, apesar de achar a construção sonora meio intricada.

Drake também tem potencial, mas logo vai cair praquilo que você mencionou: ser um megastar. Ah, e gostei muito do som do d'Eon, não tinha conhecido antes!

Abraço, bons sons!!