A entrevista abaixo foi feita pelo colaborador do rraurl Jonty Skrufff com a Claudia Wonder em meados de 2011, cerca de cinco meses antes da sua morte por complicações de saúde decorrentes do vírus da AIDS em 26 de novembro passado, aos 55 anos. A publicação hoje aproveita como gancho o Dia Mundial da Lutra Contra a AIDS -
http://www.worldaidsday.org/Ativista pelos direitos civis, especialmente da comunidade homosexual e relacionados ao vírus HIV, Claudia começou sua carreira na noite em 1975, o lado de nomes como Andrea de Maio, Thelma Lipp e Brenda Lee. Foi vocalista de uma banda de punk rock e performer do mítico Madame Satã. Foi presa diversas vezes pela polícia durante o governo militar e se envolveu com a campanha pelo retorno da democracia no país em 1985. Mudou para a Europa e retorno ao Brasil em 1999, onde gravou um álbum de electro , se tornou colunista da GQ e foi personagem do documentário
Meu Amigo Claudia, de Dácio Pinheiro.
Abaixo, Claudia em suas próprias palavras.
Como surgiu o filme sobre a sua vida, o Meu Amigo Claudia?Claudia: Eu queria fazer um filme há muito tempo. Mesmo nos anos 80 já havia a idéia, porque eu tive uma carreira bem longa antes de me mudar no fim de 1988. Mas eu acabei morando na Europa durante 11 anos. E quando eu voltei ao Brasil eu não conhecia mais as pessoas, foi difícil. Muitos dos meus amigos e contatos já tinham morrido de AIDS.
Eu queria fazer um documentário basicamente porque eu queria que as pessoas mais jovens soubessem da minha vida e da história da noite de São Paulo. Depois do filme eu realmente voltei a ativa, o que é ótimo. É baseado na minha carreira artística desde 1975. O Dácio Pinheiro dirigiu. Começamos com um texto ficcional que se tornou um vídeo de cinco minutos e então evoluiu daí. Não foi feito em uma noite.
Quando você começou a sair a noite no fim dos anos 70 havia muitos travestis em São Paulo? Como era?Havia muito poucos, comparado com hoje. Ao mesmo tempo era mais difícil, porque nós estávamos vivendo sob uma ditadura militar. Mesmo assim, era mais romântico, era muito jovens. Havia um senso de perigo que era excitante. Havia apenas dois clubs por volta de 1975/76 - um é a Nostro Mundo, que continua funcionando no mesmo local. Está lá desde 1973.
A polícia era violenta na époc?aEu fui presa muitas, muitas vezes. Eu ficava na delegacia até cerca de quatro da manhã, quando alguém vinha e me liberava. A polícia fazia batodas frequentes nos clubs, e normalmente levava todo mundo preso. Não era contra a lei ser gay, mas os gays eram vítimas de prisões e abusos com frequencia.
Quando você passou a ser mais atuante em causas sociais e políticas?Acho que no começo dos anos 80, em particular em 1983 e 1984, quando a AIDS chegou. Fiquei muito perturbada com o fato de que as pessoas não queria sequer estar perto de gays, achando que iam se infectar. Eles nem sabiam o que a AIDS era. Então eu decidi fazer um show para lidar com esse preconceito, mostrar que essa não era a forma certa de agir. A idéia de ter uma banda também veio porque na época o rock brasileiro estava tomando forma, ganhando força como cultura pop. Foi quando comecei a fazer a performance da benhrira de sangue. O sangue representava sangue infectado com HIV.
O Madame Satã é hoje visto como um dos mais influentes clubs do Brasil em todos os tempos. Era assim nos anos 80?Ah, era mais que um club. Foi um marco cultural fortíssimo. Era cheio de um espírito revolucionário e de pessoas que queriam se expressar artisticamente, que não estavam felizes com as condições que tinhamos que aguentar na época. Pessoas que queria fazer algo diferente. Era um lugar para dizer não para todos os anos em que vivemos na sombra da ditadura e preconceito. A ditadura militar acabou em 1985, e o Madame Satã se desenvolveu como uma reação a tudo que tínhamos vivido.
O quando a sua vida mudou quando a ditadura militar terminou?Tudo mudou (rindo). Mas nós ainda estamos lutando.
Por que você deixou o Brasil em 1989?A economia do Brasil estava arruinada. Eu não enxergava nenhuma chance de fazer uma carreira e me sustentar aqui. Então eu fui para Lausanne, na Suiça. Eu fui contratada como performer de cabaré! Hoje eu estou estudando de novo. Eu estudava teatro antes de viajar, e voltei para estudar história. Tem mais relevancia para meu trabalho social, hoje. Estou estudando história internacional com foco em hermafroditas. Não há nada publicado sobre o assunto no Brasil, então o campo está aberto para mim.
Eu fui aconselhado a não ir à Parada do Orgulho LGBTT em São Paulo, por ser perigosa. O que você acha da Parada?Eu não ia à Parada há dois anos, mas decidi ir em 2010. A polícia foi à TV afirmar que haveria mais segurança. Quem foi durante a tarde pegou uma festa legal, com uma atmosfera boa. Eu estava em um caminhão, onde todo mundo estava vestido de branco.
Quão grande é o problema da homofobia no Brasil hoje?As pessoas falam disso hoje, muito mais do que antes. Isso abriu algumas feridas. Você vê gays em público hoje. Por exemplo, na Parada do Orgulho Gay você vê homofóbicos se tornando ainda mais homofobicos. Não há nenhuma educação no Brasil no sentido de que o homossexualismo é normal. Estar debaixo dos holofotes e esperar que as pessoas aceitem não é suficiente. Tem que haver educação para mudar a percepção das pessoas. Sem essa informação, ainda é perigoso.
Em Londres muitos travestidos que eu conheço são bastante isolados da cultura gay mainstream. É o caso no Brasil também?É a mesma coisa aqui. Gays não gostam de travestis, travestis não gostam de gays, ninguém gosta de ninguém. Às vezes i preconceito de homens homossexuais contra travestis é ainda pior do que o de heterossexuais.
Sempre foi assim?Eu acho que sim. Você tinha os gays e as lésbicas e os travestis eram vistos como gays vestidos como mulheres. De uma forma geral, na minha experiência, eu acho que os gays nunca gostaram de travestis. É meio "lá vem aquele gay maluco com hormônios e seios falsos".
O que você acha de clubs gays alternativos hoje em São Paulo, como A Lôca?Eu gosto. É underground, a música é boa. Eu gosto de rock e de electro, mas não gosto da house music comercial que muitas vezes toca em clubs gays. Por isso eu prefiro locais como A Lôca, D-Edge, Vegas. Eu nunca vou em clubs exclusivamente gays, a não ser que um amigo esteja se apresentando.
Olhando para o passado, que lições você sente que aprendeu?Que o melhor jeito de combater o preconceito é com cultura e informação.
O que você quer dizer com 'cultura'?Eu quero dizer qualquer tipo de atividade cultural, seja escrita, filmes, música, tudo. Você tem que de alguma forma, em algum lugar, tocar a mente das pessoas, então elas podem perceber e compreender o que o preconceito realmente significa. Alguém que segue as regras e obedece a lei apenas porque são regras e leis não vai mudar sua forma de sentir e pensar, sua atitude.
Houve algum período em que você teve medo de se vestir como mulher?Não. Nunca. Mesmo durante a ditadura, eu nunca considerei sair vestida como homem. Eu iria para a cadeia de qualquer forma, com roupas de mulher ou não, somente por estar nos clubs.
Minha família me apoiou. Eles nunca me diziam "nós estamos felizes que você esteja vivendo assim", mas eles faziam me sentir bem-recebida em casa. Eu vivi com a minha família por muitos anos. Por isso eu sempre soube que podia mandar as pessoas à merda - eu não estava sozinha.