Babe, Terror: "não me sinto distante do folk velho"
12.11.10 13:40
Eterno ídolo musical desse site, Kieran Hebden, o Four Tet, em 2009 prestou atenção nesse produtor, habitante do bairro paulistano de Perdizes, que guarda singulares semelhanças com projetos que começam a arranhar o verniz da música online em 2010. Não que ele tenha sido o primeiro: desde o lançamento de um EP independente pelo seu Perdizes Dream, em 2008, o Babe, Terror chama a atenção de blogs que vão dos brasileiros Dont Touch My Moleskine e Bloody Pop ao norte-americano/influente/relevante Pitchfork Media e à revista new Yorker.
Produtores como Erol Alkan e Memory Tapes também estavam com ouvidos abertos. Foi pelo selo de Alkan, o Phantasy Sound, que saiu em setembro último o EP "Summertime Our League" (o rraurl noticiou, leia aqui), em que um excelente remix do Memory Tapes vem junto com o assinado por Hebden:
Menções elogiosas em blogs de música não estão necessariamente relacionadas à tênue ligação que a musica do Babe, Terror tem com as as tendências sinistras musicais que temos visto ao longo de todo o ano. Na verdade são descarados elogios ao pessoal e intenso clima das composições. A música assustadora do Bate, Terror não por acaso parece trilha-sonora de filme: foi originalmente concebida como acompanhamento musical para ser escutado nos fones de ouvido de seu criador em passeios a pé pelo bairro paulistano de Perdizes.
Abaixo, além da extensa entrevista, você encontra faixas do que inspira e cerca o universo musical do Babe, Terror. Rara chance de ve-lo ao vivo acontece uma amanhã no bar/club Alberta, no centro-velho paulistano (serviço no final dessa matéria).
Como/onde você cria? Quais suas principais inspirações?
Bom, eu sou um cara que os outros costumam chamar de reservado. Eu saio bastante de casa, mas não muito com outras pessoas, e acho que esse tipo de vida é o que acaba me levando a criar. Se bem que um fato é que essa é a resposta padrão da pergunta em todas as épocas, o que muda apenas de cara pra cara é o tipo de vida que ele tem. Não sei, quando eu vou fazer música é meio como ir surfar. Muitas vezes é no horário do surf bom também, seis horas. O horário cinza. O complemento dessa experiência na verdade é ouvir comigo mesmo, pela rua, mas já tive várias fases diferentes. Uma foi traindo a outra na verdade, já tive épocas de fazer música todo fim de semana, com princípios sólidos, e já tive épocas de ir mais ao cinema.
Como foi ter uma faixa remixada pelo Kieran Hebden, o Four Tet?
Bom, foi um tesão pra ser claro com você. Eu conheço a música que ele fez com a minha, a "Summertime Our League" dele, desde o inverno do ano passado. fiquei ouvindo sozinho um tempão, curtindo seriamente a música que ele fez, até por não ter pra quem mostrar e ter sido recomendado deixar quieto. Durante um ano isso. Achei grandioso o que ele fez na verdade, ouvi muito o There Is Love in You no decorrer disso e foi uma honra constatar que a reimaginação dele pra minha faixa era respeitosa mas predominantemente autoral e participava de um universo complementar de linguagem. Tem a bem ver com o que testemunhei em algumas áreas no disco. Uma outra coisa legal também foi que a faixa é originalmente, na minha versão, um recorte de uma melodia. quando eu gerei a sequência original, tinha mais partes, selecionei e recortei algumas pra fazer a música. Eu mandei a sequencia inteira pra ele, sem os recortes, e ele re-recortou, então tem umas quedas e contorções que realmente não existem na minha música (perceba em 3:37 por exemplo), que ele encaixou.
Existem só como detalhes passageiros esquecidos no primeiro bruto que eu criei para fazê-la. Isso portanto é algo que um mestre faz: ele reencarnou pequenas coisas até boas que eu tinha deixado de lado, talvez por não terem justificativa lá, não lembro bem por que, e gerou um "par" em que elas tinham espaço. Ele teve essa grandeza de pesquisar a música de um desconhecido para criar uma dele, usando formas que eu tinha rejeitado, dando novo significado, além de ter dado um pouco de apoio à minha forma de recortar absolutamente amadora. Porque ele respeitou digamos que só médio algumas relações e convenções de tempo entre melodia e batida, algo que ele fez certamente com maestria e eu agradeço porque de algum modo enuncia, com a minha concordância, que o importante, em qualquer forma musical, é a (con)fabulação geral e o espírito sônico mesmo. Nada mais.
Você sente que o Babe, Terror está próximo de algum rótulo ou identifica uma sonoridade similar em outras bandas
Doowop. Mas eu faço tudo em casa, e podia ser nas florestas do bairro, tem algumas por aí. faço tudo em um PC desktop. Nunca teria um laptop pra fazer música, eu acho. Mas o laptop substituiu o violão, é o elemento mais direto da criação musical pessoal e de ponta hoje. Então o PC-não-profissional é uma espécie de banjo dessa história, hahaha. Se bem que o banjo por si só também tá meio na moda tb. De qualquer forma, é a coisa mais à mão, mais direta pra ouvir e criar. E acho que essa música que eu faço é da classe daquelas que pedem uma certa entrega, um certo esforço de ajuste de atmosfera. Eu sempre quis deixar claro que o meu som fica bom o suficiente no fone, e lá mesmo e muito provavelmente somente. Portanto nesses pontos, floresta, banjo, ajuste de atmosfera, não me sinto distante do folk velho. No meu caso, é música pra fone se você quer um parecer sincero, esse é o gênero e alienativa. A propósito eu desprezo essa ideia de que música é um evento agregador, que serve pra unir pessoas.
E bom, sonoridade similar, em 2008 eu lancei um EP com umas músicas que algumas pessoas adjetivaram como "assombradas", com uma foto de um menino de 13 que eu conheci em Ohio, na capa, um menino que hoje tem 51 anos. Ele tirou a foto num acampamento, com uma amiga de acampamento dele, que hoje deve ter 50. Histórias de acampamento (sumiços, invasões de quarto, beijos) sempre me pareceram a essência da aventura. Terror é quase uma pista falsa. Mas mesmo assim, o Lay Bac, que é do selo do Robert Disaro (esse sim um perfeito cicerone do terror) gostou do que eu fazia, nós começamos a nos corresponder no myspace uns anos atrás.
Quer dizer, talvez tenha a ver mesmo então, inclusive o que ele faz hoje é totalmente adorável, na Disaro e em outros selos. Bem distante do que faço, mas não totalmente e não no que importa, isso posso dizer do grillgrill (ouça acima) também. Talvez com alguns deles da Disaro, não todos, eu compartilhe alguma coisa então. Tem alguns caras da Type também, e tem esses caras tipo o Dayve, do Day\s, com quem quero que aconteça um disco um dia. Tem uma música que ele fez com vozes minhas no site dele dele, agora ele tá trabalhando no Trance Farmers também, que é ótimo. Participei de uma compilação do blog Gumshoe Groove e nela tem um monte de bandas com as quais o organizador me identifica, e acho mesmo que tem a ver por um certo objetivo de ambiência: Tonstartssbandht, Locrian, Smegma, Andy Ortmann, Darlings, Book of Shadows, Hoor-paar-kraat: esses são alguns.
Qual é a do nome do projeto, afinal?
Eu lembro que naquela época eu não queria me lançar como líder da coisa, então criei tipo um enredo, o nome de uma banda de uns moleques que faziam música com reverb meio amador (quem fazia era eu, de fato). Babe, Terror, o nome, é o tipo de provocação romântica que uns meninos meio nerds mas até legais pensariam, porque é quase uma ameaça cheia de prerrogativa juvenil presunçosa que na verdade denota algo que não é exatamente otário-adolescente, que é a conexão entre amor e medo. Era realmente um esporte pra mim, quando parou de ser eu me assumi, até por perceber que eu já tinha me envolvido até a cabeça, tinha mais a ver comigo diretamente do que com "personagens". Fora isso eu lembro que queria um nome quase agressivo de tão cool. Eu não sou cool, e esse não era eu, então eu quis fingir a extrema cooleza, simular. Mas como disse antes, terror é uma pista meio falsa porque essa correlação, tipo apelido de namorados, "babe" e "terror", que é o medo vindouro (paixão, doença) é mais uma evidência de que as coisas correm como um trem excitantemente doido, e ninguém que descobre a correlação entre amor e medo tem permissão para achar que a vida é um pesadelo. Só aqueles românticos mais babacas tiveram.
Existe uma relação do projeto com o bairro paulistano de Perdizes, que é inclusive o nome do seu selo. É uma forma de homenagem? O que tem de especial no bairro?
Existe, sim, há. Tá mais entranhado no disco que a Phantasy Sound vai colocar em CD em 2011, o Weekend. É uma questão de abstração, porém. Perdizes, assim como a Bela Vista para quem a ama (gosto muito dela, aliás, onde nasci e vivi minha vida em boa parte), é uma abstração pessoal, daí minha antipatia a tentativas de exploitation coletivista, seja na forma de "cena de Perdizes", seja "bairro dos moderninhos/ artistas", "bairro dos legais", "bairro dos afetados". Tenho pânico. Não gosto de nenhuma "jerusalenização" de lugar nenhum na verdade, tipo Berlin, Londres, Nova Iorque, isso é fetiche cultural de um jornalismo cujo estatuto é a publicidade, o turismo, a moda, que são primos dela, e coisa de quem gosta de bando, da ideia de bando fazendo as coisas. eu tô cagando. O dia que tiver uma cena aqui eu quero estar fora dela, embora meu blog chame Perdizes Dream, que é mais pra mim mesmo, e eu também tenha recentemente tentado fazer um tumblr com imagens várias locais. Mas desviei da pergunta. Eu não tenho carro, então eu faço sim uma música nacionalista pra Perdizes, porque é um lugar sagrado se você tem essa tendência abstrativa, assim como há outros dependendo de quem e como se olha. Esse (pseudo-)nacionalismo brando é minha parcela romântica ortodoxa.
O primeiro disco dele do ano passado foi bem elogiado por aquele grupo de blogueiros que logo depois foi fazer o Altered Zones. Próximo mesmo sou apenas dele, que me influenciou muito de um ano pra cá, embora nem conversemos. É uma das músicas mais evocativas e milagrosas que já escutei. Ele pra mim é quase um Nick Drake do noise. Em que pese que esse conceito de nação não serve pra ele, talvez não sirva pra mim também. Não acho que o Igor faça algo que tenha a ver com o Brasil, ou qualquer outra cultura de nação. Mas esse negócio de selo é completamente anti-profissional. Eu coloco pra baixar, fazemos uns CDrs e uma capinha pra cada pessoa, pras pessoas entenderem que o que se compra mesmo é um pedaço de da rotina de alguém (música, traços etc). Mas tô sem tempo também. eu espero lançar aqui o "Gazing Gazing" do Universe quando eu conseguir, que é uma banda fantástica de um cara chamado Hunter, e é uma das coisas mais visionárias que ouvi nesse ano, mesmo sendo oitentista.
Bem, voltando ao Brasil. Me sinto próximo do Guilherme Arantes, porque nasceu na Bela Vista também. É um gênio ocidental ridiculamente mal-entendido (tem essa coisa de ser piada cool gostar dele ultimamente, o que é de um cinismo desprezível). Ele é tão bom seguramente quanto o Paul (64 - 70) e o Bacharach (75 - 81). Cantava um clima de ser filhinho mimado, estudante de colégio particular que machucava o joelho na educação física, inseguro com mulheres, que trancava o quarto que tinha só pra ele (no máximo pro irmão) de noite e depois começava a achar o professor de piano caquético, que só quer passar chopin, mas ele mesmo tem no coração todo um classicismo ocidental, não só relacionado à estética, impossível de jogar fora, e que se tenta acaba sendo vulgar durante a vida adulta. Sei lá, me identifico com os problemas do Guilherme Arantes. Amo Zé Rodrix, Sá, Guarabyra e Caetano Veloso, Som Imaginário, Lô Borges, Marcos Valle -quase perverso de bom nos 70. O progressivo. Minha experiência com a música daqui termina quando surge 1980 e toda aquela cultura-redemocratização, reconstrução do país, etc, que determinou também a música dos 90 e dos 00. Então como você vê, é uma ligação intensa, só que bastante datada também. Mas quando você tem o Dungen em 2010 fechando a história da música na década, fazendo o caminho inverso e complementar ao de avalanches e dilla com uma inspiração... sei lá, messiânica, nada disso importa. Realmente quero estar próximo de onde eles estão tocando, no meu player eventualmente. Desculpa pela digressão.
Decadance Alberta #3 - Av. São Luís, 272 (esq. Consolação) No som: Babe, Terror e os residentes Finotti, Rafa e Savone Entrada: R$25 com nome na lista pelo http://www.decadance.com.br/ ou lista@decadance.com.br; R$ 35 sem lista Mais infos: no facebook