A palavra "hauntology" não tem tradução para o português. A mais próxima seria "assombrologia", mas essa soa mais medonha que o seu significado. É algo como se o futuro fosse determinado por um passado especifico, como se o futuro gerado pelo presente não fosse mais possível, então os fantasmas do passado passam a gerar um novo futuro de verdade. Um pouco confuso, mas na verdade é mais simples do que parece.
O termo foi cunhado pelo polêmico filósofo
Jacques Derrida em um ensaio realizado após a queda do muro de Berlim e consequente fim do comunismo. Na tese o espectro de Marx iria pairar no mundo após a queda, pois como a sociedade moderna não erradicou seus grandes males como a miséria e as disparidades, o fantasma das suas idéias ficaria sempre por aqui para nos assombrar, "viver o paradoxo entre o ser e o não ser".
Não demorou até que intelectuais da crítica musical passassem a usar o termo.
Simon Reynolds se referiu ao "fim do pop", ao dizer que não iria surgir mais nada de novo na música enquanto não se inventasse uma nova tecnologia ou uma nova droga. Este esgotamento da possibilidade de criação de algo verdadeiramente novo, obriga a buscar em algum ponto do passado uma explosão criativa. Em 2006 ele usa o termo
hauntology pela primeira vez.
A matéria prima são as trilhas e efeitos sonoros para tv e radio dos 60‘s e 70's, velhos sintetizadores e aparatos de áudio em geral, além do uso de técnicas de gravação não mais usadas ou apagadas pela história. Tudo isso temperado pelo pop e a psicodelia mais obscura da época. Interessante notar que ao contrário de outros revivalismos, aqui não cabe a palavra nostalgia. Percebe-se determinados fragmentos mas no conjunto o resultado soa próximo de algo novo. O jornalista Guilherme Werneck
publicou um artigo recente sobre o assunto
A principal casa destas assombrações é a gravadora
Ghost Box de Julian House (The Focus Group) e Jim Jupp (Belbury Poly), amigos de infância de James Cargill, fundador do
Broadcast de quem House cuida da parte gráfica desde o inicio e em colaborações como DJ em turnês e parceiro no excelente
Broadcast and The Focus Group Investigate Witch Cults of the Radio Age (lançado pela
Warp em 2009 e
analisado aqui).
Como a Ghost Box em sua fixação pelas
'Library Music' e por releases em que a arte gráfica se alinha à música, está a
Mordant Music, de Admiral Greyscale e Baron Mordant. Seus lançamentos são tão bacanas que dá vontade de comprar sem ao menos saber do que se trata. Outro grande mestre de colagens é o Position Normal (Chris Bailiff), um exímio manipulador de samples que combina loops bizarros para um resultado final único e perfeito.
Pouco depois nos EUA surge o termo hypnagogic pop de
Pocahaunted, The Skaters, Oneohtrix Point Never,
Emeralds e
Ariel Pink todos diferentes entre si mas ainda assim com uma característica comum: o culto a um passado que morto e sepultado mas que ainda pode apontar caminhos em meio a um mundo sem grandes opções criativas. No caso desta versão americana a fonte são os 80's , na sua parte mais psicodélica. Em tempo, hipnagogia é o estado entre o estar acordado e o começar a sonhar.
Curioso como Reynolds dá uma bela xoxada em
David Keenan, seu colega na revista
The Wire, por ignorar o termo hauntology em um artigo. Ele tem razão ao dizer que são a mesma coisa, mas não deixa escapar umas farpas como para o fato de os 80's terem matéria prima menos "nobre", no caso a MTV, new-Age e adoração a produções como
Don Henley (Eagles) em "The Boys of Summer".
Realmente a diferença, entre os dois termos é apenas temporal e geográfica. Hauntology na Inglaterra buscando os 60's e 70's e
hypnagogic pop nos EUA pelos 80‘s. Resta saber se, como pergunta Reynolds, será que "cada geração daqui para frente, virá com seu próprio equivalente de hauntology/hypnagogic?"