Sucesso comercial e credibilidade artística no projeto paralelo dos membros do Talking Heads
"Nós fomos para a escola de arte e, claro, admirávamos muitos artistas, vários deles bem sucedidos ainda em vida. Então não tinhamos aquele sentimento de achar que fazer sucesso era uma coisa ruim. Andy Warhol, por exemplo, era uma fonte de inspiração e, ainda assim, um cara absurdamente bem sucedido".
Na época um estudante da Rhode Island School of Design (no começo dos anos 70), o baterista Chris Frantz começou a trabalhar com o vocalista David Byrne em uma banda chamada Artistics, que se separou depois de um ano do dupla ter se mudado para Nova York. A namorada de Chris, Tina Weymouth, também se mudou para a cidade - como a banda precisava de um baixista, ela aprendeu a tocar o instrumento ouvindo os álbuns de Suzi Quattro.
Com o nome
Talking Heads (escolhido após um guia de TV explicar o termo como algo parecido com "só conteúdo, nenhuma ação"), a banda estreou em Nova York no dia 8 de junho de 1975, abrindo para os Ramones.
25 anos depois, tanto os Ramones quanto o Talking Heads são consideradas duas das maiores bandas de rock de todos os tempos (o Talking Heads inclusive entrou para o Rock and Roll Hall of Fame em 2002), embora Chris faça questão de dizer que o sucesso é relativo.
"Muitos dos artistas que admiramos tiveram diversos obstáculos pessoais para transpor, mas mesmo assim conseguiram se comunicar com muitas pessoas e alcançar tanto sucesso comercial quanto credibilidade artística", afirmou.
"Beatles, Rolling Stones, David Bowie e Elvis Presley conseguiram isso, por exemplo, mas eu nunca pensei que fossemos ser tão grandes. E, de fato, não fomos", riu ele.
Tina Weymouth (Talking Heads / Tom Tom Club) e Grandmaster Flash em NYC, 1981

Agora, Chris e Tina respondem apenas como
Tom Tom Club, o projeto paralelo do Talking Heads que lançaram em 1981 - com ele, os artistas entraram para a lista dos músicos mais sampleados da história, particularmente a partir da faixa Genious of Love. Após o sucesso da versão mais conhecida da música, interpretada em 1995 por Mariah Carey, vários produtores de hip hop se interessaram pela faixa, o que rendeu diversos cheques gordos de royalties para a banda.
"Nós sempre tivemos uma excelente equipe de advogados e produtores cuidando de nosso interesses. Quando víamos algo que precisava ser oficializado, falávamos com eles e pronto - nunca fomos sacaneados", garantiu ele, embora afirme que "o Tom Tom Club foi explorado sim, por outro cara que prefiro não mencionar".
Comentários sarcásticos a parte, Chris está feliz e confiante a respeito do relançamento do álbum
Genious of Love, que traz um disco adicional com 11 remizes, por artistas como Money Mark, Ozomatli, Monareta and Isa GT.
"Originalmente nós queríamos apenas fazer alguns remixes. Daí a nossa gravadora sugeriu Thomas Cookman, um velho amigo nosso que disse que tinha em mente vários artistas para remixar "Genious of Love" Então achamos que valia a pena tentar!", explicou Chris.
"Tina e eu dissemos na hora que iriamos topar sim. Vários artistas resolveram participar e no fim onze remixes apareceram nas nossas mãos. Pode até ser que o Thomas não tenha nos mandado todos, mas a verdade é que todos os que ouvimos eram excelentes e não podiam ser descartados", completou.
"Alguns artistas responsáveis pelos remixes eram até desconhecidos por nós. Daí descobrimos que alguns caras podiam ser estranhos para nós, mas bombam na América Latina, por exemplo, tocando até em estádios. Tina e eu amamos os resultados. E achamos que fazia sentido lançar algo a mais que incentivasse as pessoas a comprar o CD pela primeira vez".
Como "Genious of Love" surgiu, lá em 1981?Chris Frantz (Tom Tom Club): David Byrne estava trabalhando em um álbum solo, que acabou se transformando no
Catherine Wheel, e Jerry Harrison também nos disse que estava querendo lançar algo sozinho. Então eu e Tina decidimos lançar um projeto solo também. Chris Blackwell nos convidou para ir a Nassau, no Compass Point Studios, onde já havíamos gravados três álbuns do Talking Heads, com a seguinte condição - se nós fizéssemos um single que ele gostasse, podíamos gravar um álbum. O primeiro single que compusemos foi "Wordy Rappinghood", e ele amou e nos deu carta branca. Na primeira sessão gravamos três faixas básicas - e uma delas era "Genious of Love". Não fizemos tudo na época porque tivemos que largar o processo para entrar em turnê com o Talking Heads.
Essas faixas surgiram a partir de ideias que vocês já tinham há tempos?Não. Fizemos um tiquinho de pré-produção em nosso apartamento, mas grande parte das ideias surgiram conforme fomos gravando. Aliás, foi o mesmo esquema que fizemos com o álbum
Remain in Light, do Talking Heads.
Foi sorte achar o riff de Genious of Love? Como foi o processo?Pensamos nesse riff em nosso pequeno apartamento em Nassau, e começamos a tocá-lo repetidamente em casa e no estúdio, separando pequenas partes e fazendo tudo de novo. E foi assim que funcionou. A gravação teve que ser bastante editada por ter sido gravada várias vezes, trabalho que coube ao engenheiro de som Stephen Stanley. E nesse tempo ainda precisava cortar manualmente.
Lindsay Buckingham, do Fleetwood Mac, afirmou que ele concebeu "Tusk" a partir da influência do Talking Heads. Quanta atenção vocês prestavam a bandas como Fleetwood Mac na época do Talking Heads?Nós ficamos surpresos pelo sucesso duradouro do
Rumours do Talking Heads. Nós tocamos esse álbum no nosso casamento, que era bem intimista e nem tinha uma banda, então usamos o toca discos mesmo. Isso era normal na época, em 1977. Mas nós não odiávamos a banda, de forma alguma. Algumas bandas punk da época olhavam com desdém para grupos mainstream, mas nós não éramos assim.
O sucesso que você conquistou com o Talking Heads te trouxe uma pressão para que você continuasse a seguir o mesmo rumo musical?Nós criamos um esquema de sempre ir para a frente, sempre progredir. Às vezes nós adotávamos mudanças radicais, e as vezes só uma coisinha aqui e ali. Nós sempre sentimos que nossa audiência era cabeça aberta o suficiente para aceitar experimentações e mudanças radicais. Nos anos 70 e 80 as pessoas eram mais abertas, gostavam de coisas novas. Até mesmo as rádios tinham uma orientação menos rígida. Tanto com o Talking Heads quanto com o Tom Tom Club, sempre pudemos fazer álbuns muito diferentes uns dos outros.
Entretanto, é lógico que quando a sua banda é bem sucedida as gravadoras querem que você continue fazendo tudo da mesma forma, e cada vez com mais rapidez. Então houve uma expectativa em relação ao segundo álbum do Tom Tom Club, mas na época também estávamos ocupados com o Talking Heads e não havia tempo para pensar nisso.
E como foi para vocês ter uma artista como Mariah Carey sampleando "Genious"?Basicamente, ela adicionou a música dela à nossa, não foi exatamente um cover.
Ela pediu permissão antes de gravar?Chris Frantz: Sim, os advogados dela falaram conosco. Nós estávamos na França quando recebemos a ligação, com os advogados dizendo que Mariah queria fazer uma versão de "Genious". Daí voltamos para os EUA e nos mostraram a música. Ficou bem claro que o que ela queria era um sample apenas, então negociamos e o resultado foi ótimo.
Os outros samples vieram depois de Mariah?Não, na verdade ela foi uma das últimas artistas a nos samplear. Mas isso continua acontecendo, as novas gerações sempre estão descobrindo a nossa música.
Vocês já negaram permissão a alguém?Acho que só uma vez, porque as letras eram tão agressivas e desprezíveis que precisamos dizer não. Mas isso foi no auge do gangsta rap.
"Once In a Lifetime" é uma das faixas mais eletrônicas do Talking Heads. Como ela surgiu?Isso foi na época das gravações de Remain in Light, quando estávamos no Compass Point Studio sob a produção de Brian Eno. Essa faixa especificamente começou após Tina e eu gravarmos o baixo e a bateria. Depois acrescentaram um pouco de guitarra, elemento que posteriormente acabou sendo eliminado na edição de som. O que eu e Tina fizemos foi pensar em um ritmo que fosse inigualável.
Os teclados eram de Jerry Harrison e David tocou guitarra. Então Brian Eno começou a brincar com o som a partir das gravações do baixo, da bateria e da guitarra, e meses depois ele acrescentou alguns vocais de apoio e percussão.
Quando nós gravamos as bases das faixas, elas soavam incríveis. Então David disse ao resto da banda que ele precisaria escrever letras tão incríveis quanto para combinar com as músicas. Nós não tivemos pressa nenhuma, e não queríamos estragar as canções colocando letras estúpidas só para terminar com rapidez. De acordo com Tina, foram uns dois meses para que David criasse as letras. Eu acho que ele aproveitou o tempo livre, pegou o carro e saiu dirigindo pelo interior, ouvindo muito rádio e aqueles pastores batistas que pregam sermões ao vivo. Essa foi a inspiração principal para os vocais de Once In A Lifetime.
"Once In A Lifetime" pode ser considerada uma daquelas músicas que muda a vida das pessoas?Bom, acho que dá para dizer isso. Na época nós realmente sentimos que era algo grandioso. Nós até mostramos para os amigos com aquela expectativa de que todo mundo gostasse. Foi uma grande evolução para nós.