PET Duo é capa da Raveline
"O significado de PET é como o do techno - pode ser o que você quiser"
Não é fato recente - o pessoal da revista alemã Raveline adora o Brasil. Desde 2002, quando a editora Katrin Richter trouxe sua trupe pra uma turnê por diversas capitais daqui, acompanhando o DJ Christian Fischer, nossos DJs e produtores têm sido destaque constante na revista. Depois de terem eleito o EP "Tem lenha", do DJ Murphy, como disco de techno do mês, fizeram um especial gigante e emocionado sobre a cena daqui. Esse deslumbre, extremamente positivo pra divulgação das nossas crias na gringa, continua - o PET Duo foi capa da primeira edição de 2004 da revista, disponível nas bancas da Europa desde janeiro.
A matéria sobre a dupla, de autoria da própria Katrin, é elogiosa no último. "O PET Duo está na cabeça de toda a Europa", diz um trecho. "O sentimento do Brasil atravessou o Atlântico e chegou até a Europa através deles. A autenticidade e a habilidade dos dois ultrapassa a massa dos outros DJs". O texto ainda inclui entrevista com os PETs e com Cristian Varela. O espanhol comenta que "o conceito da música dos PETs foi desenvolvido a partir de um treino de muitos anos, até chegar à perfeição".
Há uma discussão sobre o ato de tocar em 4 toca-discos. Varela diz ficar impressionado com esse tipo de apresentação do casal. "A gente tenta trabalhar com 100% de concentração", justificam. "Procuramos fazer sets sempre com 3 ou 4 pratos, mas isso nem sempre soou bem". David conta também que nem sempre os equipamentos disponíveis são suficientes pra mixar em 4 pick ups. "A maioria dos clubes brasileiros não dispõe de quatro toca-discos e dois mixers, não tem a tecnologia necessária. Mas nós procuramos compensar isso", ele diz.
A Lôca é citada como um espaço lendário do underground brasileiro. Katrin, que já esteve no clube, não economiza ao relatar suas memórias - fala do banheiro unissex, do dark room e de como tudo pode acontecer na pista de dança do inferninho. "O PET Duo fez o nome do lugar. Na Lôca, tocaram ao lado de renomados DJs europeus". O artigo ganha um tom cheio de encanto quando conta sobre como Ana e David se conheceram, ainda no Hell's Club. Mau Mau aparece praticamente como padrinho do casamento e até detalhes pessoais da vida da dupla são expostos - agora os alemães também sabem que o pai do David tem um salão de cabeleireiros.
Como não poderia deixar de ser, alguns dos princípios da dupla ganham aspas e figuram no texto. "A interpretação da nossa música é livre. PET pode significar o que você quiser, assim como o techno", opina Ana. "A pessoa deve manter seus sonhos e buscar o que quer não pelo dinheiro. Quem age assim trabalha porque gosta mesmo, porque não deixa os conceitos dos outros ultrapassarem os seus", ela diz. David completa: "Quando não estamos contentes com alguma coisa, devemos começar a nos mexer antes de criticarmos os outros". Daqui do Brasil, constatamos e confirmamos - o idealismo continua sendo uma das marcas dos PETs.
Como produtores, eles já aprenderam algumas lições. Ana dá uma alfinetada que, se lida como crítica construtiva, pode surtir bom efeito: "As pessoas que tem e conhecem os equipamentos de produção de música eletrônica em São Paulo não os compartilham". O empenho e o trabalho do casal venceram esse tipo de obstáculo, porém. "Não dá pra pegar bookings sem produzir", diz David, retratando bem a realidade da cena européia. O investimento que os dois fizeram na montagem de um estúdio próprio, portanto, foi pesado. É principalmente graças a essa persistência que os PETs estão onde estão, e é também por ela que eles vão muito mais longe.
Holgi Star comenta a cena brasileira na revista
Coincidência oportuna - recebi a Raveline de fevereiro poucas horas antes de fechar essa matéria. Junior Jack é a capa. Além de um especial incrível sobre o Kanzleramt, tem um review da turnê brasileira do Holgi Star. Escrito pelo mesmo, é uma espécie de panorama da cena local. A conclusão é uma recomendação bastante enfática, do tipo "visitem o Brasil!". Segue uma tradução dos pontos principais do texto. Diz aí - não é uma delícia ler nomes como Rodrigo Lobbão e Rafael Araújo em uma revista que veio de Datteln?
"Toquei em 15 pistas no Brasil. Eu ouvia falar muito na beleza do país e em como as pessoas são felizes lá. Achava que o país era só samba, e quanto à cena de techno, não conhecia nada além do Renato Cohen. Minha impressão mudou. A música eletrônica é bastante difundida lá, assim como aqui na Europa. São Paulo é a capital brasileira do conhecimento sobre techno. Tem o Lov.e, A Lôca, Manga Rosa e muitos outros clubes bons, além da Circuito. A cena de lá se parece um pouco com a de Berlim há dez anos atrás. O sentimento é de euforia, as pessoas são super legais e adoram música. Os clubes unem gays e heteros, brancos e negros, gente nova e gente mais velha, pobres e ricos. Locais como PET Duo, Camilo Rocha e Animal juntam um público enorme e são tratados como estrelas. Curitiba tem uma cena de música eletrônica cheia de vitalidade. Rolam festas na Vibe, no Cabral e vários núcleos produzem eventos. É o lar do Rafael Araújo, da Technose. Ele participa da organização das melhores festas da cidade. A uma hora de São Paulo tem o DJ Lukas, de Campinas, que toca para os amigos do techno no Kraft. Mais ao norte tem Fortaleza, que achei o lugar mais bonito do país. Um paraíso oceânico. A cerca de 20 metros do mar, toquei na festa Megavucco, produzida pelo Rodrigo Lobbão e sua equipe. O Rio, mais conhecida cidade do Brasil, tem uma pequena cena. A praia é muito bonita e o sol é bem forte. Esse deve ser o maior problema. O techno não parece uma das melhores alternativas quando se tem tudo isso."