O que esperar do álbum de Brian Eno pela Warp
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O que esperar do álbum de Brian Eno pela Warp
Um dos grandes compositores do seu tempo, Eno vem agora em edição especial pelo experimental selo britânico
26.08.10 10:10
Os fãs de música que estão de olho nos lançamentos da Warp levaram um belo (literalmente) de um susto na última semana, quando foi anunciado o lançamento de um álbum de Brian Eno pelo selo inglês. A união de duas lendas da música contemporânea deixou os fãs com a pula atrás da orelha, já que nenhum detalhe do álbum foi divulgado. O que será que pode sair dessa parceria?

Brian Eno é uma raridade entre as raridades: além de ser um músico e produtor versado em teoria musical e defensor da técnica diante da prática, pode se gabar de nunca ter se transformado em um técnico de estúdio preciosista e conservador. A palavra chave para Eno sempre foi a inovação: ao comprovar que a técnica não é inimiga da espontaneidade e que é possível passar décadas mexendo com música sem perder o tino e a criatividade, o produtor conseguiu construir uma carreira genial, irregular (no ótimo sentido), experimental, arriscada e egocêntrica.

Fundador do Roxy Music, Brian Eno sempre se preocupou em unir forma e conteúdo em seus trabalhos - de uma maneira que um sempre pudesse influenciar e modificar o outro. Além de uma preocupação com as letras e toda a função estética de uma banda (no caso do Roxy, todo o conceito musical se refletia nas roupas, nas capas dos álbuns, na postura no palco e na publicidade), Eno ia além: seu objetivo era pesquisar diferentes maneiras de encarar a música.



O produtor era tão aficionado por pesquisa musical que uma de suas maiores inovações veio desse vício - tentando explorar as potencialidades técnicas de cada som, Eno descobriu as texturas, para ele tão importantes e essenciais para o som quanto o conceito tradicional de melodia. Em seus projetos (Roxy Music, suas colaborações com o Talking Heads e com o Devo, suas empreitadas solo), ele fez questão de se enfurnar em estúdio e pesquisar obsessivamente até que a desconstrução e a reformulação das teorias de estética musical, simetria, harmonia e ritmo fossem o caminho natural a ser seguido. Funcionou: a textura e a repetição em busca de uma ordem musical se tornaram carros-chefe de uma sonoridade que sempre foi essencial tanto no rock pós-punk quanto na música eletrônica.

"Eu sempre amei os synths assimétricos e atonais de Brian Eno. Ele trouxe para o pós-punk toda uma nova maneira de se olhar para esse instrumento, ao contrário de músicos como Rick Wakeman e Keith Emerson, que soavam para nós apenas como tecladistas superestimados", afirmou Mark Mothersbaugh, do Devo, em depoimento ao jornalista Simon Reynolds no livro Rip It Up and Start Again. O uso abusado e inesperado de Eno para elementos antes tão comuns é o que faz de suas pesquisas musicais um verdadeiro trunfo - já que pesquisar a esmo é coisa para museu.

A musicalidade de Brian Eno é ciência pura, é pesquisa, é bagagem. Mas até aí nem seria tanta a novidade: afinal, muitos artistas se esmeram na questão da técnica e da pesquisa bibliográfica e criam catálogos enormes de conhecimento. Mas o músico e produtor teve sempre a vantagem de se envolver com a história, em vez de passar pela margem e ficar só nas fronteiras.

Prova disso é a incursão do músico pela cena No Wave. Em meados de 1977, quando estava trabalhando na produção e mixagem do segundo álbum do Talking Heads, Brian Eno viajou até Nova York - e deu de cara com o surgimento da segunda leva da No Wave com artistas como DNA, Mars, Contortions e Teenage Jesus & The Jerks. Encantado com o espírito anárquico e a união de pesquisa erudita (a maioria dos músicos vinha de escolas de arte) com postura punk de desconstrução do passado, ele resolveu fazer mais do que observar, lançando uma coletânea com algumas bandas e se esgueirando nos estúdios como produtor e técnico de som - o rraurl publicou uma resenha do resultado, leia aqui.



Enxerido? Claro. Egocêntrico? Certamente. Como se não bastasse, Eno foi um dos principais responsáveis pelo conceito de ambient music, som que desafia o papel da música como centro das atenções para, com um trabalho puramente de texturas e experimentação atmosférica, criar uma sonoridade que se integre ao ambiente, sem virar atração principal. Para criar a ambient music, Eno criou toda uma musicalidade de estúdio que precisava ser etérea, repetitiva e baseada no estudo de texturas - afinal, a riqueza desse gênero não vem do ritmo, e sim da própria identidade dos acordes.



Esse preciosismo é uma constante na carreira de Brian Eno, com dois destaques: seus três álbuns com o Talking Heads (More Songs About Buldings and Food, Fear of Music e Remain in Light) e a piração My Life in The Bush of Ghosts, parceria com David Byrne na qual os dois músicos (almas gêmeas na época) pesquisaram tantos sons diferentes, de música árabe a batidas tribais, que a sonoridade final foi um dos maiores mistos de tudo ao mesmo tempo da música contemporânea.

Tento em vista tal currículo, dá para imaginar o que esse cara vai inventar agora que está na Warp, um dos selos mais inovadores da história da música (que conta com artistas como Aphex Twin e a espetacular série Artificial Intelligence)?

Por enquanto, só podemos mesmo imaginar. Entre as poucas informações disponíveis a respeito do álbum estão a parceria com o músico inglês Jon Hopkins, conhecido por compor ele mesmo os acordes, melodias e texturas para suas incursões eletrônicas, e Leo Abrahams, que faz um som influenciado pelo rock e pela ambient music com orquestrações e algumas manias de grandeza. Além disso, o músico divulgou o título do álbum, que chega às lojas no dia 2 de novembro: Small Craft on a Milk Sea. Dá para ver todos os detalhes estéticos e o capricho das edições especiais (que incluem até livro com litografias) no site oficial.

Eno

Stefanie Gaspar
Stefanie Gaspar
comentários
4 comentários
Raquel Setz
Raquel Setz(28.08.10)
2AprovadoQueima
Eu amo o Brian Eno, mas ele colocou a mão em uma coisa excepcionalmente ruim sim: Coldplay.
Cj Hal
Cj Hal(27.08.10)
1AprovadoQueima
@Raul Cornejo
rsrs

Interwebs seriouz buziness
Rodrigo|Digha
Rodrigo|Digha(26.08.10)
1AprovadoQueima
De qualquer maneira tendo em vista as partes envolvidas é de se esperar que venha coisa boa.

Por falar em partes envolvidas, é impressão minha ou o êxtase com o retorno de Eno foi tanto que você esqueceu de citar qual a outra metade das "duas lendas da música contemporânea" (David Gilmour), rsrsrsrsrsr?
Raul Cornejo
Raul Cornejo(26.08.10)
1AprovadoQueima
Já virou motivo de piada na internet o fato desse álbum já ser tão comentado, apesar do fato de não haver sequer uma ínfima amostra do q ele trará musicalmente. Claro q o Eno é alguém q está acima e além de qqer hype e, honestamente, não consigo lembrar de cabeça de nada excepcionalmente ruim q ele tenha posto a mão, mas esse bafafá metamusical já está meio q tomando proporções indevidas.