Larry Heard
Lições e lembranças de Chicago
23.03.04 01:45
Ele pode não figurar com tanta frequëncia nas listas de "figurões" de Chicago, mas Larry Heard é dono de um talento ímpar para colocar alma nas batidas da música e de uma extensa discografia que o torna figura indispensável na discoteca de qualquer apaixonado por música eletrônica.
Influenciado pelo som tocado no clube/lenda Warehouse, ao lado de Robert Owens (que foi só elogios ao companheiro quando esteve no Brasil, em 2002) Heard deu ao mundo "Can You Feel It", sob a alcunha de Mr. Fingers. Seus releases pelo selo Trax durante a década de 80 serviram de inspiração para quase todos os produtores que vieram depois, e ainda hoje suas faixas são citadas como alguns dos melhores momentos da música eletrônica.
Na entrevista abaixo, o DJ e produtor respondeu algumas perguntas com exclusividade para o rraurl.com e, entre memórias e planos, lembra uma importante lição: "Música é sobre diversão, não análise". Amém, Larry Heard, amém!
rr: Você é músico, compositor, produtor, diretor de áudio, repórter e DJ. Como divide seu tempo entre tantas ocupações?a
Larry Heard: Na verdade, está sendo bastante difícil fazer tudo isso e ainda envelhecer. Ando pensando seriamente em quais serão minhas prioridades em um futuro próximo. Escrever, gravar e produzir sempre serão minhas prioridades máximas, então penso em reduzir mais minhas apresentações como DJ. Ainda estamos em março e eu já estou cansado o suficiente para não discotecar o resto do ano, focar no meu trabalho em estúdio.
Como começou o seu envolvimento com a house music?
Eu fiz uma faixa em casa, e alguns amigos que freqüentavam o Warehouse [rr: o clube onde Frankie Knucles foi residente entre 1977 e 1982 e que, como se sabe, foi onde a house music ganhou seu nome] ficaram bastante animados e disseram que era parecido com o som tocado no clube. Esse foi o começo. Quando percebemos que as pessoas gostavam do que fazíamos, eu e um amigo, Donnie Hardy, começamos a pensar em como iríamos gravar discos com nossa música. Era tocada de uma fita cassete até nós termos alguns acetatos e, mais tarde, discos de vinil.
O termo deep house ganhou status através da música "Can you Feel It?". Você esperava obter tamanho sucesso com essa música?
Eu não estava pensando nisso na época. Estava apenas curtindo fazer algo que eu realmente amo fazer até hoje. Fico feliz que essa seja uma das faixas desse tempo que a nova geração gosta ainda hoje.
Alguns de seus trabalhos foram feitos com Robert Owens e Ron Wilson, no Fingers Inc. Vocês ainda se encontram e produzem algo juntos? Existe alguma possibilidade de novos lançamentos em conjunto?
Seria ótimo, mas Robert Owens vive em Londres e eu vivo em Memphis, no estado do Tennesee. E nenhum de nós dois sabe onde Ron Wilson está hoje em dia. A distância entre nós torna muito difícil um trabalho conjunto, mas eu espero que um dia isso aconteça. Robert e eu já falamos sobre o assunto, mas a situação hoje em dia simplesmente não torna possível.
De onde vieram os nomes Mr. Fingers e Fingers Inc?
O nome que eu usei para a primeira edição de "Mystery of Love" foi Loosefingers, que era como meu irmão mais novo e seus amigos me chamavam na época. Eu costumava fazer diversas imitações, como se estivesse tocando instrumentos e discotecando, e eles começaram com o nome porque eu movia as mãos tão rápido que ninguém conseguia dizer o que eu realmente estava fazendo. Mr Fingers e Fingers Inc. foram apenas modificações em cima de Loosefingers.
Existe algum produtor atual que chame a sua atenção e com quem você gostaria de trabalhar?
Existem diversos produtores que eu realmente gosto muito, e posso citar entre eles Blaze, Onsulado e Little Louie Vega. Entretanto, trabalhar com as pessoas em coisas criativas é um pouco mais complexo do que simplesmente entrar em estúdio. Pode até mesmo ser perigoso, com tanta gente da mídia por aí, doidas para criticar alguma coisa que não entendem e passar seu ponto-de-vista para outros.
A house music atual continua a sofrer grande influência de Chicago, de Steve Silk Hurley a Glen Underground, de Chris Gray a Ron Trent. O que torna essa cidade tão influente para a cena house mundial? Você acredita que a house de Chicago voltou a ter o mesmo reconhecimento da década de 80?
Isso pode ser por causa da a experiência original de Chicago e Detroit. As pessoas nessas cidades tiveram uma experiência autêntica e não-planejada com a música, que não pode ser capturada em palavras ou em filmes. Não teve nada a ver com os grandes nomes e todas as coisas que são o centro das atenções hoje. Não haviam grandes nomes na época. Era apenas a música fazendo seu impacto, as pessoas tinham a liberdade de decidir sozinhas se gostavam ou não.
Se você pudesse mudar algo no cenário da house music atual, o que seria?
Em primeiro lugar, eu deixaria de dar tanta ênfase para o gênero "house music" e todos os nomes de outros gêneros. Conheço pessoas que gostam de diversos estilos de música, e na maior parte do tempo estão confusas com a quantidade de nomes que existem hoje em dia. Eu mesmo fiquei confuso alguns anos, não comprava mais música, começou a parecer mais trabalho do que prazer enorme que eu tinha em comprar discos.
Eu tinha entre nove e dez anos de idade quando comprei meu primeiro disco em 45 rpm e não me lembro de ninguém fazendo barulho em cima do gênero musical. Eu gostava de coisas diferentes do resto do pessoal da vizinhança onde eu cresci, mas mesmo assim ninguém estranhou que eu ouvisse coisas como Rush, Genesis, Yes, Frank Zappa, George Duke, Return to Forever e outros artistas que as pessoas que acham que sabem muito sobre mim provavelmente jamais imaginariam. Era uma vizinhança predominantemente negra, então soul, blues, jazz e música gospel era o que se ouvia na maior parte do tempo. Mas mesmo assim, ninguém tentou me fazer sentir como se tivesse algo errado com a música que eu gostava apenas porque era diferente do que eles ouviam e compravam.
E se você tivesse de definir a house music para os que não a conhecem, como seria?
Eu não a definiria, porque não é esse o significado da música. É sobre diversão, não análise. Isso é o que parece que as pessoas estão perdendo hoje em dia, o simples prazer de aproveitar algo sem ter que explicar os motivos para alguém. Isso parece muito estranho para mim.
Você viajou por vários países do mundo e em todos os lugares você é reconhecido e elogiado. Como é conviver com esse reconhecimento?
Na verdade, elogios e críticas aparecem juntos quando você está tocando ou discotecando. Em diversas ocasiões parece que as pessoas estão esperando para serem transportadas para "os bons velhos tempos" em Chicago, Detroit e Nova Iorque. E acabam não aproveitando o que acontece hoje se isso não casar com as imagens e com as idéias que ainda existem sobre aqueles tempos. Quem diz que ama você em um minuto pode mudar de idéia rapidamente...
Como surgiu o Alleviated Records? Fale um pouco sobre ele.
Não existe muito mais a ser dito além do que eu já disse anteriormente. Donnie e eu fizemos algumas pesquisas e acabamos encontrando um lugar em Gary, na Indiana, que prensava discos. Começamos com "Mystery of Love" e estamos na ativa desde então. De tempos em tempos, claro.
No que você está trabalhando no momento?
Estou tentando trabalhar na série de EPs do Loosefingers, que eu comecei em dezembro. Mas está andando um pouco devagar, por causa da quantidade de coisas em que eu estou envolvido.
Muito se tem discutido sobre as novas tecnologias, cd X vinil, mp3 e internet. Você é adepto das novas tecnologias? Você acha que o download de MP3 é uma ameaça aos pequenos selos? Como conviver com isso?
Sobre CD x vinil, eu acho que isso é simplesmente ser uma questão de escolha. Eu não entendo qual é o problema e penso que toda a questão tem sido um dramatizada demais e está fora do foco da música atual. Por que ter a flexibilidade de escolher entre as mídias e então criticar outra pessoa pela sua escolha?
Já sobre o download de MP3, se você está fazendo isso de um modo legítimo, dando suporte para a cena, não vejo problema. Mas pegar arquivos de uma forma não-autorizada é apenas uma demonstração de que você não se importa com essa cena e com seus artistas e selos. Como poderemos viver com isso? Eu não sei responder. Eu apenas escrevo palavras e faço música. Acho que os líderes dos países deveriam ser responsáveis por essas outras questões.
Uma mensagem final.
Não tenho certeza do que dizer, além de uma mensagem para oferecer meus agradecimentos para todo mundo que deu suporte aos nossos discos em todos os lugares. E para aqueles que ainda não nos ouviram, espero que o façam se puderem encontrar. Se gostarem de soulfull-dance-music, e de música influenciada pelo jazz, penso que gostarão da nossa música. Quem gosta de artistas como Sade, Gary Taylor, Soul II Soul, Tortured Soul ou Loose Ends, provavelmente vai gostar da minha música, que é muito parecida com a desses artistas.
EdgroundEdinho é jornalista e, entre outras, foi responsável pelo site Cena Brasil.