"Discobelle.net é um blog sueco sobre música. Porque a gente ama, não porque a gente quer enganar alguém por grana."
"Discobelle.net é um blog sueco sobre música. Porque a gente ama, não porque a gente quer enganar alguém por grana."
Nascido quatro anos atrás como um guia noturno para DJs que se apresentam no sul da Suécia, o
Discobelle é hoje um dos portais mais influentes e movimentados da rede, atraindo até 200.000 visitantes por mês. Não que isso surpreenda todo mundo, como sugere o texto sagaz sobre os objetivos do site: "Não postamos álbuns, apenas faixas, remixes e vídeos. Algumas vezes por mês temos sets exclusivos de DJs do mundo todo também," continua. "Pedimos que todo mundo que curte a música que a gente posta também encontre uma boa maneira de apoiar os artistas por trás dela."
Em uma conversa rolou em um apartamento de Berlim com uma luz incrível durante uma tarde ensolarada de domingo, o co-fundador do Discobelle, Martin, estava de bom humor após tocar no super-quente galpão Villa na noite anterior com o parceiro do Discobelle, o DJ Kristian. Os dois acabaram no Berghain até 9 da manhã, onde ficaram surpresos de não encontrar filas, embora seis horas depois estivessem lúcidos e com uma cara ótima, sem sinal nenhum de farra da noite passada.
E enquanto Kristian dá uma saída para buscar sua namorada, Martin (um administrador de universidade durante a semana) começa a entrevista demolindo com alegria a idéia de que os downloads gratuitos estão matando o mercado musical.
"Eu diria que na verdade é o contrário," sorri. "Downloads gratuitos permitem que mais pessoas entrem em contato com sua música. Antes você tinha que mandar suas faixas para as rádios, ou revistas, ou selos, e agora você pode ser ouvido. Acho isso bom porque as pessoas descobrem mais música e assim comprarão mais música," sugere.
O que levanta algumas questões. Primeiro, nenhuma das faixas deles são 'roubadas' ou enviadas por DJs que abusam de listas de promos: em vez disso, praticamente todas as faixas disponíveis para download no Discobelle são cópias promocionais enviadas diretamente por divulgadores e produtores, que pedem que eles subam suas faixas, e não para tirá-las do site.
E mais: blogs como o Discobelle (e sites-parceiros de download como
SheenaBeaston.com,
Big Stereo,
Fluokids e
Music Ninja) hoje fazem tanto sucesso que ameaçam tomar o lugar de antigas mídias formadoras de opinião representadas por revistas e rádios.
"A gente recebe por volta de 150 emails todo dia com faixas e sets, e sobe uma média de cinco posts por dia, que podem ser faixas ou sets. Ou talvez um vídeo." diz Martin. "Então recebemos uma média de 25 a 30 de mil faixas e sets toda semana."
A dupla é cada vez mais conhecida tanto como DJs quanto como bloggers, embora na casa deles a história seja bem diferente, admitem prontamente.
"Na verdade, somos mais conhecidos em outras partes do mundo, é meio que um clichê do profeta que não é reconhecido em seu proprio lar," ri Martin. Kristian (que acaba de voltar) concorda, observando que embora conheçam a maioria das pessoas da mídia mainstream da Suécia pessoalmente, sua reputação localmente continua bem baixa: "ainda não somos convidados para os grandes eventos como cerimônias de entregas de prêmios e pra mim isso é uma merda" ri (causando altas gargalhadas em Martin) "porque alguns dos artistas que ganham prêmios são pessoas que nós descobrimos: postamos suas primeiras faixas."
"É meio estranho," acrescenta Martin. "Recebemos emails de empresas americanas de divulgação mandando faixas de artistas suecos, mas às vezes produtores suecos não mandam as faixas pra gente: pelo menos não diretamente". "Vai ver que estamos muito perto de casa," acrescenta Kristian.
"Recentemente tivemos uma discussão com uma revista local de dance music, a maior revista de distribuição gratuita da Suécia, sobre o motivo pelo qual eles nunca escreveram sobre nós, porque eles escrevem sobre todo mundo, todos os nossos amigos, e eles disseram que somos tão grandes que nos tornamos concorrentes. E meio que faz sentido, mas por outro lado nós não somos uma publicação, somos quatro caras fazendo um blog de música. Só porque somos grandes não significa que somos uma grande empresa comercial, também precisamos de apoio," diz.
"E outra: nunca fizemos parte da cena da moda na Suécia, somos bem pés no chão. Não sei se a gente se importa o suficiente pra estar no meio do povo
in. Não que a gente não queira estar (risos dos dois), mas realmente não sabemos como. Fazemos nosso lance e é isso."
Reconhecimento à parte (eles estão claramente confortáveis com seu status outsider e meio nerd), os dois são cheios de charme, entusiasmo e energia.
A internet está se desenvolvendo incrivelmente rápido. O que mudou na visão do Discobelle desde que vocês começaram há cinco anos?Discobelle (Martin): Tudo começou meio que como um guia noturno do sul da Suécia, e aí descobrimos que as pessoas gostavam dos sets dos artistas sobre os quais falávamos quando eles tocavam nos clubes locais. Então postamos mais coisas deles. E mudamos a língua de sueco para inglês. Então no início era um site que divulgava a cena noturna local, e depois mudou para o blog que é hoje. Espero que hoje sejamos vistos mais como formadores de opinião do que como apenas um blog. Também estamos mais envolvidos com as atividades do
selo Discobelle.
Como vocês evoluíram de um pequeno guia noturno local à entidade internacional de hoje, quanto de sorte tem no meio disso?Martin: Acho que o nosso timing foi absolutamente perfeito. Os blogs começaram a pipocar em 2006 e tínhamos artistas de clubes diferentes fazendo sets e aí tudo cresceu, como um monstro (risos).
Daniel Haaksman, do Man Recordings, disse que ter um selo não o ajuda mais a conseguir gigs, sugerindo que os blogs atualmente são os novos selos em termos do que as pessoas seguem. Qual a avaliação de vocês sobre o mundo dos blogs?Martin: Há tantos blogs, todo mundo tem um, e há milhares de blogs de MP3. Desde que começamos foi uma explosão, mas eu diria que sim, talvez ele esteja certo sobre o fato de os blogs serem os selos, com as pessoas indo até eles como os novos formadores de opinião mais do que outras mídias que dominavam no passado.
Vocês ouvem tudo o que recebem?Martin: Eu estaria mentindo se dissesse que sim, mas muito do que recebemos não é pro Discobelle, vem de divulgadores que mandam os mesmos releases para todo mundo. Mas temos uma idéia do que precisamos conferir.
Que conselho vocês dariam para o leitor que quer que vocês ouçam a faixa dele, o que ele tem que fazer?Martin: Ele NÃO pode mandar o mesmo email genérico que vai pra todo mundo. Ele tem que incluir um toque pessoal, e tem que usar o Soundcloud ou algo parecido, é melhor do que mandar a faixa anexada ao email, porque isso entope o email muito rápido.
Mesmo assim vocês devem receber pelo menos 50 emails por dia com gente que faz isso. O que mais ele tem que fazer para ser notado?Martin: Eu diria para também mandar músicas no estilo do Discobelle, ou seja, dance music. Trabalho em um escritório oito horas por dia constantemente ouvindo música.
Quem foram os maiores produtores que vocês lançaram?Martin: Hum... Quando começamos postamos um monte de Baltimore, produtores americanos como
Tittsworth e DJ Ayers. Também cobrimos alguns produtores de tech-house de Londres como Mowgli e
Zombie Disco Squad. Também tentamos focar na música sueca.
Vocês tem alguma dica sobre como atrair um grande público para um blog?Martin: Ainda fazemos isso porque é divertido. A hora que virar um trabalho chato as pessoas notarão rapidamente. Faça isso por diversão e poste o que você quiser, as coisas que você curte. Aí provavelmente vai funcionar.
Vocês competem muito com blogs rivais? Há algum truque sujo, é um mundo onde um puxa o tapete do outro?Martin: Tem muita gente puxando tapete sim, mas a maioria dos outros blogs tem uma galera legal como a gente por trás. Temos um mailing list para outros blogs chamada Grindin' com uma média de 60 a 70 blogs e donos de pequenos selos no meio. Então todos são amigos. É gente como o blog americano BigStereo e o Fluokids, da França. Todo mundo se ajuda. Alguns deles também começaram selos, então a gente troca posts.
O objetivo é vender música no Discobelle e fazer grana?O objetivo principal é espalhar música e nem perder, nem ganhar grana, que é o que a gente faz. Quando começarmos a ganhar dinheiro vamos dividi-lo entre nós e os artistas, a intenção não é lucrar.
Kristian: Somos um pequeno grupo de pessoas, o que significa que podemos seguir com a maré. O selo começou como um pequeno projeto, mas até agora tem sido recebido tão bem que a gente deve desenvolvê-lo no futuro. A única coisa que concordamos é que, quando não tiver mais graça, vamos decidir o que fazer. Ou talvez haverá um momento de ruptura em que todos vão largar seus day jobs e se concentrar no Discobelle em tempo integral para levá-lo a um próximo estágio. Não temos um golpe de mestre planejado.
tradução: Benjamin Ferreira
Boa!