Nenhum país sul-americano gerou tantos DJs e produtores que chegaram ao primeiro escalão da música eletrônica como o Chile.
Ricardo Villalobos,
Luciano e
Dinky são alguns exemplos. Pier Bucci também.
Uma prova da relevância do DJ e produtor são suas faixas e remixes lançados por importantes selos de techno e house music como
Cocoon,
BPitch Control, Wagon Repair e
Cadenza. O talento também gerou um álbum -
Familia, de 2005, além de singles lançados pelo britânico
Crosstown Rebels.
Com o lançamento, em abril passado, de seu segundo álbum,
Amigo contatamos Pier Bucci para o bate-papo que você lê a seguir.
Para começar, vamos falar sobre Amigo. Fazer um álbum para ser lançado pelo seu próprio selo, o Maruca é diferente do que fazer um álbum para ser lançado por outro selo? Você sentiu mais liberdade ou pressão?Fazer um álbum pelo seu próprio selo é muito mais trabalhoso, agora eu sei! Mas, no fim das contas, a satisfação é maior. Eu tenho a liberdade de lançar o que eu bem entender, posso criar um conceito e lançá-lo.
Para mim, os destaques do novo álbum são Eternelle - que tem belíssimas melodias -, "Wayna Wasi" e "La Payaya" - que são minimal techno bem orgânico. Quais suas considerações sobre essas faixas e quais são suas preferidas no momento?"La Payaya" e "Wayna Wasi" representam minhas raízes, andinas e sul-americanas, nas profundezas das montanhas dos Andes e na cidade de Santiago. Eternelle é uma faixa um pouco mais cosmopolita, não tão minimal, e representa minha vida na Europa, como eu sinto a Europa e conta com o vocal mágico de Armelle.
Eu amo as faixas "La Cortina De Hierro Y El Pajaro Cantor", "Iskrenne" e "For Free", mas sinceramente, eu não penso no meu álbum faixa-a-faixa e sim como um conceito, no todo.
Seu album Familia é considerado um clássico techno por muitos DJs, produtores, crítica e público. Você sentiu alguma pressão para superá-lo ou para atender as expectativas do público durante a criação do novo álbum ou apenas faz o seu trabalho sem se importar com as opiniões dos outros?Eu faço o que eu faço. Eu não posso basear toda a minha carreira em apenas um álbum ou esperar a mesma reação das pessoas em cada álbum que eu lanço.
Como um dos pioneiros nesse tipo de mistura, qual sua opinião sobre a proliferação de faixas com percussões, vocais e outros samples de música latina na house music e no techno atual?Na minha visão, a música eletrônica sempre terá influências africanas e sul-americanas - para citar apenas duas. Isso não é novidade para mim, sempre existiu, desde o início da música eletrônica. Mas essas novas idéias de vocais, percussão e outros samples latinos que estão "na moda" são interessantes se você sente a música e entende o significado disso tudo, mas hoje em dia isso está em toda parte e muitas pessoas não entendem o que isso significa.
Aparentemente você tem uma relação muito especial com o Japão. A que você atribui esse gosto do público japonês - que tem uma cultura tão diferente da sul-americana e européia - por sua música?Para mim, a cultura japonesa é uma das mais interessantes que há. Eu e o público japonês temos uma relação muito forte, é como se falassemos a mesma língua, apesar de todas as diferenças. Para os japoneses, a honra é super importante, assim como para mim. Tanto eu como os japoneses valorizamos o respeito entre as pessoas, as relações humanas. Além disso, os japoneses são extremamente críticos e emotivos em relação à música. Eles conseguem ler e traduzir o real significado da minha música.
O Chile gera muitos excelentes DJs e produtores, mas a maioria deixa o país, como é a cena chilena de techno? O fato de haver todos esses artistas que vieram de lá mas vivem na Europa ajuda a cena de alguma forma?Vamos colocar as coisas da seguinte forma: o Chile é um bom local para inspirar as pessoas a fazerem música e a Europa - Berlim mais especificamente - é um bom local para lançar e comercializar essa música. Para ser considerado bom na América do Sul, normalmente você tem que ser reconhecido na Europa primeiro, pois são os europeus que determinam o que é bom ou não. Isso cria um "loop" interessante: você precisa da Europa para ser reconhecido e da América do Sul para buscar inspiração. Isso contribui com a cena européia e a chilena.
Quais os planos para o futuro para Pier Bucci e também para o seu selo Maruca?Eu tenho feito muita música no momento. Quero fazer um álbum para ser lançado apenas no Japão. Tenho também alguns lançamentos planejados para Maruca para este ano e tenho feito algumas faixas bem bacanas com
A Guy Called Gerald.
Em setembro será lançado pelo Maruca um EP bem legal que eu fiz com uma dupla de produtores russos e também em breve lançarei os primeiros remixes do meu álbum - um deles será feito pelo Soul Capsule, que é um projeto do Baby Ford com o Thomas Melchior.