"Já me meti em algumas porradas, verdade. Perdi um dente da frente e quase perdi um olho quando caí bêbado em Bangkok depois de uma competição de bebida com o whiskey tailandês Maekong. Foi divertido. Quer mais? Abri a cabeça lutando contra leões-de-chácara racistas em Praga que atacaram um soldado negro que tinha virado meu amigo naquela noite."
Auto-descrito como "disco desperado", o jornalista
Simon A Morrison uma vez pichou o muro do clube Zouk, em Singapura: "Why? Because life is a disco", uma fiolosfia que ele vive há 15 anos de carreira como um dos jornalistas mais importantes da cena club do Reino Unido, escrevendo para todos os principais veículos de dance music por lá (Mixmag, Muzik, DJ, Ministry e 7). É um especialista no estilo 'gonzo' a la
Hunter S Thompson, que usa para documentar suas aventuras com detalhes explícitos, ensanguentados e geralmente constrangedores - como a luta com os seguranças truculentos em Praga.
"Foi bizarro porque depois de levar metade dos sopapos me toquei de que eu realmente não sei lutar," relembra, "o que você provavelmente sacou quando usei a palavra 'sopapos'. E assim que percebi isso, ví que os outros caras tinham cassetetes. E armas. Minha cabeça jorrava sangue, quem estava perto surtava e eu consegui ser preso. Acabei no fundo de um camburão citando Shakespeare só pra me certificar de que meu cérebro ainda estava no lugar. Saí da delegacia na manhã seguinte, arrumei uma mala e segui direto para a fronteira," continua. "Sem olhar pra trás."
5 anos depois ele olha para trás em toda sua carreira ao publicar
Discombobulated - Dispatches From The Wrong Side (apenas em inglês), um livro que reúne 50 de suas mais loucas aventuras. Com um mestrado em redação de romance, esse é um homem que conhece suas palavras, como prova o seu uso do termo 'discombobulated'. Nada (e tudo) a ver com clubes, ele é definido de várias maneiras: "uma forma mais extensiva e intelectual para confuso/enganado", "sentindo-se desligado ou desequilibrado" ou "fora de ordem, não funcionando adequadamente, balbuciando besteiras, disfuncional, fora de forma e maluco". "The Wrong Side" (o lado errado), por sua vez, reflete a tara dele pela sarjeta.
"Esse sempre foi meu interesse, o 'lado errado', tipo um antropólogo da falta de educação - um David Attenborough com baladas no lugar de selvas para explorar," diz, empolgado.
"Sempre pensei no 'wrong side' como um habitat conceitual que poderia estar em qualquer lugar - as florestas amazônicas do Brasil, as ruas de Manhattan, a pista de dança, a sala de estar do seu amigo. Acho que qualquer um que cresceu na pista de dança e viveu comigo pelas festas da virada dos 80 pros 90 pode se identificar com o conceito. Todos nós sabemos quando engolimos pílulas demais e passamos daquela linha - ou aspiramos a linha e o que mais estiver por perto - e tudo começa a ficar bagunçado. Aí você acorda semi-nu em uma vala coberta de duendes e iogurte numa tarde de terça-feira e começa a se estapear porque tudo aconteceu. De novo. Todos nós podemos nos identificar com o errôneo, com o processo de discombobulação," diz Simon, que publicou um capítulo inteiro do livro em seu blog no myspace -
leia aqui.
rraurl: Vou começar com uma das histórias mais extremas do livro, que descreve o 'celebrity gangster' e promoter Dave Courtney colocando uma arma na sua cabeça. Fale um pouco sobre o medo que você sentiu nesta experiência.Simon Morrison: Dave Courtney foi um docinho. Foi estranho, na verdade, sendo que eu não estava muito a fim de ressaltar, na história, o que ele realmente significa. Afinal, ele já matou gente. Mesmo assim, ele é um cuzão hilário, imensamente carismático. Foi bem interessante sentar na sala dele no meio de soqueiras e armas e espadas e sabe Deus mais o quê, só jogando conversa fora. Quando ele me deixou no metrô Plumstead e me convidou para tomar uns drinks num outro dia, mas nunca cobrei dele isso. Em momentos tranquilos demais eu me arrependo disso.
Você fala de aventuras que às vezes passam para a ilegalidade: já teve problemas com a polícia ou oficiais de imigração que leram suas proezas? Não, eu tenho conseguido manter tudo debaixo dos panos. Já tive alguns problemas com esse povo com distintivos, mas eu mesmo os causei. Uma vez, saindo do Egito, estávamos tão atrasados que um fotógrafo e eu viramos um litro inteiro de whisky que compramos na Duty Free e eu acabei em cima de um soldado com uma arma na mão. Tendo em mente que eles não curtem álcool nos países muçulmanos, não foi uma cena muito bonita. Também passei anos viajando pelo mundo, vivendo em lugares como Sydney e Los Angeles e isso não foi algo lá muito, digamos, oficial. Mas eram tempos mais inocentes e quando eu fui embora a Imigração ficava geralmente bem feliz de ver as minhas costas."
Por que e como você foi deportado da Rússia? Foi uma confusão lamentável relacionada a vistos. Estive em Moscou algumas vezes e sei bem os pulos que você tem que dar só para conseguir um visto. O que os promoters tinham para mim não era um visto. Tentamos improvisar um, e conseguimos dinheiro para colocar os dois pra dentro - por volta de mil dólares para cada - mas sendo um jornalista mal-educado de moral e higiene questionáveis eu passei do ponto e fui jogado aos cães da imigração.
Me levaram para um escritório e eu tentei jogar algumas piadas, que saíram ainda piores que o de costume. Vários telefonemas depois, eu finalmente fui levado de volta ao mesmo avião de onde eu havia saído - por soldados russos armados. A porta do Jumbo da British Airways estava fechada, os motores tinham começado a rodar e eles já iam tirar a passarela, e nós tivemos que literalmente esmurrar a porta. Quando ela abriu tivemos que explicar o que havia acontecido, fazendo a linha 'tá frio aqui, a gente pode entrar?'. A aeromoça ficou com pena de mim, me jogou na primeira classe e me encheu de champagne a viagem toda de volta pra Inglaterra, e é por isso que eu sempre amei o staff da British Airways. Quando me perguntaram o que eu tinha feito no fim de semana eu pude falar que eu estive em Moscou... por 20 minutos.
Da outra vez que voltei lá eu fui como um aluno da Moscow University, documento que alguém conseguiu com algum passe de mágica. Eles têm um ditado para situações como essa... 'é impossível. Mas é possível.'
Qual o mais próximo que você já chegou de ir longe demais? Simon Morrison: "Pessoalmente eu me vi no limite real quando vivi em Los Angeles, na Venice Beach, em 1994. Acho que foi o terremoto que atingiu a cidade no início daquele ano que chacoalhou todos nós para fora de nós mesmos e nos jogou dentro do verão mais hedonista que eu já tive. Eu estava pesando 60kg quando meus amigos me enfiaram no avião de volta pra casa. Digamos que eu pese um pouquinho mais do que isso hoje em dia. Eu vi o limite naquele verão. Em LA o limite é bem perto.
Qual foi a situação mais embaraçosa em que você já se meteu? Embaraçosa? Eu acho que já fiquei bem calejado em relação a isso e adoro a estupidez e o nonsense. Uma vez escrevi: 'acham que sou um idiota... e estão certos'. Mamãe imprimiu essa página, emoldurou e agora está na parede da sala dela. Sou desses que adoram um after, espremendo o fim de semana até sair o suco mais errado que ele puder soltar... formulando jogos como o Danger Dictionary (não me pergunte), ou Quem Consegue Se Jogar Da Janela Melhor, ou Quão Cintilante Você Consegue Ficar Usando Apenas Produtos De Limpeza. Acho que quando o sol nasce e você se toca que está usando seis chapéus e quatro camisas havaianas, em uma sala cheia de pessoas que você não conhece... fica difícil até chamar isso de embaraçoso. O lance é levar tudo para o próximo estágio.
Há uma história no livro, de quando eu estava numa festa em uma villa chique em Ibiza e percebi que
Simon le Bon estava do outro lado da piscina. Cheguei perto e decidi que queria falar com ele... mas eu já havia perdido a habilidade de interagir com seres humanos de verdade. Eu queria falar para ele que eu também me chamava Simon mas acabei dizendo que ele tinha um nome legal, e se você parar pra pensar, é uma coisa estranha para um estranho chegar e falar. Rolou também um incidente com uma máscara de gás em Berlim. Meu fotógrafo Jimmy the Hat queria que eu usasse essa máscara dentro de um elevador de vidro no Hotel Radisson e olhasse para ele enquanto o elevador subia. Aí eu coloquei a máscara, as portas fecharam e o elevador... desceu. Quando a porta abriu havia uma mulher com uma jovem família que gritou um monte ao ver um homem suado se matando num canto desesperado para tirar uma máscara de gás de sua cabeça. Nunca vou esquecer a cara daquela mulher.
Seu livro fala sobre farras com todo tipo de celebridades: que conclusões sobre a fama você tirou disso tudo? Conheci ou entrevistei praticamente todos os maiores DJs e, de maneira geral, eu diria que a maioria dos top DJs são legais de verdade. Geralmente são os que estão lutando para chegar ao topo que tendem a achar que fazer carão os deixará mais importantes. Não quero citar nomes. E sobre os que eu não gosto... me paga uma cerveja quando a gente se encontrar de novo e eu solto tudo.
Além dos DJs, tem uma seção no livro dedicada às celebridades e a pessoas com quem trombei ou nas quais tropecei durante minhas aventuras pelo 'wrong side' - Kylie Minogue, Coolio, Simon le Bon. Fui pra balada em Ibiza com
Judith Chalmers uma vez, e deu tudo errado - embora ela seja bem esperta. O cara com quem eu realmente passei um tempo, de verdade, almocei e tal, foi
Howard Donald do Take That. Ele é adorável de verdade. Em um dos primeiros encontros que tive com minha (hoje) esposa, acabamos em um bar de Manchester onde o Take That estava fazendo a festa depois do show, numa volta do grupo. Todo mundo estava se esticando para vê-los quando eles entraram e se reuniram do outro lado do salão. Aí Howard me viu, atravessou o salão e disse 'hi Si!' Acho que foi neste exato momento que eu a fiz mudar de opinião sobre mim.
Alguma vez você já recebeu raiva/ameaças de pessoas que não concordaram com o que você escreveu? Nunca, jamais quis ser malicioso ou corrupto nos meus textos - esse nunca foi meu estilo. Eu realmente amo gente como (o genial jornalista britânico)
Charlie Brooker, mas eu não sou tão raivoso. Quando eu viajava pelo mundo escrevendo reviews de clubes, eu sempre tentava olhar pro lado positivo do que estava sendo divulgado, fosse em Marrakech ou Beijing. Nunca quis chutar o balde e piorar o que já era ruim porque qualquer coisa que você ache... alguém sempre se esforçou de alguma forma no meio do caminho. Bom, quase sempre.
E acho que isso sempre me deixou em bons lençóis com os DJs. Eu tenho acesso privilegiado à vida privada de DJs e já estive em algumas, situações, digamos, comprometedoras e hedonísticas em que um manager virou e disse 'peraí, ele não é um jornalista?' e o DJ em questão respondeu 'é, mas relaxa, ele é tranquilo'. E isso significa muito pra mim porque eu jamais traí nenhuma confiança - o que me dizem, morre comigo. E mais: a maioria das coisas das quais participei não são piores do que o que rola na pista de dança de qualquer maneira, então ninguém está muito aí no fim das contas.
Você fala no livro sobre quando foi parar em um bar de sadomasoquismo na Alemanha, o que aconteceu? Foi um jeito rápido de descrever um lugar onde eu me refugiei em Leipzig. Eu e o fotógrafo Jimmy the Hat tínhamos ido a uma gig em Dresden e íamos pegar o avião de volta pra casa num vôo que sairia de Leipzig pela manhã. Os promoters haviam reservado um hotel pra gente, e quando chegamos onde achávamos que era o lugar, estava tudo fechado. Era inverno e uma tempestade russa havia atingido a Alemanha. Fazia -15 graus, por volta de uma da manhã e não havia nada aberto. Minhas bochechas congelaram e minhas mãos congelaram tanto que deixei cair o papel com os detalhes do hotel. Lembro de dizer pro Jimmy 'se não acharmos esse hotel NÓS VAMOS MORRER, PORRA! AQUI, AGORA!' Não acho que eu estava exagerando.
Aí ele percebeu uma luz em um bar na mesma rua. Corremos e imploramos para entrar. Eu estava balbuciando usando meu inglês e o alemão que eu aprendi na escola quando Jimmy me deu uma cotovelada para mostrar fotos de pênis por todo lugar. Era uma caverna SM a la Pulp Fiction. Eles nos deram uns frascos de líquido marrom e eu achei que naquele momento eu tinha mandado pro espaço muitos dos meus princípios. Lembro de ter pensado: 'é aqui que tudo acaba. Sempre quis saber como tudo acaba e é assim... assim que tudo acaba: em um bar SM de de Leipzig'. A gente engoliu o líquido e esperou pela criatura acorrentada, vestida de borracha e munida de chicote surgir no porão. O povo do bar acabou salvando nossa pele e arrumou uma carona para nos levar a 20km de onde deveríamos estar (nenhuma surpresa, estávamos no lugar errado).
Com todas essas experiências, foi difícil evitar a insatisfação vivendo na monótona e úmida Stockport? Isso é uma armadilha, né? É agora que eu tenho que dizer que vivo hoje onde você cresceu, Mr. Skrufff? Que meus filhos vão para a mesmíssima escola primária que te educou? [NA: ele está dizendo a verdade]
Adoro minha vida em Stockport. Nunca pensei que me pegaria dizendo essas palavras, mas estou em um lugar legal agora. É engraçado, eu cresci em Londres e desde então já morei em Ibiza, Amsterdam, Sydney e LA mas sempre me vi voltando para Manchester, de volta pro norte. É onde me sinto em casa e já moro longe de Londres por um tempo maior do que vivi lá. A mágica que havia lá se perdeu, embora eu ainda ame visitar a cidade.
Vim para Manchester para estudar literatura no finzinho dos anos 80, os dias de
MADchester, e talvez foi isso que me ligou. Ainda não conhecia a cidade e já havia morado na Australia seis meses antes disso, e era um outro mundo completamente diferente - gente com cabelo bagunçado, calças jeans baggy e pouca moral. Lembro de perguntar para alguém o que eram "Stone Roses" porque tudo que era camiseta tinha essas palavras. E aí um amigo falou sobre o
Haçienda, então a gente correu pra lá em alguma fase enevoada do fim dos anos 80 e acho que nunca mais voltei pra casa...
Vivi no centro da cidade por 10 anos - Gay Village e depois Northern Quarter, mas devido às circustâncias eu tive que me mudar. Basicamente estou adquirindo crianças e galinhas em uma velocidade assustadora (quatro e três, respectivamente). Então nos mudamos para Stockport, que tem lugares maravilhosos, ótimos parques. Por que não gostar? Tenho um escritório onde consigo arrumar minhas guitarras, meus livros, meus
hip flasks e me esconder atrás de um adorável bafo de uísque e charutos."
Qual a maior lição que você já aprendeu? Coma quando tiver fome, beba quando tiver sede, coce quando tiver coceira. Fora isso eu cheguei à uma conclusão bem cedo, de que eu sempre diria 'sim' para o que me oferecessem, como qualquer um que tenha estado em algum after comigo vai confirmar. Ou seja, sempre quis ser o tipo de cara que sempre diz sim e está de copo meio cheio. Quando saí de casa aos 18 anos eu não sabia cozinhar um ovo, mas fui sozinho para a Austrália, comprei uma Kombi e morei durante meses dentro dela, viajando pela costa leste. Fiquei petrificado quando fui embora da Inglaterra mas isso foi parte da minha formação, e me seguiu por toda minha vida. Eu havia montado uma empresa de divulgação em Manchester quando a
Ministry of Sound me pediu para mudar para Ibiza para comandar a revista deles lá. Deveria ter ficado na Inglaterra, deveria ter ficado de olho no meu negócio, mas eu fui. Se bem que... um verão com tudo pago em Ibiza... nem precisa perguntar, né?"
Como conseguiu evitar que se tornasse um viciado em álcool ou drogas? Se eu fosse honesto de verdade eu me perguntaria se eu realmente evitei. Viver a vida que eu tenho vivido me deixou sem dúvida um pouco machucado por dentro e por fora, mas é tudo uma questão de perspectiva. Minha esposa acha que eu entorno demais; eu me acho um santo comparado ao homem que eu era. Muitos de nós temos uma fera dentro de si - alguns conseguem mantê-la escondida, outros a deixam bem na superfície.
Mas à medida que você cresce, você sai um pouco dessa mentalidade e outras coisas começam a adquirir importância, tornando-se o foco da sua vida. Casei com um amor de infância, temos quatro filhos e não sobra tempo pra outras coisas além de fraldas e histórias de ninar. Uma noite dessas eu fiz uma piada com a patroa - eu coloquei uma lanterna de cabeça para ir no fundo do jardim guardar as galinhas e falei pra ela que no passado eu usava essas coisas pra ir às raves. Minha vida mudou, sem dúvida, mas aí de novo... quem tá a fim de ser o loucão mais velho da cidade? Aquele visual
Peter Stringfellow só funciona pra ele. Sem contar que eu não tenho mais a testosterona para esse tipo de vida.
Simon Morrison: 'Discombobulated - Dispatches From The Wrong Side' saiu pela editora Headpress em 31 de março deste ano. tradução: Benjamin Ferreira