Acid House - o filme e as batidas policiais em Blackburn
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Acid House - o filme e as batidas policiais em Blackburn
'Da mesma forma que achávamos que era a luz e o caminho, as autoridades achavam que era o dia do Juízo Final'
19.03.10 11:10
High on Hope"Sem querer ofender é tão abominável quanto um comportamento heterodoxo. O assassinato mata apenas o indivíduo - e afinal de contas, o que é um indivíduo? Podemos fazer um novo da maneira mais fácil - quantos quisermos. O heterodoxo ameaça mais do que a vida de um mero indivíduo; ele atinge a própria Sociedade."

Ao falar sobre os absurdos da guerra contra as drogas, na qual pequenos traficantes são frequentemente punidos com mais crueldade do que assassinos, Jennifer Abel, do Guardian, citou o romance profético e infernal "Brave New World", de Aldous Huxley, para perguntar: "Será simplório ver as pessoas que usam drogas como desajustadas?".

O raver dos anos 90 que virou produtor de documentários Piers Sanderson não está tão certo, ao menos no que se refere ao impacto da revolução da acid house britânica do fim dos anos 80, incrivelmente documentada em seu novo filme >High On Hope.

"Não acho que a acid house realmente ameaçou a sociedade, embora seja difícil acreditar hoje em dia que caras que construíam as caixas de som das festas acabavam amargando 6 meses em cadeias vitorianas e que você poderia passar 10 anos se fosse pego com cinco pílulas," diz.

"Mas era tudo muito novo. Ninguém tinha visto nada parecido antes. 10.000 chapados dançando em galpões abandonados, ignorando os bloqueios policiais nas estradas, virando e incendiando carros de polícia; para a geração que estava no poder esse nível de desobediência civil deve ter sido um horror."

"Como diz Tommy no filme: 'Da mesma forma que achávamos que era a luz e o caminho, as autoridades achavam que era o dia do Juízo Final'," diz Piers.

O Tommy ao qual ele se refere era o porta-voz do coletivo livre de baladeiros que criaram uma série de festas infames de acid house na cidade de Blackburn (norte da Inglaterra) e arredores entre 1989 e 1991. O filme é o novo documentário de Piers, High On Hope, um retrato fascinante combinando entrevistas com as figuras-chave da era, filmagem envolvente e trilha sonora maravilhosamente selecionada com as músicas que definiram as festas. Divertido e nada monótono, o documentário captura perfeitamente o idealismo e a euforia da época, contando uma história que até hoje é deixada de fora da maioria das narrativas da vida britânica na virada anos 80-90.

Com a acid house roubando, sem nenhuma vergonha, a ética Do-It-Yourself do punk, faz todo sentido que Piers tenha começado High On Hope como um completo inexperiente, embora os dez anos que ele levou para chegar ao fim significam que sua própria jornada evoluiu consideravelmente.

"Quando comecei eu não fazia idéia de como se fazia um documentário. Simplesmente peguei uma câmera e saí para entrevistar alguns daqueles que organizaram as festas," sorri.

"Desde então eu frequento aulas de cinema e aprendi a fazer tudo do jeito certo. Um monte de gente tem colaborado desde o início e ajudou a acabá-lo em tempo para o vigésimo aniversário da última festa onde mais de 800 pessoas foram presas, a maior prisão em massa da Grã-Bretanha pós-guerra."

"Acho que a maneira que o filme foi feito parece um pouco com o jeito que as festas aconteceram há vinte anos. Vários indivíduos determinados trabalhando juntos para fazer algo que amam e em que acreditam," diz.



rraurl: Por que você quis fazer o filme em primeiro lugar, o que o inspirou?

Piers Sanderson: A cena de acid house foi provavelmente a maior influência da minha vida. Depois de viver de música de várias formas durante 15 anos vendi tudo e me mudei para Londres para me concentrar na produção de documentários. Embora a acid house tenha me moldado de maneira significativa, quando tentei descrevê-la além de um gênero de música, isso ficou inatingível. Eu queria fazer um filme que resumisse o espírito e o éthos da cena e também tentar documentar essa parte da história britânica, mostrando como ela havia moldado uma geração. Depois de pensar muito em como fazer isso decidi que a história das festas de galpão Blackburn, que se mantiveram firmes por 18 meses de 1989 a 91, eram o veículo perfeito para a história. Eu sabia que as vidas daqueles que foram àquelas festas tinham sido tocadas da mesma forma que a minha e que o que aconteceu lá refletia o que acontecia nacionalmente.

Como foi sua atividade naquelas festas de galpão?

Morei com o DJ Sasha na época e a gente ia junto às festas quando ele tocava nelas, provavelmente nos 8 últimos meses delas, nos arredores de Blackburn. Antes da grande prisão final havia uma famosa festa em Nelson, Lancashire, que foi invadida pela polícia preparada para uma guerra. Milhares de policiais armados dos pés à cabeça, com cachorros e escudos. Foi uma noite aterrorizante e marcou um novo estilo de policiamento tolerância-zero na cena do norte.

Logo após este incidente eu me mudei para as Ilhas Canárias e depois para Ibiza por alguns anos. Queria estar em um lugar onde fosse possível farrear até de manhã sem o risco de levar cassetetes na cabeça. Durante alguns meses, nada aconteceu em Blackburn depois que a polícia passou a bloquear - ilegalmente - todas as estradas que davam acesso à cidade de Nelson todas as noites de sábado, então os organizadores foram para Leeds. Depois de uma festa que deu certo, a polícia de Yorkshire fez o inimaginável e prendeu a festa inteira.

A versão da imprensa inglesa de dance music sobre a história da acid house foca sempre em Londres e Ibiza (Rampling, Oakenfold, Shoom etc.): em que nível a história do norte foi ignorada/ subestimada?

Acho que a maioria dos jornalistas geralmente escreve sobre o que está na porta de sua casa e por isso os jornais e revistas londrinos se concentraram no que acontecia dentro do M25 (estrada que circula a Grande Londres). É importante respeitar DJs como Rampling ou Oakenfold pelo que fizeram, mas acho que tem que haver um lugar na história para os pioneiros do norte que nunca se tornaram milionários. Muitos dos caras mais importantes de Blackburn foram parar atrás das grades pelo que eles acreditavam, enjaulados por uma força policial enfurecida que serviu-se da prisão como uma maneira de dar um fim às festas. Acho que a história deles é muito mais pesada e estou feliz por ter a chance de contá-la.

O trailer do documentário dá a impressão de que a revolução vai além de simples baladas de fim de semana. Você acha que esse aspecto revolucionário foi ignorado ou suprimido depois disso?

Na época a gente acreditava mesmo que era uma revolução. Nosso mundo havia mudado de forma incomensurável e o mundo lá fora parecia refletir essa mudança. Os anos 80 foram um período draconiano e opaco dominado por Thatcher e Reagan, guerra fria e apartheid. Aí apareceu a acid house, o muro de Berlim caiu, Mandela foi solto, nós pensamos que era tudo parte de um mundo novo, um mundo mais livre, um novo jeito de fazer as coisas, que refletia de alguma forma nossos sonhos psicodélicos. Acho que, por causa disso, alguns tiveram ainda mais dificuldade em aceitar a diminuição da importância da acid house. Éramos idealistas e acreditávamos que poderíamos fazer qualquer coisa. Essa atitude que eu tentei catalogar no filme. Para mim, a crença de que podemos moldar o nosso próprio destino, a ideia de que você pode abrir seu próprio caminho não importa o que as autoridades, a vida, seus pais jogavam em cima de você é o maior legado da acid house e provavelmente o que menos foi noticiado.

O quanto isso ainda atinge a sociedade hoje em dia?

Um legado tangível da cena acid é o afrouxamento das leis de permissão no Reino Unido. Quando as autoridades perceberam que não conseguiriam parar as festas, elas as levaram a um território que pudessem fiscalizar com mais facilidade. Uma das coisas contra as quais mais protestávamos na época era o fato de que as festas não poderia passar das 2 da manhã e, na verdade, depois das 11 nossa única opção era o clube de uma cervejaria onde, para entrar, tínhamos que ir de terno e gravata. Tudo isso mudou agora com as licenças 24 horas. Os primeiros a aproveitar foram super clubes como Ministry e Cream e a cena dos festivais é um resultado direto da acid house. É interessante pensar que tivemos que literalmente lutar por esse direito; que essas licenças só foram dadas porque tivemos a coragem de peitar o governo, a imprensa e a polícia. Não acho que houve um efeito negativo na sociedade.

Qual o seu próximo passo para fazer o filme dar certo?

Tentei conseguir financiamento da TV para o filme antes de fazê-lo, só que eu era um diretor desconhecido na época e não os culpo por não ter confiado em mim com centenas de milhares de libras. Agora que o filme está pronto eu quero mostrá-lo em alguns lugares importantes e conseguir bastante apoio para provar aos veículos que existe um enorme interesse nessa história que estamos compartilhando. No entanto, para isso eu preciso conseguir os direitos das músicas. Também acho que este filme funcionaria muito bem passando em um lugar com um ótimo sistema de som antes de ir para a TV. Acabo de me juntar a uma inovadora empresa de produção e temos umas idéias bem legais para a exibição do filme.

O que um patrocinador ganha ao se envolver?

A era digital trouxe enormes mudanças para a maneira que as pessoas assistem a filmes. Acho que, com a empresa certa, o patrocínio seria bom para todo mundo. Mas não pode ser um patrocínio comercial: o Renascimento só aconteceu porque benfeitores privados conseguiam ver a importância da arte. Deve existir alguém que tenha dinheiro para ajudar este filme a alcançar seu público, um indivíduo cuja vida foi irrevogavelmente alterada pela acid house e que queira ver um testamento honesto da importância dessa época chegar às pessoas, sendo reconhecido como uma história contada da maneira certa.

tradução: Benjamin Ferreira

Jonty Skrufff
Jonty Skrufff
comentários
7 comentários
S. Rossini
S. Rossini(28.03.10)
0AprovadoQueima
eu tbm quero!
gui xavier
gui xavier(22.03.10)
1AprovadoQueima
..eu quero esse doc. (2)
Guilherme Raicoski
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Sensacional! Sera que passa no iMAX? rs

Ao que parece, uma obra preciosa para a escassamente (ainda) documentada historia da musica eletrônica!

Aguardo ansoso!
vinicius salles
vinicius salles(20.03.10)
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aguardando lançamento.
Raul Aguilera
Raul Aguilera(20.03.10)
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Muito bom o foco do doc nas festas de Blackburn. Achei até que era o doc They Call It Acid, quando será que esse vai ser lançado?