Benjamin Ferreira: D.I.S.C.O.
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Benjamin Ferreira: D.I.S.C.O.
Completíssima enciclopédia musical direto de Belém do Pará
18.01.10 14:20
 
"A disco é parte da minha vida desde o início, é definitivamente minha primeira e mais importante escola e estava lá quando eu tocava um remake de 134 bpm de "Last Night A DJ Saved My Life", do Indeep, ou Robert Hood sampleando Kool & The Gang 5 ou 10 anos atrás. É como o ar que eu respiro - eu nem penso, só respiro."

O DJ de São Paulo Benjamin Ferreira começou a tocar aos 11 anos, inspirado pelos discos de dois tios que eram DJs em sua cidade natal Belém, na Amazônia. Iniciando sua carreira profissional seis anos depois em um clube gay de Belém ele descobriu a internet simultaneamente, abrindo seus ouvidos para o mundo fora da Amazônia.

"Eu me tornei independente das rádios, DJs e lojas de discos locais e pude conhecer gente nova e ouvir diferentes tipos de música", ele relembra. "Comecei tocando techno e big beat - de nomes do underground como Dave Clarke, UR e selos como Code Red e Cosmic a gente do mainstream como Underworld, Prodigy, Chemical Brothers, mas a house estava lá também, especialmente o French touch - Cassius, Daft Punk, Crydamoure Records, e mestres de Chicago como DJ Sneak e Derrick Carter", sorri.

Tocando em sua primeira rave em 1999 (de cabelo verde) ele rapidamente se uniu ao Pragatecno, um coletivo brasileiro dedicado à popularização da dance music underground além do Rio e de São Paulo, formando o núcleo norte do coletivo, o Cotonete. "Começamos um programa de rádio e convidamos DJs brasileiros e internacionais para mandar sets e promos, e um ano depois começamos a convidar DJs para tocar em nossas festas", diz Benjamin.

"Convencemos DJs como Marky e Renato Cohen a tocar em Belém pela primeira vez, tanto em clubes quanto raves, a impressa local e até mesmo a televisão começaram a se interessar pelo que fazíamos, e a cena cresceu. No entanto, no meio da década a cena mudou", diz. "O psy-trance começou a crescer bastante e começamos a perder dinheiro em nossas festas, então voltamos a festas menores. Aí eu decidi mudar para São Paulo em 2006, duas semanas depois de me formar em Letras."

Há quatro anos em São Paulo, Benjamin já tocou em grande parte dos maiores clubes da cidade (incluindo Pacha, D-Edge e o novíssimo superclube do momento Hot Hot) assim como instituições do underground como A Loca e Vegas (onde é convidado regular na Discology, de Camilo Rocha).

A mesma porcentagem de pessoas que gosta de música underground em Belém também gosta em São Paulo, mas como São Paulo é bem maior, as coisas acontecem mais facilmente aqui", sugere. "Por isso você tem mais clubes, DJs, promoters, gente e dinheiro. O público e sua reação, no entanto, são bem parecidos - as pessoas geralmente são muito amáveis, dançam bastante, pedem nome de música."

Tão apaixonado por música quanto hábil em sua discotecagem, ele usa Ableton, CDs e vinil para mixar disco e house com todos os estilos e sabores (do techno ao afro e da música latina ao rock).

"Sempre ouvi tipos diferentes de música, então o que tento fazer é misturar o maior número possível de referências de uma forma coerente e de acordo com o público que eu tenho na pista", diz. "O lance é equilibrar a música que eu amo e o que eu acho que vai agradar meu público. Eu geralmente digo que posso não tocar tudo que amo, mas amo tudo que toco", sorri.

rraurl: Quando e como você começou a se envolver com discotecagem?

Benjamin Ferreira: Dois tios meus eram DJs no fim dos anos 70 e durante a década de 80, e um deles me deu minhas primeiras dicas de mixagem e grande parte do meu background musical do início, que era basicamente disco, funk e house. Eu lembro como ficava fascinado com todos aqueles discos pela casa quando eu tinha apenas três anos. Quando moleque eu não costumava pedir brinquedos, só discos e equipamentos de som. Comecei como DJ amador quando ganhei meu primeiro par de toca-discos em 1990, aos 11 anos. Depois disso, eu comecei a encher o saco de parentes e amigos para tocar em tudo que era festa, e em 1996 tive minha primeira gig em um clube gay da minha cidade natal, Belém. A cena era bastante comercial, já que a Internet ainda estava tomando forma naquela época, então dependíamos das rádios, DJs e lojas de discos locais para conhecer música nova.

Belém é uma das maiores cidades da Amazônia, você cresceu em um ambiente de selva?

Eu sempre fui um garoto urbano, na verdade; a música e meus discos eram o que realmente importava, embora meu pai adore pescaria e algumas vezes ele acordava meu irmão e eu às cinco da manhã para pescar em uma canoa. Os lugares onde pescávamos não eram florestas virgens mas havia (e há) natureza suficiente para que possamos chamar aquelas áreas de selva. Os rios cortam florestas de árvores enormes cheias de animais incluindo lindos pássaros e cobras assustadoras, e tudo isso era muito mais fascinante do que a pescaria em si.

Quando você começou a levar a discotecagem a sério?

Depois de minha primeira gig em um club gay eu ainda passei uns três anos praticamente sem tocar, mas no mesmo ano comecei a acessar a Internet, e isso mudou minha vida completamente. Me tornei independente de DJs, rádios e lojas de discos locais e pude conhecer novas pessoas e ouvir diferentes tipos de música. Em 1999 toquei na minha primeira rave e conheci uma galera querida do nordeste que tem um coletivo com membros em diferentes estados chamado Pragatecno. O objetivo do coletivo é promover a música eletrônica underground fora de cidades como São Paulo e Rio. Em 2000, uma amiga (Michelli Byanka) e eu decidimos abrir o lado norte do grupo, chamado Cotonete, por causa das hastes flexíveis de limpar os ouvidos. Escolhemos esse nome meio agressivo porque estávamos cansados do som comercial que ouvíamos nos clubes.

A imprensa em Belém começou a apoiar imensamente, como isso aconteceu?

Começamos um programa de rádio em 2001, e por causa dele, conexões com vários grandes DJs brasileiros (e até internacionais) que mandavam sets e promos para o programa. Um ano depois, começamos a convidar DJs de São Paulo para tocar com a gente, e levamos nomes como Marky e Renato Cohen para tocar em Belém pela primeira vez, tanto em clubes quanto em raves. Como sempre tivemos uma boa relação com a imprensa local e os jornalistas ficaram interessados no que fazíamos, estávamos com uma boa frequência nos jornais, às vezes até mesmo na TV. Mas aí o psy-trance começou a crescer bastante no meio da década e começamos a perder dinheiro com as festas, então voltamos a fazer festas menores, e em 2006 eu mudei para São Paulo de vez, após meu amigo Camilo Rocha me convidar para dividir a casa com ele.

Qual sua abordagem tocando? O que você tenta alcançar nos seus sets?

Tento contar uma história com diferentes capítulos e cheios de groove, criando uma colcha de retalhos de diferentes estilos que se encaixem juntos em um feliz e colorido cobertor. Eu também sempre tento surpreender meu público. Na pista, considero muito importante tocar faixas ou elementos que as pessoas não estejam esperando, e quando estou na cabine tento fazer isso.

O que é particularmente interessante para você na disco?

A disco foi não só a trilha sonora e a inspiração para a liberação gay, ela também começou a cultura DJ que temos hoje. Ela pode ser doce ou pesada, lenta ou rápida, sagrada ou safada, viajante ou pé-no-chão, sofisticada ou cafona, ter vocal ou não, e ainda vai ser disco. Eu amo isso.

O Brasil tem uma reputação de país muito perigoso. Qual foi a situação mais perigosa que você já encarou tocando?

Uma situação que eu nunca vou esquecer aconteceu quando eu abria o show de uma famosa banda brasileira de rock. O lugar era enorme e aberto mas eu e meu amigo não estávamos tocando no palco principal, estávamos sob uma pequena tenda na arena. Belém é muito úmida, e naquela tarde de domingo houve um enorme temporal, então centenas de pessoas tentaram se abrigar embaixo da tenda. Chegou um momento em que havia tanta gente dentro, batendo nos toca-discos e fazendo as agulhas pularem, que decidimos parar de tocar. Alguns moleques loucos começaram a balançar o cano que dava suporte à tenda e a tenda quase caiu sobre nós. Para piorar, o lugar começou a encher de água e nossos pés ficaram dentro d'água. Enquanto nos espremíamos embaixo da tenda, minha mão estava em cima do case de metal do toca-discos quando caiu um raio e eu sofri um choque. Graças a Deus não foi suficiente para me mandar para o hospital, mas me lembrou do que aconteceu com meu avô na década de 40: ele tocava instrumentos de sopro em uma pequena cidade do interior do Pará onde ele, minha mãe e a família viviam. Uma vez, ele estava tocando uma flauta de metal com a orquestra da cidade no quintal do casa do prefeito quando um raio caiu. Vários músicos caíram desmaiados mas infelizmente meu avô morreu. Minha mãe tinha apenas 8 meses de idade. Queria ter tido a chance de conhecê-lo, mas acho que ele está sempre comigo de alguma forma. Acho que ele amava música da mesma forma que eu, e ele morreu fazendo o que mais amava, morreu pela música. Eu morreria pela música, mas ainda quero viver o suficiente para fazer muita gente feliz e espalhar um amor que vem de muito tempo atrás, um amor que eu tenho certeza que está no meu sangue.

Benjamin é convidado da festa Dig It?, próximo dia 19 no Vegas ao lado de Thiago Sabota, Database e o Roots Rock Revolution. Ouça seu último set "Dizzy Me Disco" aqui.


Jonty Skrufff
Jonty Skrufff
comentários
24 comentários
Huanita
Huanita(29.01.10)
1AprovadoQueima
Pessoa querida e um dos meus djs favoritos: sou fã mais que declarada!
Fico feliz demais com o reconhecimento...
Parabéeeens, Benja!
Robinho
Robinho(20.01.10)
1AprovadoQueima
falar o que depois dessa entrevista?
fã de carteirinha [2]
todo dia aprendo um bucado com ele...
parabens!!!
Gaía Passarelli
mais legal que publicar uma boa entrevista com um bom entrevista é ler tantas mensagens de admiração que nem essas aí abaxo. valeu Ben e leitores. []s!
roseven
roseven(20.01.10)
3AprovadoQueima
Fofíssimo!
Raul Aguilera
Raul Aguilera(20.01.10)
3AprovadoQueima
Respect.