Jay Haze: DJs pelo Congo
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Jay Haze: DJs pelo Congo
DJ/produtor doou 50% de seus cachês dos últimos quatro meses
07.12.09 15:15
 
"Eu acho abominável a situação atual do capitalismo. Ele não permite consciência. Eu acredito que a raça humana pode um dia alcançar o estágio de viver em um mundo onde o lucro não seja a lei". Ainda que seja mais conhecido por suas brilhantes produções de tech-house underground sob a alcunha Fuckpony, Jay Haze foi descrito recentemente pelo Sunday Times como "um dos DJs, celebridades e bandas que estão tornando sexy o fund-raising". A entrevista a seguir faz parte do seu calendário de divulgação do recém-lançado (e excelente) Let the Love Flow, pela BPitch Control, que você vai ouvir ainda essa semana aqui no rraurl. O foco, no entanto, não é sua música, mas seu envolvimento com um movimento de ajuda humanitária para o Congo.

Norte-americano baseado em Berlim, Haze chamou a atenção por seu envolvimento direto no DJs for DRC (DJs pela República Democrática do Congo), uma fundação que ele ajudou a lançar em julho último quando doou valores de seu Fabric mix mais recente para a campanha. Seu dinheiro foi especificamente para a Merlin, uma caridade que ajuda a prover cuidados de saúde e aconselhamento a vítimas de violência e abuso sexual no país. Além da doação relacionada ao disco, o DJ/produtor aceitou doar 50% de todos os seus cachês de DJ para a associação entre setembro e dezembro de 2009. A DJs for DRC procura persuadir DJs a doar metade de seu cachê de uma gig escolhida, e Haze até agora convenceu gente como Tiga, DJ Sneak e Loco Dice a colaborar.

Mesmo que milhões de pessoas tenham morrido em decorrência da guerra que vem ocorrendo no Congo nos últimos 15 anos, o conflito segue longe de uma solução e é ignorado por boa parte da mídia global em comparação com outras guerras nos Balcãs e na Somália, uma anomalia com a qual ele está bastante familiarizado: "a razão pela qual nós não vemos o Congo na mídia como os outros conflitos é bastante simples: o país é grande fonte de recursos, e esses recursos estão em uso por todos nós no mundo ocidental", diz.

"Nós precisamos desses minerais para sobreviver no modo como vivemos hoje; é claro que as corporações sabem disso e precisam manter seu dinheiro entrando nos cofres. Essas grandes corporações globais sabem que estão fazendo negócio com pessoas ruins, muito ruins, mas fazem isso para sustentar a si mesmas. As mesmas companhias que são muito influentes globalmente em um sem-número de plataformas. É óbvio que não faz sentido jogar luz sobre as atrocidades cometidas no Congo, algo que faria as pessoas levantarem questões".

"A limpeza étnica nos Balcãs ganhou mais destaque porque havia menos chance de lucrar naquelas regiões", ele sugere, "Praticamente não existem recursos naturais a serem explorados na região. E a mídia se empolgou com o assunto rapidamente".

Então o quanto ele culpa atual cultura de "o vencedor leva tudo" exemplificada por banqueiros bem alimentados? "O capitalismo é a raiz de todo o mal no nosso mundo, o desejo de ter mais do que você precisa para ser feliz, a habilidade de desconectar os seus desejos do sofrimento que ele causa a outros e a paz nunca pensar nessas coisas, tudo isso está impresso no lucro financeiro. E esse lucro mudou nosso mundo, criou uma sociedade que só enxerga números. Então para responder à sua questão com simplicidade: o quanto eu culpo os banqueiros? Eu culpo o sistema como um todo".

Civis esperando para cruzar a fronteira do Congo com Ruanda, em 2001
Congo-Ruanda
rr: Porque você escolheu essa causa em particular?

Jay Haze: Eu escolhi essa causa porque a situação no Congo precisa de atenção desesperadamente. São tantos e tão graves os problemas afetando o país, e nós raramente ouvimos algo sobre eles: escravidão e prostituição infantil, abuso sexual sistemático, crianças soldadas, fome, doenças, tudo isso são exemplos dessa situação imensa fora dos problemas políticos que o país não consegue ultrapassar. Com tanto controle da mídia do mundo, é hora de nós sairmos das nossas caixas e investigar a situação que aflige nosso mundo. Isso é importante.

O Congo enfrentou um genocídio inacreditavelmente brutal nos últimos 15 anos. Por qual motivo você acredita que ele foi tão pouco divulgado em relação à crises étnicas nos Balcãs e na Somália?

Bom, a verdade é que o Congo tem muito mais problemas do que as mortes relacionadas às guerras étnicas. Na última década houve uma estimativa de 5 milhões de mortes, sendo pelo menos metade disso crianças com até cinco anos. É um país grande e a situação é tão complexa e profunda que eu estaria simplificando ao dizer que são mortes relacionadas à conflitos étnicos. É mais um problema geográfico, na verdade. Poderia até ir mais longe e dizer que é um conflito econômico. As áreas que sofrem mais estão relacionadas à coisas que valem a pena lutar, como ouro e diamantes. As pessoas que vivem nessas áreas tem que fazer escolhas e, honestamente, são escolhas duras: trabalhar com os grupos rebeldes que dominam as regiões ou deixar suas vidas para trás.

Na situação na Somália, você pode ver que o atraso da mídia em relatar os acontecimentos tem tudo a ver com esse mesmo cenário - quando a mídia começou a contar, centenas de milhares já haviam morrido. A China tem enorme interesse na Somália por causa da grande possibilidade de petróleo na região norte do país. Dizem que pode haver mais de 10 bilhões de barris por lá. Eles queriam deixar os estrangeiros exatamente assim: fora do país. Se muitos estrangeiros estivessem entrando, poderiam ver a natureza da situação e então tentar implementar planos para garantir o melhor interesse das pessoas e claro que isso seria contrário aos negócios das companhias que já estavam acontecendo antes da mídia começar a falar sobre isso. É assim que as guerras acontecem.

Considerando que os assassinatos étnicos continuam a acontecer no Congo, não faria mais sentido que os líderes no ocidente tentassem agir, ao invés de tratar as vítimas de guerra?

Os líderes no Ocidente são marionetes, nenhum líder no mundo ocidental realmente se importa com o que está acontecendo em seu próprio país, quanto mais no Congo. E, acredite, existem pessoas boas no mundo fazendo lobby pela situação no Congo junto a esses líderes há mais de 20 anos. E não funciona. Então eu acho que devemos colocar nossa energia no que funciona.

O Congo continua sendo um lugar extremamente perigoso. Você se preocupa com estar se colocando em perigo ao planejar uma visita ao país no próximo ano?

Um pouco, eu acho, mas existem pessoas vivendo essa situação todos os dias. Eu sou apenas humano, como eles, então eu acho que posso sobreviver. Eu estou ansioso por visitar o país e nesse momento tenho escutado coisas boas sobre a viagem ao Congo, espero que isso não mude até lá.

Você abriu mão de 50% dos seus cachês esse semestre: você acha que DJs internacionais estão recebendo bem demais?

Não acho isso. Acho que os DJs estão recebendo normalmente para o que fazem, dependendo da situação. Se as pessoas lotam um club para ver um DJ, então acho justo que ele/ela ganhe por isso. Penso que DJs que fazem um grande sucesso internacionalmente ganham muito bem e poderiam facilmente doar uma pequena pare disso para uma causa em que acreditem. E a maioria dos DJs com quem falei topou isso rapidamente. Acho que todos querem ajudar e é esse o ponto do djs4drc. Ainda que eu esteja doando 50% de todos os meus cachês por quatro meses esse ano, eu ainda tenho o suficiente para pagar minhas contas de moradia e comida, e isso me deixa feliz.

Jonty Skrufff
Jonty Skrufff
comentários
5 comentários
Tiago Rangel
Tiago Rangel(08.12.09)
1AprovadoQueima
Grande Jay, nem parece norte-americano, deve ser o ar de Berlim...

ps - me sinto muito bem por fazer exatamente o q a Passareli escreveu ;]

O lucro monetario e o primeiro e mais nocivo cancer do planeta.

Gaía Passarelli
@ Markan é só começar a fazer :-) e nem precisa ir tão longe, se você não tem cachês a doar - se informar e ajudar a passar informações já é um começo.
L_cio
L_cio(08.12.09)
2AprovadoQueima
"Ainda que eu esteja doando 50% de todos os meus cachês por quatro meses esse ano, eu ainda tenho o suficiente para pagar minhas contas de moradia e comida, e isso me deixa feliz."

ducaraioooooooooo

puta exemplo!

melhor do que dar 10% pra "Deus"

muito, muito bom!!!!!!!!!!!
cami serelepe
cami serelepe(07.12.09)
2AprovadoQueima
seria otimo ter mais "Jay Hazes, Tigas, Loco Dices e Sneaks" no mundo
 Markan
Markan (07.12.09)
3AprovadoQueima
Nossa! Que bacana!

ps - as vezes me sinto um merda por não fazer nada.