Jovem DJ de house e techno faz disco classudo de hip hop experimental; ouça e conheça
19.11.09 11:40
Viver de música é uma escolha difícil, que precisa de rumos bem traçados. E pela verve efêmera da música eletrônica, cada vez mais é necessário abrir a mente para diferentes caminhos e possibilidades. Um exemplo desse trabalhoso vislumbre (em sua fase que já rende frutos) é o trabalho do jovem DJ e produtor paulistano Thiago Salvioni, conhecido na noite de São Paulo há já uns bons oito anos com seus sets que variam entre o techno e a house music numa pegada malandra, influenciada em muito pela black music no geral (rap, hip hop, funk e afins).
Arriscando na produção, a evolução natural e desafiadora dos DJs, Salvioni "lançou" recentemente as noves faixas de seu projeto Soul One, que partem do pressuposto do hip hop experimental. As aspas em "lançou" se dão pela contexto em que o disco surgiu: o Soul One não tem selo, nem arte de capa, e é fruto do treino e exercício de seu criador em produzir música. E é um ótimo disco. "Saí, sempre saí muito, sempre gostei de música eletrônica. Mas uma hora eu cansei e fui muito para balada de rap, de ragga, de afrobeat", conta Salvioni em seu pequeno e arrumado home studio em Moema, lembrando que ainda é essencialmente da cena eletrônica, fato que ainda é sua base conceitual para criar música.
O disco, homônimo, está em vias de ser lançado por um selo indie paulistano, e até lá ele já pratica um par de live PAs em festas e eventos.O brokenbeat molenga e safado das três primeiras faixas, "Tecla", "Pieces" e "Samisen", apresentam ao ouvinte os fundamentos sonoros do Soul One, mas seguem em 40 minutos afora de música autoral e diversa, em melodias e beats atuais e bem polidos, que vão de reminiscências de Flying Lotus a sensações vintage de disco music, funk e até timbres a la Depeche Mode, caso de "Revenge", a melhor do disco.
Salvioni passou por um período sabático em que largou um trampo familiar numa confecção e uma carreira de produção de cinema para focar na música. "Mesmo estudando cinema eu trabalhava em captação de som, fazia trilha, trabalhava com foley. Nessa área a equipe é sempre muito grande, e você não dá seu pitaco. Sentia falta de me expressar artisticamente". Para tal, foi estudar tecnologia em produção fonográfica na Anhembi Morumbi, onde mergulhou fundo nos ensinamentos de teoria musical e teve aulas voltadas à música eletrônica com professores como Bruno E.
"Estudar música é essencial para aprender a harmonizar. Eu não sei tocar como instrumentista, mas aprendi o que é a escala e o básico da criação de música, isso foi importante". O resultado no disco do Soul One é o simples fato de que são faixas que não soam como softwares: pre-sets, loops e aquela saraivada de samples mal assimilados que criam músicas ruins. "98% Soul 1 fui eu que fiz: chimbau por chimbau, caixa por caixa.. Acho que tem uns 2% de loop e de hihat que eu peguei, mas é normal".
Na correria, trabalhando muito e com a ajuda de seus queridos, Salvioni montou seu set-up, que na listagem percebe-se que é uma aventura que custa no mínimo uns bons R$ 10 mil. As nove faixas do Soul One nasceram de controllers midi de pad, knob e notas, além de interfaces, um Apple e softwares. "Puta gasto", define ele. "Tanto é que não compro mais muito disco para tocar. Agora uso o Serato com meu acervo digital e é isso. É quase a mesma coisa que tocar com vinil", completa, admitindo que o foco no house e no techno abriu espaço pelas condições à experimentações com o brokenbeat, edits de funk e outros quebradeiras - "freestyle", como ele define. Esta condição cíclica entre estrutura e gosto pessoal refletiu também nas influências do projeto: de Fela Kuti a Dr. Dre e MF Doom, a dance music de Salvioni ganhou em riqueza sonora.
Com o disco em mãos, o produtor quer mais é que as pessoas o ouçam. "Hoje em dia é muita informação, muita música e muita gente criando. Eu quero que o máximo de gente ouça meu disco, para daí conhecer mais músicos, fazer parcerias e criar mais, além de conseguir gigs", lista, "primeiro tem que mostrar algum bom trabalho, por que senão ninguém te leva a sério, vão dizer 'quem é esse moleque?'". Tal vontade de criar músicam levou Salvioni a criar um projeto com identidade e qualidade, e também é uma característica que reflete no cotidiano de quem gosta de música: tocar em festas, conseguir novidades para o set up, remixar "Superfreak" de brincadeira e ver DJs amigos tocar a faixa...
"Soul One" está disponível para download aqui no rraurl também (veja abaixo). No Soundcloud abaixo dá para ouvir Salvioni destilar mais influências num ótimo set de nu-jazz e broken beat, e em breve ele encampará um novo projeto. "Estou fazendo o Voodoo Drops com o Pil Marques. Vamos desde trilhas para vídeos até produção de músicas. É techno e house com uma influência urbana, porque eu e o Pil sempre gostamos de skate. Mais para frente pensamos em lançar um disco freestyle", explica, com a expressão que mais define seu som e sua trajetória discreta e promissora nos últimos anos: freestyle.
É legal lembrar de outra boa dica do Jade, o EP de nu-funk "Rulio" do André Juliani.Um pouco mais, aqui: www.feliciomarmitex.com/2009/06/24/download-gratuito-rulio-ep-andre-juliani/
meus parabens, sucesso!