Com um documentário recente
Smirnoff Wall of Sound o chamando de "poderoso chefão da cena club de Berlim" e um passado que inclui descobrir (e transformar em estrela) o mega-DJ
Paul van Dyk, está claro que
Mark Reeder sabe uma coisa ou outra sobre noite e música. E está vem credenciado para falar sobre Manchester também, já que cresceu por perto de gente como os membros do New Order e
Mick Hucknall no fim dos anos 70.
Reeder mudou para Berlim em 1978 e se tornou o "homem na Alemanha" oficial da
Factory Records, cavando sua própria carreira musical em bandas como Die Unbekannten e
Shark Vegas e se graduando em acid house na
Alien Nation no fim da década de 80.
Único inglês a ser convidado a gravar um álbum na Alemanha Oriental comunista, ele acabou tendo um 'gap' não-intencional de quase 20 anos como produtor, explica: "Em meados de 1989 eu fui convidado para produzir o disco
Torture do Die Vision no lado oriental de Berlim, que eu finalizei pouco antes da queda do muro. Depois dessa experiência eu tive a oportunidade de começar meu próprio selo, o
MFS, e então coloquei toda minha energia, amor e criatividade nas carreiras de gente como Paul van Dyk, Cosmic Baby, Mijk van Dijk, Corvin Dalek e outros ao longo desses anos. Minha própria carreira simplesmente ficou em segundo lugar. Naturalmente em apliquei minha experiência e idéias nos trabalhos deles também e não apenas musicalmente, mas em termos de design e imagem".
"Então em 2008 o (diretor berlinense)
Joerg Buttgereit me perguntou se eu poderia compor a música e efeitos especiais para sua peça,
Captain Berlin vs Hitler. Eu me juntei com o (co-produtor e engrenheiro de som)
Micha Adam e aí veio o remix do 'Miracle Cure' e agora estou fazendo música ativamente de novo". O 'Miracle Cure' a que ele se refere é a versão que fez ano passado do single de
Blank & Jones, com vocais de um antigo amigo de Mark de Manchester,
Bernard Sumner, que acabou sendo um catalisador na criação de seu novo álbum,
Reordered.
Ainda que o disco seja quase todo formado por faixas de Blank & Jones (com vocais de Sumner,
Anne Clark e
Robert Smith) o álbum tem a cara de Mark. "Eu me encontrei com Piet e Jaspa (Blank & Jones) alguns anos atrás em uma cerimônia de premiação, e eles disseram que seria um sonho trabalhar com Bernard Sumner um dia. Alguns anos depois eles me enviaram uma faixa e perguntaram se eu poderia passar para Bernard. Ele gostou muito do que ouviu, e acabou se tornando 'Miracle Cure', explica Mark.
"Então eles perguntaram se eu faria um remix e queriam deliberadamente num estilo 80s, longe de qualquer coisa progressive ou trance. Logo após esse projeto eu remixei novas faixas da Anne Clark e do Pet Shop Boys e então fiz outro remix anos 80 para o Blank & Jones, da faixa "Consequences" do álbum
Logic of Pleasure. Ainda fiz um terceiro remix para eles, da faixa "Loneliness" e nesse ponto decidimos pegar cada faixa com vocais de
Logic of Pleasure, reescrever a música e mudar o estilo de produção, para que soassem mais oitentistas. Nós basicamente começamos a refazer o disco".
A capa de Reordered

rraurl: O press release descreve Reordered como 'downtempo, introvertido, dark, não direcionado para as pistas'. Soa até um pouco negativo. Porque pegar essa rota?Sim, talvez seja dark, mas não eu não diria negativo apenas porque todas as faixas são canções melancólicas de amor. A idéia era colocar o Blank & Jones em um território diferente. A música deles é normalmente conhecida como um trance uplifiting, ou um chillout relaxante. Eu queria rescrever as canções para uma audiência totalmente diferente. Eu queria que as faixas soassem bem aos ouvidos de quem gosta de sons mais darks, ou sente falta da eletrônica dos anos 80. Muitos sintetizadores, guitarras. Quanto a não servir para as pistas de dança, acho que depende de que tipo de pista de dança você está falando. Com certeza não é para o
Berghain ou para o Watergate, mas em um tipo de club mais, digamos, aventureiro, um DJ poderia experimentar algumas faixas. Mas acho que é mais um disco para ouvir no seu iPod, ou no carro.
Eu sei que você e Micha Adam andaram trabalhando no disco durante um ano: que input Micha trouxe para a mixagem, especificamente?Eu conhecia Micha há anos antes de trabalhar com ele nesse disco. Nós costumávamos tocar no House of Usher, um dos primeiros projetos techno de Berlim. Nós nos aproximamos ao trabalhar na trilha sonora da peça de teatro de Joerg Buttgereit, Captain Berlin vs. Hitler, e então eu o chamei para trabalhar comigo no Miracle Cure. Nós percebemos que tínhamos gostos e idéias similares e ele entendeu o que eu queria. Nós somos complementares em estúdio: ele é mais ligado no lado técnico de engenharia e programação e eu sei que posso deixa-lo maluco com meus pedidos pedantes de produção. Como já me disseram em mais de uma ocasião, eu posso ser um verdadeiro tirano no estúdio... (risos).
O quanto vocês propositadamente tentaram uma sonoridade oitentista?Foi uma decisão muito consciente da nossa parte. O Blank & Jones tinha até criado um novo inprint para o disco: "so80s". Eu queria apresentar essas canções em um estilo que remetesse aos anos 80 e criasse uma memória musical do que eu me lembro desse tipo de música e para que outros soubessem como era na época. Foi um desafio interessante e eu achei muito revigorante não quer que fazer outra faixa standard de techno - que eu acho que outras pessoas até fazem melhor do que eu, de qualquer forma. Quando eu estava fazendo música, nos anos 80, havia muitas limitações. Nós não apenas usávamos menos instrumentos, havia muitas limitações técnicas também, como gravar em 24 canais ou menos. Hoje as possibilidades são imensas. Às vezes você é obrigado a escolher. Se eu decidi que ia fazer as faixas soarem 80s, então eu teria que faze-las como fazíamos nos anos 80. Com uma menor seleção de instrumentos, mas usando as possibilidades tecnológicas e ferramentas de hoje.
Algum plano de tocar ao vivo?Não, nenhum. Não daria certo. Além disso, seria muito difícil conseguir os vocalistas juntos em uma gig e só de imaginar os ensaios eu fico cansado. Um show com tantos vocalistas poderia parecer um cover do vídeo de "Do they know it's Christmas?", menos Midge Ure, Bono e Bob Geldof. Então, não, não temos nenhum plano de apresentar o disco ao vivo.
O álbum se chama Reordered, Bernard Summer está nele. Qual é a conexão com o New Order?A idéia do nome surgiu durante uma sessão de brainstorm com o (lendário repórter inglês em Berlim) Dave Rimmer, que escreveu o texto do CD. Eu queria que tivesse um "re" no título, por causa do meu sobrenome, mas não é um álbum de remixes então queria fugir se 'remixed' ou 'reworked'. O título é uma piada interna, por causa da minha ligação com a Factory Records e com o New Order e com a sonoridade familiar do disco. É tudo intencional. Eu conheço Bernard há 30 anos e eu sei que fui uma influência em sua carreira porque ele me disse. Eu acabei de remixar o single de estreia da sua nova banda, a Bad Lieutenant, chamado "Sink or Swin".
Você já pensou voltar a morar no Reino Unido?Não, eu não quero voltar. Porque iria querer? Eu moro no paraíso!
Você foi descrito no [documentário] Smirnoff Wall of Sound como "o chefão da cena club de Berlim". Consegue comparar o cenário atual com o de 10 ou 20 anos atrás?Eu acho que o cenário musical de Berlim hoje é muito mais diversificado do que há dez anos. Na época era tudo house, techno e trance. Hoje você pode ouvir todos os tipos de boa música. Isso tem a ver com a forma como as pessoas consomem música hoje. Os revolucionários do iPod que ouvem uma quantidade enorme de música de todos os gêneros mudaram isso. Eu acho muito bom. Nós tivemos um festival recente em Berlim que foi o insight perfeito dessa diversidade toda. DJ Valis e Peaches tocando com bandas brilhantes como Health e Moderat ao lado de Jarvis Cocker. É excelente.
Há 20 anos o Muro de Berlim caiu. Eu li que muitos moradores de Berlim oriental vêem os tempos pré-muro com carinho. Deve haver centenas de ex-comunistas por aí...Tenho certeza de que existem ex-comunistas e da mesma forma existem novos-comunistas flutuando por aí. Eu não poderia me importar menos. O passado aconteceu e as pessoas entraram para o partido comunista na esperança de ter uma vida melhor dentro desse sistema. Muitos fizeram coisas pouco sadias para alcançar essa visão de luxo. Sim, era interessante viver dentro do muro. Berlim Ocidental era luxuosa, Berlim Oriental era excitante. Eu me sinto privilegiado de ter experimentado os dois lados.
E o que você acha dos anarquistas botando fogo em Mercedes?Esses auto-intitulados anarquistas colocando fogo em carros são bastardos infelizes, estão apenas imitando o que ocorreu na França há alguns anos. É patético, porque não força nenhuma mudança positiva, eles estão apenas seguindo algo que parece estar na moda. Eu não estou impressionado. Mas se eles insistem, gostaria de ver tentarem algo mais criativo na sua anarquia.
Você se veste em um estilo bastante militar, meio anos 30. Como você responde quem diz que você se veste como um nazista?Eu não respondo. Eu ignoro. Essas pessoas são estreitas e esse tipo de comentário me soa facista. Eu não posso usar o que quero ou o que criei eu mesmo? Que querem que eu vista? H&M Jeans e camiseta? Esse não sou eu! Eu normalmente visto um macacão azul de eletricista! E só porque eu de vez em quando uso peças militares não significa que sou um nazista. Ok, é provocativo, mas também é muito prático: eu gosto do que é confortável e prático. Se alguém acha que me visto como nazista e sou um, é problema deles. Além disso, como nazistas se vestem? Eles usam Hugo Boss? Foi ele quem desenhou o uniforme da SS...