Dos subúrbios paulistanos para premiações da MTV, rapper paulistano tem bons versos e mente independente
"Se você vem de onde o hip hop verdadeiro vem, com a cor e a cara que ele tem, sabe que precisa ser dez vezes melhor, em alguns casos onze, pra poder competir com os caras lá do asfalto. Tamo nessa guerra, é o começo, pra mim, pro hip hop, pra rua..."A frase é forte, assim como é palpável o discurso urbano do rapper em franca ascensão Leandro Roque de Oliveira, que atende por Emicida. Depois de lançar sua primeira mixtape este ano,
Pra Quem Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe, o destaque que ele tinha no universo alternativo do hip hop paulistano se alastrou, e o prodigioso rimador de 24 anos, rebento da Zona Norte de São Paulo, terminou indicado em três categorias do
VMB 2009 (Aposta, Rap e Videoclipe do Ano).
Uma das qualidades mais evidentes em sua mixtape, além das bases cheias de musicalidade e cadência, da produção indefectÃvel e da presença de palco, são as letras que escreve, as rimas que manda.
MIXTAPE "Ooorra..."
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01 - Intro (É Necessário Voltar ao Começo)
02 - E.M.I.C.I.D.A (Adoooro)
03 - Sozim
04 - Rotina
05 - Pra Mim... (Isso é Viver)
06 - Ainda Ontem
07 - Pra Não Ter Tempo Ruim
08 - Só Isso
09 - Vô Busca Minha Fulô
10 - Ela Diz
11 - Por Deus Por Favor
12 - Preciso (Melô do Mundiko)
13 - A Cada Vento
14 - Sei Lá...
15 - Cidadão
16 - Soldado Sem Bandeira
17 - Vai Ser Rimando
18 - Um, Dois, Três, Quatro
19 - Fica Mais Um Pouco Amor
20 - Outras Palavras
21 - Hey Rap!
22 - Essa é Pra Vc Primo...
23 - Triunfo
24 - Eu Tô Bem
25 - Ooorra...
Ele mata uns plurais aqui, cria neologismos ali, passeia por temas que vão de amor a polÃtica e não deixam de lado a importância da amizade. Munido de franqueza e sensibilidade, este artista que é um verdadeiro catalisador da vibe nua e crua de Sampa transforma gÃrias e o linguajar tÃpico local em poesia.
Emicida descobriu o rap nos bailinhos da quebrada, nas quermesses, frequentando festas de garagem na Vila Zilda. Mal pensava ele que um dia seu nome seria ponta de lança de uma geração que veio para reciclar o rap nacional. Seu
perfil no YouTube ultrapassa um milhão de views e, sua página no
MySpace recebe cerca de mil plays por dia.
A mixtape que reúne 25 músicas, com capa feita à mão e vendida a 2 reais nos shows, também pode ser encontrada facilmente nos principais blogs do gênero -
baixe aqui. A mensagem se espalha, enquanto Emicida chega cada vez mais longe, sem perder a ética underground.
Seu primeiro single saiu no ano passado e a mixtape agora em
2009. Ter acumulado uma década de ideias, material, improvisos, letras,
foi decisivo para que sua carreira fosse alavancada? Digo, se você tivesse se apressado em produzir um álbum anos antes, por exemplo, o resultado teria sido muito diferente?Acredito que sim, vivi coisas neste perÃodo que me impulsionaram a escrever o que saiu na mixtape e a lançar algumas coisas do jeito que estava, fiquei bastante tempo estudando como a coisa acontecia, sem se emocionar botei a cara, o rap teve vitórias e derrotas em sua estrada, comemorei e sofri com cada uma delas porque as considero minhas também. Somos todos uma única coisa, saber esperar é uma virtude, agradeço a deus por ter isso em mim, foi a melhor coisa que eu poderia ter feito.
Se esta mixtape fosse como é e tivesse saÃdo há sete anos acredito que o resultado seria outro, bem diferente, por mais que seja boa, não haveria uma expectativa em torno dela e isso é o grande desafio, fazer as pessoas quererem aquilo, fazer aquilo nem sempre é o mais complicado... No nosso caso...
As indicações que você teve ao VMB esse ano surtiram muito impacto na sua carreira? O que você pensa da representatividade dessas premiações diante do cenário hip hop nacional?Foi bom, a MTV me levou pra um público que talvez já tivesse me visto mas que não me dava muita atenção, por me ver como "mais um cara do rap". Me colocar nas três categorias fez as pessoas ficarem tipo "peraê, alguma coisa tem aÃ", e foram atrás ver. Os shows já estavam lotados antes, agora estão mais ainda porque o poder da televisão é muito forte na mente do povo, mas o bom é que as pessoas vão até lá e realmente gostam do que viram, voltam e nós vamos andando por aà construindo nosso público sincero que se identifica com nosso propósito como sempre foi. Um troféu daqueles iria significar muito para nós, o rap, o hip hop brasileiro. Porém, a não vinda do mesmo plantou um espÃrito de "precisamos fazer mais" em algumas pessoas, principalmente em mim, este é meu estado de espÃrito favorito.
Talvez se tivéssemos ganho os três as pessoas se acomodassem como se essa fosse nossa única meta, mas como o que aconteceu foi o contrário a gente tem que correr mais, "dez vez melhor pra ser visto como igual é a lei" se você vem de onde o hip hop verdadeiro vem, com a cor e a cara que ele tem, sabe que precisa ser dez vezes melhor, em alguns casos 11, pra poder competir com os caras lá do asfalto. Tamo nessa guerra, é o começo, pra mim, pro hip hop, pra rua... Minhas metas são bem mais ambiciosas do que isso tudo.
Desde que nomes como RPW, Doctor MCs, Consciência Humana, Comando DMC e toda aquela galera que tocava bastante nos anos 90 emergiram, o que mudou pra melhor e pior na cena hip hop mais recente, com o destaque trazido pelo Sabotage e coisas como o som do Kamau, se for pra traçar um paralelo?Temos respeito graças a estes caras, chegamos nos lugares e as pessoas sabem que essa parada é nossa vida mesmo. Existem uns idiotas que ridicularizam nossa postura, mas isto está alem da compreensão de quem vê isso de fora, acredito que a melhor coisa realmente é o respeito que temos e a fama de sermos exigentes, apreciadores da boa música e respeitadores da história.
A pior coisa é a cabeça de algumas pessoas que às vezes parecem não ter visto isso (e às vezes não viram mesmo) e querem cortar caminho dentro da história, ir do Afrika Bambataa pro 50 cent sem respeitar o tempo, pular do boom rap pro dirty south e acreditar que a rua deve compreender que são outros tempos... Mas a verdade ainda é uma só, Sabotage levou o rap pra outro lugar, foi puro e sincero, as pessoas amam isso, por isso ele chegou aonde chegou, trocava ideia com todo mundo, ria, falava sério. Kamau sempre foi rato de sebo e trouxe isso no disco, varias pérolas nos samplers e nas ideias, e temos pouco mais de duas décadas de história hein...
Seu trabalho tem a licença Creative Commons. A venda de CDs ou álbuns e faixas digitais faz muita diferença pra manter rolando os projetos no underground? Ou a cena mais alternativa, digamos, diferente daquele rap mainstream, nunca dependeu muito disso? Todo mundo que lança algo conta com vendas, os mais ratoeira pode falar o que quiser, mas se você não quer vender você não lança, correto? O que precisa acontecer é a cena "alternativa" criar meios de subexistir e cada vez de forma mais criativa para independer realmente de algumas coisas. Acho que a venda de discos está caindo mas por outro lado quem toca e vende CD nos shows pega em 100% do dinheiro que investiu se estiver vendendo bem, organização define o caminho e faz você ver os lucros...
As bases da sua mixtape são resultado de colaborações de vários
parceiros, né? Você geralmente prefere deixar os caras livres na produção pra se concentrar no verbo, ou dá pitado na hora de adequar as batidas? Como rola essa colaboração na gravação e ao vivo?Sim, deixo cada um deles livre e passo recolhendo apenas (risos). Dou uns pitacos em alguns casos, mas raramente. Prefiro assim agora, antes eu queria produzir mais, hoje to bem centrado nas rimas, quero isso pra mim daqui pra frente. Ao vivo já é eu e o DJ na grande maioria dos casos e quem manda é o sentimento, às vezes fazemos um set list, subimos no palco e mudamos tudo de acordo com o lugar, vai do que vemos lá de cima...
Você se preocupa em usar termos mais fáceis para fazer sua música alcançar e sensibilizar mais pessoas? Ou prefere deixar as palavras fluÃrem naturalmente, no calor do momento da composição?Me preocupo em ser natural, ser eu, várias vezes escrevo e a concordância não é a mais perfeita, mas o resultado daquela combinação de palavras acaba definindo um rumo muito melhor, deixo a caneta correr como o tempo apenas...
Emicida - TriunfoSeu videoclipe para "Triunfo" ficou ótimo. A edição das imagens e a
fotografia casam-se muito bem ao impacto forte da track. Como que ele foi pensado? Você é ligado em cinema, acredita no suporte da linguagem do videoclipe para enaltecer ou firmar a cultura urbana?É tudo ideia da cabeça do Fred Ouro Preto e a fotografia da Carina Zaratin. Aceito elogios referentes à s performances ao vivo, à letra, ao sentimento e à intenção, mas sem Felipe Vassão no instrumental, Nyack nos riscos, Fred e Carina no vÃdeo, nada disso seria possÃvel. Acredito muito em cinema, sou fã, vejo muita coisa, muito filme vazio, saca? Ação norte-americana barata e descartável que serve pra comentar durante dois dias e esquecer depois, gosto disso. Acredito que um clipe pode dar outra cara para a música, ilustrar de outra maneira e isso é muito louco, quero mais é que todo mundo faça pra termos bastante opções e a MTV também. O Slim lançou o "Sol" que tá rolando por aà já... É o começo...
SERVIÇOEmicida29/OUT - 18H30
30/OUT - 12H30
Grátis
Centro Cultural São PauloRua Vergueiro, 1.000, ParaÃso | tel. 3397-4002
o clipe fico realmente muito bom, fotografia foda!
Letras fodas, musicalidade do caralho...tá no caminho bacana e vai mto longe ainda.