RRGEEK #48: Twitter DJ e uma nova ordem para os direitos autorais
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RRGEEK #48: Twitter DJ e uma nova ordem para os direitos autorais
ECAD, M-nus, Twitter, Traktor... e você que só queria tocar uns discos
01.10.09 07:40
Esse artigo é sobre o Twitter DJ, aplicativo criado e desenvolvido pela Mnus, selo conhecido e agora talvez até possível ser chamado de um "think-tank" de onde Ritchie Hawtin solta algumas de suas idéias. Não vou entrar em detalhes do que faz, quem fez, como foi feito, que a Native Instruments aprovou e etc. Mas se for para resumir em poucas palavras: se você é DJ, usa Traktor, tem um computador Apple, uma conta no Twitter, disposição para integrar o aplicativo e tem vontade de que cada faixa que você toque no Traktor vire um post no Twitter…. peraí, quem quer isso?

Os comentários que circulam a respeito do aplicativo refletem o tamanho do tédio que se pode esperar do resultado direto de um trequinho que manda posts com nome de faixas tocadas para um micro-blog. Então agora podemos saber exatamente o set list de um DJ famoso por aí, real-time (perfeito para quem quer sempre tocar "aquela"). E, se você é produtor, pode comentar com orgulho para o seu pai que sempre te mandou procurar um trabalho de verdade a quantidade de vezes que uma faixa sua foi tocada bem longe da sua casa, talvez até em outro país. E seus amiguinhos podem ver que você toca só som arrasa-pista. Uau!

Quanto mais se pensa nas possibilidades mais aparentes do aplicativo, é mais fácil cair no sono. Até porquê já tem até gente discutindo se o Twitter DJ é spam. E como achar graça em algo que precisa de um ambiente técnico tão pré-determinado (e dependente de escolhas pessoais do DJ) para realmente alcançar audiência, impacto, divulgação, sinergias, inovação ou [insira aqui seu corporate-cliché preferido]? Para descanso das mentes do marketing e da mídia, o grande avanço que o Twitter DJ promete sem grande alarde é muito maior e mais benéfico a quem em geral compartilha dos retornos da "indústria do entretenimento" de forma muito marginal: o produtor de música eletrônica. É consenso que a única forma de um artista ganhar algum dinheiro atualmente é com apresentações ao vivo. A maioria dos produtores que eu conheço - e conheço muitos - são também empresários: no mínimo têm seu núcleo de festas, ou projetos, ou estudios de trilhas, ali, sagrados, garantindo a conta de luz do mês pois a não ser que você seja a Madonna, vender cerveja, roupas ou carros é muito mais negócio que vender música. Ou vivem em pontes-aéreas em horários bizarros tocando em festas, para cima e para baixo. A indústria fonográfica há muitos anos mal sustenta a si mesmo, e a previsão de que o MP3 traria completa autonomia ao artista nunca se concretizou simplesmente porque todo o modelo de negócios envolvendo um arquivo digital não chega aos pés do que um dia já foi a vendagem de discos e a importância financeira e artística que lançar um álbum representava. O mundo se tornou um lugar mais difícil de se viver nesse sentido.

O assunto "direitos autorais" é tão chato, tão nebuloso, que a enorme maioria (não vou correr o risco de dizer todos, mas sinceramente acho que são) dos produtores de música eletrônica no Brasil não querem nem pensar nisso, principalmente quando a palavra "ECAD" surge. A culpa da completa descrença nas instituições brasileiras. Melhor se trancar no estúdio e programar a próxima gig.

Para ilustrar o ponto de toda a discussão, uma experiência pessoal: em 2001, época que se debatia ferozmente se DJ que tocava com CD era DJ e se festa de trance podia tocar house, às vésperas de tocar em uma festa relativamente grande recebo um chamado do organizador, em prantos: "Um tal de ECAD veio falar comigo. Querem cobrar uma arrecadação em cima de minha receita bruta da festa. Não sei para onde vai esse dinheiro, mesmo se eu pagar. Dizem que é para os 'direitos autorais' dos autores das músicas - mas como vou saber isso? Cada DJ toca músicas desconhecidas, de selos obscuros, produção própria ou de amigos! E mais, acho injusto, pois se eu não indentificar cada uma das faixas tocadas na festa, essa arrecadação é feita por amostragem". A solução em primórdios de ECAD foi elaborar uma declaração para cada DJ dizendo que todas as músicas seriam de sua autoria. Na festa seguinte, não colou mais.

Amparado por legislações diversas, e copiado de modelos parecidos nos Estados Unidos e Europa, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD) é uma associação civil instituída por lei que tem por missão garantir a arrecadação e distribuição dos direitos das obras autorais executadas em público. O beneficiado, sempre, deve ser o autor que tem sua obra executada e, para isso, tem o direito de receber uma parcela da renda auferida no evento. O conceito relativamente simples de pagar os direitos ao autor quando sua obra é executada em rendimento de terceiros soa justo e completo, mas a presença do ECAD se tornou durante um tempo um verdadeiro pesadelo para donos de clubs e promotores de festas. Enquanto para um bar ou para um club "padrão" é relativamente fácil indicar o que será tocado (ou simplesmente paga-se ao ECAD e aumenta-se o preço da dose no bar), a questão no meio da música eletrônica tornava o problema ainda maior: porque contribuir para um fundo do qual não se faz parte? Ou como provar que o que se tocou na cabine naquela noite foi de fato Carl Craig e não Carlos Imperial?

Ainda que dependa de um conjunto relativamente complexo de conexões (como usar o programa certo, no computador certo), o conceito do Twitter DJ, com certa organização e clareza de idéias entre DJs, organizadores e produtores, pode trazer o "elo perdido" do recolhimento adequado dos direitos autorais no meio da música eletrônica que, salvo alternativas, todo e qualquer club ou evento paga, tanto no Brasil quanto no resto do mundo.

Neste novo mundo ideal, os DJs usam algum tipo de transmissão ("cast") das faixas tocadas; o cast acusa a sequência, a hora e o local exato de onde foi transmitido o post (como a antena de celular de onde foi transmitido, como os aplicativos de smart-phones fazem. Nem GPS precisa mas um log do IP dos posts pode ser útil). O produtor faz um scan no Twitter, acha os sets onde teve suas faixas tocadas e, sendo cadastrado nas principais associações filiadas aos "ECADs" de outros locais do mundo (GEMA, PRS e SOCAN, por exemplo), indica que teve suas obras executadas e portanto deve receber os direitos autorais que, por sua vez, já foram pagos, usando para isso simplesmente o rastreamento tecnológico relativamente simples e amplamente disponível hoje mesmo.

Está valendo, a partir de agora, a prova de fogo para ver se finalmente o sistema de direitos autorais vai trabalhar a favor de quem não necessariamente se importa com isso, mas tem todo o direito de compartilhar dos benefícios. Se você é produtor e não liga para o que fazem com suas obras, e para os seus direitos de autor, contanto que tenha mais e mais gigs e esteja sempre no topo do Beatport, cogite cobrar pelo lindo branco dos seus olhos ou pagar conta no mercado com tracks em MP3. Aposto que não vai rolar.

Carbon23
Carbon23
knob tweaker, deal maker and partner of Lunatic Jazz Records
comentários
9 comentários
Fábio Petz
Fábio Petz(12.10.09)
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tinha que ser a Ritchie (Richie Hawtin's 10 most ridiculous ideas - http://tinyurl.com/qv6fnb -FACT Magazine)
DJ Dude
DJ Dude(05.10.09)
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ECAD = EU CUSTO ACREDITAR DEUS
Zé Dito
Zé Dito(04.10.09)
2AprovadoQueima
ADOREI o post Bruno. Tomara que muita gente leia tudo isso. Principalmente teu pitaco aqui nos comments. O foda é que se trata de um lance (o twitter dj) muito trabalhoso (no meu ponto de vista) pra dar a césar o q é de cesar (como bem disse o Brandao). É de se pensar que toda essa discussão existe não para ser solucionada, mas para render espaço como esse aqui, emprego para uma instituicao como o ecad (seja ela boa ou má intencionada), etc....

Discutimos por algo justo, mas é importante ver ate q ponto não estamos falando sobre o sexo dos anjos. Independente de qm a criou, a música atinge pontos inalcansáveis para uma coisa (seja instituicao ou equipamento) conseguir ter controle.
Carbon23
Carbon23(01.10.09)
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wagner: só morre quando deixam morrer. o pior é que sempre terá quem queira cuidar do defunto. creative commons é uma alternativa, mas não serve pra tudo, e minha crença individual é que uma mente contestadora de verdade estuda, entende e manipula o sistema a seu favor...e essa parada é exatamente isso. nao precisa extinguir o ECAD, ao contrário é entrar pela porta da frente e pedir o cheque.
Jota Wagner
Jota Wagner(01.10.09)
1AprovadoQueima
tudo me leva a crer (independente do que eu quero ou acho certo) que o direito autoral esta definitivamente morto.