Sebastién Tellier: "eu vivo na sombra de Serge Gainsbourg"
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Sebastién Tellier: "eu vivo na sombra de Serge Gainsbourg"
Conversamos com o produtor francês, em passagem pelo Brasil
18.09.09 10:40
Sebastién Tellier me recebeu largado em uma poltrona no camarim do SESC Pompéia, em São Paulo, pouco antes de sua primeira apresentação no Brasil. O músico, poeta, compositor e cantor francês, responsável por levar a eletrônica francesa a famílias europeias ao se apresentar no cafonérrimo e tradicional Eurovision com seu ótimo terceiro álbum Sexuality, estava largado em um sofá de couro, cercado de água mineral e cigarros. Simpático, irônico e muito à vontade com seu forte sotaque francês, ele falou sobre sua relação com a figura de Serge Gainsbourg, contou o que acha sexy na música atual e revelou o segredo da eletrônica em Paris, onde as paredes são finas demais para fazer música...

Mais de um ano depois do seu lançamento, Sexuality ainda faz você viajar pelo mundo e criar ótimos vídeos. Qual a importância desse disco na sua discografia?

É o meu disco mais recente, então com certeza é o trabalho mais importante pra mim. O que é novo é eterno para mim, é minha música. Antes de Sexuality eu estava triste, tinha uma vida triste, não enxergava um caminho para encontrar minha felicidade. Foi um pouco antes de começar esse disco que eu tive um breakdown. Estive no hospital, passei por uma cirurgia no cérebro. Senti que estava no fundo do poço e entendi que eu tinha uma obrigação de reverter isso, de tomar um caminho diferente, de ser feliz. Essa música surgiu para mim nessa época. O Sexuality é um símbolo do meu novo amor pela felicidade.

Você acredita que está agora no momento mais importante da sua carreira?

Acho que não. Eu estou crescendo bem devagar, pretendo atingir o topo da minha criatividade por volta dos 50 anos. Eu acho muito triste quando você se sente ultrapassado. Para mim é como subir uma montanha, você sobe e sobe até atingir o topo, depois é só uma longa descida. Então eu quero demorar para alcançar o topo. Eu sou paciente.

Vi uma entrevista sua em que você se comparava ao Serge Gainsbourg que, como você acabou de dizer, teve uma carreira longa e muito criativa. O quanto você realmente enxerga de similar entre vocês?

Serge Gainsbourg era um gênio. Eu não sou. Eu sou apenas um pequeno músico. Mas nós temos muito em comum: eu sou francês como ele, amo tabaco como ele, gosto do jeito latino de viver a vida, como ele. Esse link existe, somos dois poetas modernos de nossas épocas. Temos um mesmo tipo de pensamento, de sentimento puro. Mas, eu juro para você, eu tento ser diferente! Eu não quero ser o Serge Gainsbourg. É difícil pra mim. Eu não sei porque, mas eu tenho um pedaço de Gainsbourg nas minhas veias. É difícil me separar da imagem dele. Eu vivo na sombra de Serge Gainsbourg.

Tellier no Sesc
O quanto os seus álbuns são baseados em experiências pessoais?

Todos os meus discos são muito pessoais. O primeiro, L'incroyable Vérité remete muito à minha infância, minha visão dos meus pais. Tem uma canção chamada "Trilogie femme", que é um tríptico sobre as mulheres e seu contraponto, a "Trilogie chien", que fala sobre o mundo dos homens. Todo meu primeiro disco trata sobre a minha família. Meu segundo disco é o Politics e fala sobre política e festas, festas, festas. Foi importante, mas isso não é minha vida. Minha vida é o mundo de Sexuality. É a minha visão sobre a sexualidade, meus sonhos, minha visão do prazer. É isso que impora para mim hoje.

Quais artistas, ou faixas ou discos, que você considera bastante sexuais, ou pelo menos "sexy"?

Snoop Dogg (risos). Sim, acho muito sexual e muito alegre

E você já escutou o que chamam na Europa/EUA de "Rio funk", o funk eletrônico produzido no Brasil, nosso "funk carioca"?

Não, mas eu ouvi alguma coisa muito boa na rádio hoje a caminho daqui! Não sei o que era nem consigo explicar, mas era algo muito brasileiro e muito bom, muito quente. Mas voltando a quem eu acho que faz uma música muito sexual, eu penso em Prince e George Michael. E Serge Gainsbourg, claro.

Como é trabalhar com Guy-Manuel de Homem-Christo? Você é bastante ligado à essa cena francesa: Mr Oizo, Daft Punk, os Ed Bangers...

É muito fácil, porque em Paris esse mundo da música eletrônica é muito pequeno. Todo mundo conhece todo mundo e por isso todo mundo trabalha com todo mundo. Eu trabalho com o Sebastian, Mr Oizo, com o Daft Punk, com o Air... Somos uma pequena sociedade, estamos sempre nos mesmos clubs, mesmos restaurantes, mesmas festas, então é algo que vem naturalmente. Mas nós também repartimos uma visão do mundo - somos franceses que amam o mundo, queremos conhecer o mundo todo. E não nos importamos com a música francesa, mas com a música apenas, com a música de todo o lugar. Existe um motivo para um cenário para a música eletrônica florescer em Paris: é uma cidade muito velha, com paredes muito finas. Como resultado você não pode tocar baixo, bateria, brincar com strings... você sabia que não podemos tocar trompete em casa em Paris? Incomoda os vizinhos. Você acaba ficando naquela coisa de whisky e piano. É um problema Então fazemos música com um laptop e fones de ouvidos.

Qual é sua opinião final sobre a polêmica em torno de ter cantado em inglês na sua apresentação no Eurovision em 2008?

Foi um presente de um inimigo. Na verdade não existe problema em cantar em outra língua, é um direito que eu tenho como artista! Eu canto em alemão, em espanhol, em italiano. Mas foi uma grande questão na França, até um Ministro falou sobre o assunto, foi capa de jornal, apareceu na televisão. O resultado é que durante esse tempo eu fui super exposto, meu nome apareceu em revistas, dei entrevistas. Então, para mim, foi um presente. Comercialmente falando.

Já pensa no próximo disco?

Sim, eu penso nisso. Na verdade eu fazendo os shows desse álbum apenas por prazer, para poder visitar países como o Brasil, e tocar. Mas para mim essa tour já acabou. O fim da tour foi em abril, no Coachella, que foi muito legal. Mas eu penso no meu próximo álbum sempre, o tempo todo. Meu próximo objetivo é criar um belo álbum novo.

Fotos: Silvana Garzaro

Colaborou: Jade Gola

Gaía Passarelli
Gaía Passarelli
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comentários
2 comentários
Rods On The Rocks
1AprovadoQueima
Muito boa a entrevista. Humaniza O Sébastien que, a meu ver, parece meio que uma entidade.

Apesar de ele viver na sombra do Gainsbourg (que é um gênio, disso não há dúvidas) é gratificante que ele não tenha lançado nada no naipe de "Love On The Beat" e acredito que nunca o fará...rs
gui xavier
gui xavier(22.09.09)
1AprovadoQueima
É crasse.