Kiss FM, Tim Westwood, Shoom e o resgate do lado funk e negro do techno.
Mais de duas décadas após surgir como figura-chave da acid house de Londres,
Colin Dale ainda é uma respeitável força na cultura club mundial, tanto em suas quanto por sua bem-sucedida agência digital de DJs, a
Wild Life.
Dale começou sua carreira em 1982, quando entrou para o time da então rádio pirata
Kiss FM, em 1986, onde por 16 anos produziu um aclamado programa de techno, o
Abstrakt Dance. Sempre com os pés firmes no underground, saiu de Londres logo após o fim do programa e foi morar no sul da França - para a consternação de alguns, ele admite. "Um dos maiores desafios que tive foi retornar a Londres depois de viver 3 anos no sul da França", recorda, "pode ter parecido para algumas pessoas que eu havia sumido de circulação, enquanto na verdade estava apenas trabalhando em um circuito diferente. Seja qual for o tipo de artista que você é, cantor, modelo, pintor ou DJ, é inevitável que uma carreira com mais de 20 anos tenha altos e baixos. O importante é como você administra as fases mais difíceis. Minha sorte é ser uma pessoa muito dedicada, me sinto bastante inspirado mesmo quando as coisas não estão indo tão bem."
Nascido e criado numa área infestada de gangues e conjuntos habitacionais do governo, ele admite ter tido sua parte de experiências, digamos, duras: "cresci em Brixton, e por mais que as gangues sempre tenham estado por perto, eu nunca entrei em uma. Isso não significa que eu fosse indiferente, eu apenas não me entendia com aquelas pessoas", ele diz. "Em termos de violência, era bem pior no fim dos anos 70 do que é agora. Não só por causa das facas, mas a gente também tinha que lidar com o racismo. Eu apanhava muito de skinheads, mas nunca das chamadas 'gangues'. Toda essa coisa de gangue e facas está por aí desde sempre. Eu frequentei uma escola que era das maiores e mais violentas do sul de Londres e nunca tive uma briga por lá. Tudo depende de com quem você anda".
Uma pessoa com quem Dale andava na época era o então desconhecido produtor de drum'n'bass
Fabio, cujas qualidades ele recorda com carinho: "Aos 15 anos eu e Fábio éramos muito próximos, melhores amigos. Nós dois éramos fãs de jazz, soul e funk, e íamos aos clubs juntos. Ele de destacava, era um dançarino incrível, sempre pegava as garotas. Foi uma época muito legal". Com Fabio e seu irmão Trevor, Dale formou o projeto 3 Base, que se tornou parceiro do então obscuro
Tim Westwood, outra figura-chave no futuro de Colin: "Nós dançávamos para Westwood em sua noite no Gossips, no Soho, e depois de um tempo ele já confiava em mim o suficiente para me deixar tocar como DJ", relembra, "ele sabia que eu tinha uma boa coleção de discos e tinha me aventurado em rádios pirata. Tim Westwood foi responsável pela minha primeira gig. Ele não mudou muito em todo esse tempo, exceto que na época ele estava tocando funk dos anos 80 e os primeiros raps que estavam aparecendo. Foi por ele que eu vi pela primeira vez como promover uma noite: ele me fazia andar pra cima e pra baixo na Oxford Street distribuindo flyers, naquela época ele já tinha muita energia, eu aprendi muito com Tim, ele foi um grande professor e tenho muito respeito por ele. É tudo uma questão de longevidade."
rraurl: Onde você está agora, musicalmente? O quanto você ainda se alinha com o techno? Colin Dale: Musicalmente eu devo dizer que estou mais tech-house do que nunca. Estive entre os dois estilos durante anos e isso me dá um escopo para trabalhar, já que eu gosto de fazer sets mais pesados ao mesmo tempo em que amo todos os tipos de house music. Eu sei que eu sempre fui mais instrumental, tocando todo aquele techno e acid durante os primeiros anos do programa na Kiss FM, mas em algum lugar os elementos começaram a soar muito sem alma, baseados em loops. Se você checar qualquer um dos LPs de compilação que eu fiz, nenhum é chamado "techno". Eu ainda toco faixas antigas, mas apenas algumas por set - algumas faixas são eternas.
Quantas e quais músicas velhas você toca?Eu amo ouvir sets retrô de alguns DJs e faço sets de clássicos ocasionalmente, mas eu prefiro muito mais mostrar música nova. Em termos de estilo, eu perdi alguns bookings porque no auge de tudo decidi seguir um caminho mais funk do que a maioria dos outros DJs techno - que estão fazendo agora o que fiz anos atrás. Agora estou tocando tudo que vá de
Robert Owens a
Minilogue a
Heerhorst & Meissner e além. Realmente tech-house. Eu começo o set em um nível e vou subindo, movendo de batidas mais house para mais techno.
Os livros britânicos que tratam da história da acid house sempre falam sobre como Paul Oakenfould, Danny Rampling e seus amigos fora para Ibiza e inventaram a cultura rave quando retornaram a Londres. Quanta diferença esses caras fizeram na sua perspectiva?Eles tiveram grande impacto na cena, mas pessoalmente eu nunca fui fã dessa coisa
balearic. Eu estive em festas seminais da acid house como
Shoom e Spectrum logo no começo e me lembro dessas noites como algo simplesmente sensacional, foi algo muito importante. O Spectrum foi o primeiro club grande a funcionar de forma regular. Se eu me lembro corretamente durante uma época eles tinham uma noite às segundas-feiras na Heaven que sempre lotava. Eu costumava ouvir o
Colin Faver no Shroom o tempo todo e na época ele estava tocando no Rage na Heaven às quintas também: pra mim ele era o cara na época. Mas tem muitos outros nomes que não são lembrados hoje em dia: Jazzy M, Steve Jackson, Wayne Anthony, Phillip Salon, eu poderia lembrar por dias...
Olhando para trás, em que momento a cultura do DJ superstar nasceu? Teve algum momento-chave em que você de repente começou a receber ofertas milionárias?Quanto você acha que eu estava ganhando na época? Nunca foi assim. Eu estou envolvido com música desde os 16 anos, então não é como se as coisas começassem a acontecer da noite pro dia. No começo da época rave minha manager era a namorada do Carl Cox, havia uma atitude bastante profissional em relação a discotecagem desde o início. Mas acho que percebi que as coisas estavam decolando quando comecei a voar todos os fins-de-semana para partes diferentes do mundo.
E o que você acha desses DJs que tem como rotina cachês de 5 dígitos todas as noites (Tiesto, David Guetta, etc): o que os separam do resto?Eu acho totalmente justificável. Nós estamos falando dos maiores do mercado aqui. Esses caras arrastam dezenas de milhares de pessoas onde quer que vão, então eu acho que é merecido. Também conheço eles pessoalmente e, pode até soar como surpresa para algumas pessoas, mas Paul Van Dyk e David Guetta são duas pessoas adoráveis. O que me irrita são aqueles zé-ninguem que passam os dias em salas de chat e fóruns de internet criticando o trabalho de gente que eles sequer escutam ao invés de fazer algo criativo.
Qual foi o período mais lucrativo da sua carreira?Eu acho que o período mais lucrativo da minha carreira foi entre 1993 e 2000. Ainda que não houvesse nenhuma pressão para sustentar isso, eu me lembro de passar uma semana em 12 vôos ao redor do mundo e me sentir mais como um cara de vendas do que um DJ. Eu não vou dizer que não me diverti, mas é difícil sustentar essa quantidade de gigs por um período longo. Eu estava tocando em grandes festas e raves por anos e fiz uma decisão consciente de parar com isso no momento em que ficou impessoal. Eu realmente senti uma necessidade de tocar em espaços menores, fazer sets mais íntimos, onde não havia a necessidade de "bombar".
Foi o mesmo na Kiss FM. Eu fiquei fazendo o programa por mais de 15 anos, tinha muito orgulho do que havia realizado, mas eu podia ver a direção que a estação estava tomando então tomei a decisão de parar com o programa enquanto ele ainda era legal. Eu nunca tive medo de fazer coisas novas, essa é uma qualidade que me mantém vivo ao longo dos anos. Eu não estou nessa para estar em capas de revistas ou fazer muito dinheiro e você com certeza nunca receberá um email meu pedindo votos para algum top 100 de DJs. Eu sou um artista e toda essa coisa de DJ/produção é um estilo de vida, que vai muito além de abrir os braços atrás de um par de toca-discos numa noite de sábado.
Eu publiquei uma frase do Karl Lagerfeld essa semana em que ele dizia que "quando você começa a criticar o tempo em que vive, é porque seu tempo acabou". Você já se sentiu ultrapassado?Eu realmente não quero e nunca me senti assim, mas também é chato quanto todos fazem a mesma coisa. Na Kiss nós tínhamos alguns DJs que torciam o nariz para o que tocava apenas para tocar a mesma coisa alguns anos depois - ainda bem que nessa altura eu também já tinha ido em frente.
O que você achou da ascenção do minimal: o quanto você abraçou o estilo, ou foi pressionado para toca-lo?Quem está na cena há algum tempo sabe que já tivemos uma explosão minimal, por volta de 1993. Eu tocava muito isso na Kiss e ajudei a divulgar na época - era Robert Hood, Maurizio, Steve Bug, Basic Channel, etc. Eu abraço isso porque musicalmente sou muito aberto. Eu não tocaria e acho que nunca fiz um set inteiro de minimal techno, mas com certeza existem faixas que eu gosto muito, ainda que para cada boa faixa exista umas 100 porcarias, como em todo o estilo. De todo jeito, nunca na minha carreira eu sinto pressão para tocar um tipo de música apenas por ser grande. Eu gosto de estar envolvido com criar novos trends, mas odeio ter que segui-los. A prova de um bom DJ, pra mim, é quando eu posso saber quem é só de escutar ele, sua personalidade aparece no som. É algo que leva anos para desenvolver e apenas alguns DJs são realmente capazes disso.
Qual o estado do techno hoje?Eu decidi não ser parte dessa coisa do techno percussivo e loopado, que me entedia. Eu fiz um curso de engenharia de som anos atrás e eu sei como é fácil fazer tudo isso. Também trabalhei na indústria da música nos últimos 25 anos (Streetsound, Kiss FM, BPM lojas de discos, selos, agências) e ouvi de tudo, de jazz a Radiohead, Juan Atkins e Richie Hawtin. Tudo isso para terminar ouvindo dois loops num mesmo pitch, amassados e equalizados? Não, obrigado, não é suficiente pra mim. Todo o funk e
blackness do techno foi embora e ele se tornou neutro. Mas é o ciclo da música: gênero se torna grande, todo mundo entra no trem, toca e amacia o estilo até cansar, então todo mundo desce na próxima estação e começa a procurar a próxima grande coisa, deixando os artistas que realmente gostam daquele gênero o tornarem algo bom de novo.
Na verdade eu acho que são tempos excitantes para o techno, por causa da onda minimal, ela realmente trouxe as pessoas para perto da dance eletrônica de novo. Também não vamos esquecer que tanto a house quanto o techno estão muito ligados a tecnologia, então um novo sequencer ou sintetizador pode realmente balançar as coisas - veja o que o 808, 909, 303 e etcs fizeram no passado e o que o Ableton Live está fazendo hoje. Eu acho que vamos ver o funk voltar com força ao techno. Pra mim isso é o que separa os meninos dos homens: saber sentir a música.
Link de download do set mais recente do Colin Dale (sendspace).
mordeu e assoprou com estilo
Sem Palavras