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Bottin dá aula de italo disco
A estética revisitada com o olhar cósmico do futuro; fuja, no entanto, de qualquer pressuposto
11.09.09 14:15
O italiano William Bottin foge de si mesmo e descobriu que fazer música por acidente pode te aproximar da substância melódica de uma faixa, fugir da mediocridade manifesta e questionar lógicas previamente estabelecidas. Brincando com sintetizadores antigos como o Farfisa, ele foi reverenciado no lançamento este ano do "Horror Disco" (Bear Funk) - uma mistura impressionante de sonoridades antigas, numa ambientação discothéque, entremeada por inserções e recortes de synths cósmicos.

Aqui, ele levanta questões. Mostra que pensa como poucos sobre seu processo criativo. E, longe de fugir de qualquer interpretação, relegando-se ao fácil rótulo do irrotulável, questiona modernidade, estética disco, a boa produção e nos enche de expectativas para o set de hoje, no D-Edge.

rraurl: Como foi nascer em Veneza nos anos 70?

Bottin: Só pra constar, eu nasci em Padova, que é uma cidade muito perto de Veneza, mas claro, muito diferente. Eu acredito que músicos jovens em Veneza tenham sido influenciados pelo reggae, que é realmente a única cena musical que existe por lá. Quanto a mim, eu tocava teclado numa banda de acid jazz quando eu era adolescente e a maioria dos membros eram mais velhos e mais experientes. Então, aprendi muito com eles. Quando eu tinha 14 anos, comecei a experimentar "computer music", primeiro com o Commodore Amiga [um dos primeiros computadores, final dos anos 80] e seu seqüenciador de quatro faixas chamado Soundtracker.

Mais tarde, o baterista de uma das bandas que eu tocava abriu um estúdio e eu passei a usar. Cheguei a gravar um EP de quatro faixas, uma mistura de jazz e drum'n'bass. Essa foi minha primeira produção. Alguns anos depois, tive meu primeiro track lançado pelo selo Irma Records. Era uma combinação de muitos elementos, exceto pela voz de vocoder dizendo "good morning sunshine". Isso foi há dez anos.

A faixa "No Static" foi recebida com ótimas críticas. Você acredita que sonoridades inspiradas na ítalo disco encontraram seu lugar ultimamente? Pode nos dar um olhar pessoal de como é essa produção na Itália?

"No Static" foi na verdade minha primeira tentativa de fazer algo baseado na italo disco. Isso veio depois que um amigo me deu alguns discos que ele nunca realmente gostou. E eu apreciei a infantilidade de algumas dessas produções. Ouvidas hoje, elas soam muito inocentes, simples - o oposto do que é a música pop italiana contemporânea: muito produzida, obstruída por tanta pretensão.

Acredito que há dois tipos de italo disco. Há a que faz mais sucesso, que é feita com vocais baratos, e que é divulgada e transmitida pela televisão, dubladas por modelos e dançarinos (não os artistas originais). Ainda temos essa música como um tipo de "revival". Mas se você fala de clubes e DJs, eles te diriam que a ítalo foi considerada comercial e bons DJs não mexiam nela.

Também tem a ítalo que é mais underground, que nunca saiu dos clubes ou de rádios locais, essa era mais instrumental, "nerdy", inspiradas na space disco e tinham edições limitadas. Hoje, há uma gama de produções de neo-italo, que vem com uma coisa de pós-house francês, com sonoridades 80's, golpes sintéticos, batidas enérgicas, linhas de baixo trituradas. Também tem aquela que é mais inspirada na disco, mais aérea, espacial, e possivelmente mais melódica.

Então, a palavra "ítalo" pode significar muitas coisas e as pessoas podem utilizá-las para diferentes representações de uma aparente sonoridade italiana. Para mim, ítalo é mais um approach para produção do que propriamente um som. Alguém me disse que a ítalo faz você dançar de maneira diferente, não tenho certeza disso, mas acho a idéia fascinante.


Qual a função dos vocais na sua música?

Eu quase nunca uso vocais. Isso porque eu gosto de fazer as coisas eu mesmo, synths, guitarra, baixo... mas eu não canto. De qualquer modo, estou muito orgulhoso das minhas colaborações com Douglas Meakin. Ele realmente é uma lenda para mim desde que cantava em temas de TV na minha infância. Depois, eu descobri, que ele também estava envolvido em alguns dos melhores discos de ítalo disco do final dos anos 70 e começo dos 80, com Claudio Simonetti. Eu também gravei um álbum -Tinpong- com Joy Frempong, uma vocalista suíça-ganesa. É bem diferente de minhas produções solo e Joy canta (ou grita) em todas as faixas.

Vi no seu twitter uma entrevista em que você falava do uso do FarfisaSyntorchestra e o valor da serendipity - habilidade de fazer descobertas por acidente. Como essa combinação se deu no "Horror Disco"?

Em teoria, é simples: quando se faz música, erros ou descobertas intencionais acontecem o tempo todo. E algumas vezes eles funcionam melhor que a idéia original. Como produtor, você pode saber toda a técnica pra fazer uma faixa soar certa, mas algumas vezes você pode se entediar com você mesmo. Então, é muito importante detectar e manter o que você faz de acidental. Quanto a trabalhar com um sintetizador antigo, é uma garantia que você vai ter sons que não esperava. Por exemplo, a função "arpeggiator" é basicamente a espinha dorsal do "Horror Disco" e eu esqueci como eu fiz.

Ouvi um set seu, o "Disco Aesthetics" e alguns samples soam como vozes horripilantes, com uma atmosfera bem upbeat. Como define a estética disco?

Bem, esse mix é uma tentativa de juntar produções contemporâneas com faixas de 25, 30 anos atrás. E algumas vezes é muito difícil contar quais são as faixas antigas. Em minha opinião, eu acredito que isso acontece não porque a disco contemporânea é meramente uma vontade de replicar discos antigos. Pelo contrário, tanto velhos como novos produtores são músicos perseguindo um som futurístico.

E visões realmente futuristas nem sempre são o advento da arte e da tecnologia necessariamente, eles se situam no mundo da utopia. Música moderna é aquilo que podemos unir a nossa vida. Sem a pretensão de estar fazendo a última novidade. Como músico, você pode alcançar isso quando você para de se questionar se está fazendo um som suficientemente novo; ou suficientemente velho.

Ser novo, conceitual é muitas vezes uma prioridade para muitos produtores. Mas isso é um conceito vazio, sem substância musical. Eles podem usar essa ou aquela sonoridade porque ouviram num disco recente que de alguma forma fez sucesso. É um horizonte estreito. Eu acredito que é mais interessante ouvir música feita há anos com os ouvidos de hoje.

Também, enquanto a maior parte da dance music foca em batidas e força, a disco deita na melodia e no ritmo. Eu acredito que essa é a principal razão da eternidade da disco. É música que pode atrair tanto a cabeça quanto o quadril.

Monique Oliveira
Monique Oliveira
demo.nique
comentários
10 comentários
Motor
Motor (14.09.09)
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'Eu (também) acredito que é mais interessante ouvir música feita há anos com os ouvidos de hoje.'

Adorei a entrevista.
Monique Oliveira
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"The track is a fake 1984 track that we produced for a movie whose main character was a singer from the 80s.... people believed it was an original old track and the "lie" went on for amost two years! now the track was released officially on Italians Do It Better and the truth has been disclosed" Bottin
Rodrigo Miravalles
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A música chama-se Robots Are Un-American. É muito boa, mas está na cara que não é de 1984. Eu não sei quem ele queria enganar. Acho que ele só fez queimar seu filme com quem realmente se interessa por música.
Rodrigo Miravalles
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Há algum tempo atrás apareceu no Discogs um release claramente fake de uma tal Solange, que supostamente saiu em 84 pelo selo Il Discotto. A comunidade Italo ficou em polvorosa querendo saber o que era isso, já que nenhum dos grandes colecionadores nunca tinha ouvido falar. Em julho, essa tal Solange saiu pelo Italians Do It Better, com um remix do Bottin no lado B. Eles anunciaram que era uma descoberta raríssima, encontrada numa rádio de Padova (coincidentemente, a terra do Bottin). No Discogs, o produtor da faixa é Tinto B (um anagrama de Bottin). Solange não existe. É o Bottin. Mas aí é que tá. Eles estão até agora mantendo a farsa.
Jade Augusto Gola
@Rodrigo Miravalles

desenvolve? Não conheço essa história, e fiquei curioso :D