Sex symbol mundial e reconhecido pioneiro da disco aos 20 e poucos anos, o produtor francês
Jean-Marc Cerrone foi bem acostumado a festejar com a elite do nightlife nova-iorquino dos anos 70. Mas avisa: "Claro que eu era um habitue do Studio 54, mas tenho que dizer que as minhas memórias não são muito para contar, a maioria tem um selo advertência para menores de idade... tudo que posso dizer é que eu não escrevi muitas canções quando estava por lá, estava ocupado aprendendo outras coisas, sobre sexo e atividades ilegais".
As músicas pelas quais ele foi mais famoso, ontem e hoje, são os seminais clássicos da disco "Love in C Minor e "Supernature", sua tour de force futurista que vendeu mais de 8 milhões de discos quando foi lançada, em 1977. Mas ao conversar conosco, semana passada, sobre seu álbum mais recente
Cerrone by Jamie Lewis, lançado pelo Malligator Records, seu próprio selo, ele é rápido em afirmar que vive no presente e igualmente ágil ao se distanciar do movimento "new disco" londrino: "eu nunca estive interessado em ditos 'revivais da disco'. Me apresento ao vivo há 35 anos, toco minha própria música sempre que gosto e considero a disco algo eterno. Desde quando eu tinha 35 anos as pessoas me perguntam sobre isso e a resposta é sempre a mesma: se a música segue viva através dos anos e das gerações e sempre foi copiada, reverenciada, sampleada, então não há dúvida de que a disco é eterna e não depende de modismos".
"O balcão era o lugar onde as pessoas estavam curtindo com as calças (ou mais) de fora. Mas, na verdade, o Studio 54 era mais a fase de 'preparação', a parte mais intensa e física da noite era sempre mais tarde, nas after-parties em Nova Iorque. Eu tenho memórias muito intensas das festas no apartamento de Andy Warhol..."
Hoje, aos 57 anos, Cerrone é esperto o bastante para lançar seu novo álbum online e gratuitamente, atraindo cerca de 50.000 downloads na primeira semana do lançamento, em agosto deste ano. "Eu estava pensando em como ia lançar um disco e ficou evidente para mim que este era o formato correto no momento", explica ele, "eu vendi enormes quantidades de discos no passado, mas não faço mais isso e lançamentos como esse não representam grandes vendas, de qualquer jeito. A escala das vendas estão mudando e as prioridades também, a forma de como manter uma carreira no mundo da música. Hoje a promoção via internet e os eventos que posso criar com essa nova mídia são muito mais importantes e relevantes do que os canais tradicionais, como vendas físicas e rádio. Ao lançar as músicas de graça eu abro um caminho para que um público jovem possa descobrir minha música".
rraurl: Você diz no seu website que "a música está condenada a ser gratuita e é necessário encontrar outras soluções para ter lucro". O negócio como o conhecemos está condenado?Cerrone: Sim, está, mas isso não é um problema pra mim. Eu gosto de pensar que esta situação é até uma oportunidade. A indústria musical cresceu por muitos anos baseada apenas em modismos a curto prazo, sem defender qualidade musical ou criatividade. Durante todo esse tempo estações de rádio desenvolveram um poder incrível, às vezes, quando decidiam não tocar uma faixa, a gravadora simplesmente não a lançava, não importa o quão brilhante fosse. A internet quebrou todas essas velhas regras e permitiu a muitos artistas "renascer", até os mais esquecidos. Isso também dá esperança para novos talentos. Então, sim, eu estou convencido de que artistas, autores, produtores devem procurar outras formas de ganhar dinheiro com sua música, porque ela não é mais vendida como antes. É por isso que temos que desenvolver outros meios: shows, merchandising, ações de branding, estratégias de publicação: essa pra mim é a nova ‘nerf de la guerre' [tática de guerra].
Nos anos 70 houve um enorme movimento contra a disco [o Disco Sucks] nos EUA, que impacto isso teve nas vendas de discos e na imagem pública dessa música?Eu nunca fui considerado pelo Disco Sucks, basicamente porque eles estavam visando canções pop e bobas com arranjos disco, com razões comerciais. A música disco era muito mais do que uma pequena parte da dance music da época, era uma filosofia de vida junto com a música. Em comparação, essas cópias de terceira categoria da disco feitas na época realmente não prestavam,
A indústria da música está cheia de histórias de artistas que venderam milhões e acabaram sem um tostão. Você passou por isso em algum período da sua carreira?Não, nunca. Eu sempre fui cuidadoso o suficiente para me manter como único dono de todas as minhas masters e direitos de publicação em áudio e vídeo. Eu tenho muita sorte porque todo meu catálogo ainda está bem vivo em todo o mundo e nunca parei de excursionar e tocar. Então nunca me senti roubado. Mas eu eu conheço muitos artistas menos cuidadosos que do que eu foram explorados por seus representantes ou gravadoras.
As pessoas freqüentemente citam seu nome ao lado de Giorgio Moroder: o quanto existiu de competição entre vocês?Na verdade nunca houve uma competição real entre nós. Nossas produções são muito diferentes: Moroder era bastante direcionado à canções (Donna Summer, por exemplo) enquanto eu estava mais focado em músicas para as pistas de dança. Nosso ponto comum é fato de sermos dois produtores europeus vendendo muitos discos desse então novo estilo: música para as discotecas.
De volta aos anos 70: você trabalhou como promotor do Club Med quando adolescente, o que devia ser um trabalho dos sonhos. Como você se concentrava na música sem se distrair das outras oportunidades de lazer?Eu não me concentrei, na verdade! É por isso que larguei esse trabalho depois de um ano e meio nele. Mas depois de ter experimentado e abusado de todas essas oportunidades (mar, sol, sexo) eu percebi que não eram compatíveis como minha verdadeira paixão, a música. Eu criei meu primeiro grupo (o Kongas) logo depois disso.
O quanto você estava mais focado no sucesso do que os outros?Eu percebi que guiava meu próprio caminho, mas dois homens mudaram minha vida por terem acreditado em mim e me dado uma chance: Eddie Barclay, fundador do Barclay Label, que me deu meu primeiro contrato e Ahmet Ertegün, chefe da Atlantiv Records na época do meu primeiro disco solo
Love in C Minor. Por eles eu também dei meu melhor.
Qual foi o período mais feliz da sua carreira?Eu não quero soar pretensioso, mas posso dizer que fui bem feliz durante toda a minha vida com a música, porque ela se tornou minha melhor amiga muito cedo e se manteve como minha paixão durante todo o tempo, em uma relação muito feliz. Eu até tive alguns orgasmos no palco, por isso eu nunca a deixei.
Aliás, Cerrone pode não ter escrito nenhuma canção no Studio ou nos afters, mas certamente escreveu para elas. Olha o título dessa: Rocket In The Pocket... http://www.youtube.com/watch?v=uVXuZC-io_w
Também adoro o Gazebo roubando a idílica "Music Of Life" para seu clássico "I Like Chopin": http://www.youtube.com/watch?v=8Si94YFppnQ
Manu, eu adoro as coletâneas do GTA (apesar de não ter idéia de como é o jogo). São inúmeras compilações cheias de clássicos e algumas até meio raras. Cata essa: http://www.discogs.com/Various-Grand-Theft-Auto-San-Andreas-Official-Soundtrack-Box-Set/release/480570