Entrevista: The Dandy Warhols
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Entrevista: The Dandy Warhols
Relançamento de disco com versões originais segue fim de contrato com major label
31.08.09 09:20
Quem ouviu sem aviso The Dandy Warhols Are Sound, o recém-lançado álbum do Dandy Warhols, pode ter pensado de primeira que pegou uma versão alternativa do açucarado Welcome to the Monkey House, de 2003. É quase isso. Sem cara de relançamento, o disco traz as versões originais de canções como "We Used to be Friends", "The Last High", "Rock Bottom e "Scientist", às vezes mais longas, psicodélicas e ousadas do que as já conhecidas. São as versões mixadas pela própria banda com o produtor Russel Elavedo que, negadas pela Capitol, acabaram chegando ao público com a cara exigida pela major: com roupagem synth-rock quase oitentista, não por acaso co-produzidas assinada pelo Nick Rhodes do Duran Duran. Hoje, com o contrato morto e enterrado, donos do próprio estúdio e selo, os Dandys encararam o desafio de mostrar as faixas como originalmente pretendidas diretamente para o público, via internet e nos shows.

The Dandy Warhols Are Sound
The Dandy Warhols Are Sound
Mesmo com canções gravadas pela banda em estúdio próprio, em 2003, The Dandy Are Sound não soa datado nem excessivamente autoral. Não é, claro, tão arrumadinho como o que o que foi lançado pela Capitol e pode dar a impressão de exigir alguma vontade do ouvinte. Mas é um disco de melodias agradáveis, cheio de detalhes, que deixa uma sensação de falsa crueza e que faz valer seu tempo de audição - que o digam os quase 2 minutos adicionados ao belo hit "You We're The Last Nigh", que apareceu em trilhas de filmes e séries de TV em 2004.

É difícil saber o quanto essas versões têm do que foi originalmente pretendido há 6 anos, mas os barulhos de bong em "I Am Over It", a levada mais lenta em "Scientist" (que tem um sample de "Fashion", do Bowie) e as nebulosas brincadeiras sonoras de "Pete Int'l Spaceport" dão sentido à descrição do vocalista e principal compositor da banda, Courtney Taylor-Taylor: "Existem duas formas diferentes de mixar um álbum: uma é bastante limpa e reluzente, e o Welcome to the Monkey House se encaixa nessa categoria. Are Sound, no entanto, é diferente, parece muito lo-fi e cru mas, na verdade, é extremamente preciso".
Esse é o tipo de jogada que uma banda confiante faz quando se encontra presa, por contrato, a um lançamento fora de seu controle. E que dá aos Dandys, banda de Portland que estourou mundialmente nos anos 90 com o hit "Not If You Were The Last Junkie on Earth", uma posição digna entre o rock independente norte-americano. Também não foi a primeira vez: em 1996, ao prepararem o primeiro disco para a Capitol, viram todo o trabalho ser negado e arquivado pela gravadora. Conformada, a banda gravou outro disco (…The Dandy Warhols Come Down, de 1997) com algumas das faixas retrabalhadas e passou a vender o original, que ficaria conhecido como Black Album, em shows. O disco ficou com status de item para fãs até começar a ser vendido pela própria banda em seu site, em 2004, e ganhar o mundo por via de redes de compartilhamento.

Em 2009, fora da gravadora onde estavam desde 1995, os Dandys são bem diferentes da banda que aceitou gravar o clipe constrangedor de "Not If You Were The Last Junkie On Earth" com direção do fotógrafo David LaChapelle para a Capitol e também tocou "Bohemian Like You" para enormes platéias no verão europeu. Existe uma sensação de equilíbrio artístico/comercial em Are Sound - para base de comparação, o Black Album que a gravadora não aceitou em 1997 exige ouvidos bem mais dispostos à experimentação e viagem. Essa segurança permeia a biografia da banda, esperta o suficiente para aproveitar um grande licenciamento ("Bohemian Like You" para Playstation 1 e Dreamcast, entre outros produtos) e montar seu estúdio, o Odditorium.

Donos do próprio nariz - e estudio e selo, o Beat the World - Courtney Taylor-Taylor Peter Holmström, Brent De Boer e Zia McCabe aproveitam agora a facilidade de vender álbuns diretamente ao público, mantém a tradição de tocar em jams no Odditoruim e administram o uso de suas canções em games, filmes e propagandas. Esses assuntos se juntam à questões como a imagem da banda no rockumentary DiG! e ao prazer de ouvir música fumando maconha na entrevista abaixo, que Zia, tecladista, percussionista e baixista dos Dandys, concedeu por email em julho passado, logo após o lançamento do disco.

Dandys, 1997


rraurl: O Are Sound foi lançado pela Capitol em uma versão com outro nome e mixagem e, anos depois, foi lançado por vocês em uma versão diferente. Foi um longo trabalho. Esse processo foi similar ao que aconteceu com o chamado Black Album?

Zia McCabe: O único ponto em comum é o fato de que os dois álbuns foram gravados enquanto estávamos assinados com a Capitol mas lançados por nós, os Dandy Warhols. O Black Album foi negado pela gravadora, então nós saímos em tour e voltamos para casa para gravar ... The Dandy Warhols Come Down, regravando algumas faixas. Depois que algum tempo passou nós ouvimos o Black Album de novo, decidimos que o disco era bom e começamos a vende-lo por nós mesmos, pelo nosso site e em shows.

Welcome to the Monkey House foi lançado pela Capitol, depois de ter sido mixado e masterizado por pessoas de escolha da gravadora, com nosso entendimento de que nós também lançaríamos nossa versão, que chamamos Are Sound. Isso, claro, nunca aconteceu. Então ele basicamente ficou arquivado numa prateleira até que nós saímos da Capitol e montamos nosso próprio selo, chamado Beat the World. É importante dizer que eu gosto de coisas dos dois álbuns, mas o "Are Sound" faz mais sentido quando você o ouve como uma progressão do nosso trabalho.


DiG!, de 2004, é um rockumentary sobre a relação de amor e ódio entre duas bandas de rock de Portland: o Brian Jonestown Massacre e os Dandy Warhols. Cobre oito anos da história dos personagens com foco nas personalidades dos band-leaders Anton Newcombe (do BJM) e Courtney Taylor-Taylor (do DW). Drogas, gigs, brigas, tours bem ou mal sucedidas e o processo criativo por trás das composições aparecem em poucos mais de duas horas, tiradas de 10.000 horas de filmagem. O filme é delicioso, não apenas para fãs e especialmente interessante para quem se importa com as dores e delícias da música independente. Se as faixas do Dandy Warhols presentes não apresentam grandes novidades, DiG! vale para aproximar o público do estranho e visceral BMJ, espécie de irmão mais velho e perturbado do DW. É inevitável sair procurando faixas da banda, sempre mutante sob comando do compositor e multi-instrumentista Newcombe, ainda hoje na ativa - se apresentou recentemente no Coachella. Entre os músicos que já fizeram escala no BJM está gente do Black Rebel Motorcycle Club, Gris Gris, Clean Prophets, Raveonettes e Spindrift.
O que você sentiram quando DiG, o filme, foi lançado? A banda foi bem representada no filme?

Eu senti na época, e ainda sinto hoje, que o filme é ótimo entretenimento para fãs de rock. Está provado que é bem difícil capturar a essência da música e dos músicos em documentários que mostram os bastidores. Então o fato de que um filme (e eu digo um filme, é mais filme do que documentário) sobre nós e o Brian Jonestown Massacre estar firme entre outros raros documentários de rock é muito legal. Mas o filme foi realista? Não, em muitas formas. Mas, hey, a [roteirista e diretora] Ondy tinha que tirar uma história de cerca de 10.000 horas de filmagem! Então ela nos transformou nos vilões superficiais em busca do sucesso e o BMJ como os artistas heróicos e torturados. É uma boa história, mas não é muito real. Nós eramos apenas jovens achando que estávamos fazendo parte de uma grande revolução, amando cada momento. Você pega alguns amigos, é pago em bebida, divide drogas com os fãs, passa muito tempo na estrada, quase não dorme. Tem algum drama e foi aí que a Ondi acertou. Eu fico feliz que nada disso tenha estragado nossa amizade, nós somos amigos próximos até hoje.

O fim do DiG mostra as bandas seguindo caminhos bem diferentes - os Dandys tocando em grandes festivais na Europa e o Brian Jonestown Massacre a ponto de desabar em definitivo. Em 2009 o cenário mostra vocês terminando contrato com uma grande gravadora e o BMJ tocando em grandes gigs como o Coachella. Como vocês vêem esses diferentes caminhos?

Eu acho que o DiG ajudou a carreira do BMJ, muito mais do que ajudou a nossa. Deu muito crédito a eles por mostrar essa atitude cheia de "foda-se" deles. Eu fico feliz por isso. Para nós, de várias formas, foi um contratempo. Nos mostrou como superficiais e loucos por sucesso. A falha do filme é que não mostrou nenhuma das bandas realmente fazendo música. Eu sei que ela tinha toneladas de filmagem, mas eu acho que mostrar isso não teria dado a ela um Grand Jury Prize no Sundance. Mas, de verdade, é só isso que acontece com as duas bandas: fazemos música e amamos. Queremos fazer isso pro resto da vida. Nossos caminhos não são tão diferentes assim e eu amo como eles se cruzam sempre. Anton está muito bem e a banda parece muito feliz. Nós todos somos independentes e entusiastas uns dos outros.

Zia
Zia
Qual é a história de vocês hoje com a Capitol? E como é trabalhar um selo independente como o Beat the World?

Bem, a Capitol foi na maior parte do tempo um grande bloqueio para nós, pelo menos em relação a divulgar os álbuns que gravamos enquanto estávamos lá. Mas tudo está tão no ar esses dias que todos, majors ou indies, estão tateando no escuro, tentando encontrar um modelo de negócios que funcione. A curva de aprendizado é íngreme e todo mundo esta cometendo erros, à direita e esquerda. Com sorte, e com a internet reportando tudo, nós poderemos aprender com os erros uns com os outros. Mas a melhor coisa de ter nosso próprio selo é que não temos mais que ouvir "não". Nós ficamos cansados de fazer esforço e não chegar a lugar nenhum. Pelo menos agora nós vemos os resultados dos nossos próprios esforços, mesmo quando os resultados não são os que esperamos. É duro não ter ninguém para culpar além de nós mesmos.

O Odditoruim
O Odditoruim
O que é o Odditorium?

É o nosso composto, nossa fábrica particular de rock'n'roll. Nós podemos ensaiar, fazer sessões de fotos, gravar música e vídeos, ter nossa equipe no local. Além disso, é super bem decorado e é um ótimo lugar para festas, tirando o fato de que tem equipamento caro por todo o lado. Nós tivemos a chance de montar um lugar espetacular e aproveitamos bem.

O Dandy Warhols quase veio para o Brasil em 2008, você lembra? O que aconteceu? Existe interesse por parte da banda para vir para uma tour na América do Sul?

Nós queremos tocar em todo o lugar, mas tem que existir investimento financeiro suficiente para levar a banda mais equipe e equipamento, com hotel e alimentação. Assim que tivermos um contrato, com dinheiro depositado por parte do promoter, nós compramos nossas passagens e vamos. Parece simples, mas de alguma forma um monte de merda sempre acontece e nós acabamos não indo. Mas acredite: nós realmente queremos ir para o Brasil, vamos continuar tentando.

A banda hoje vende sua música direto para o público, digitalmente. Qual é a posição de vocês em relação a fãs copiando e distribuindo sua música sem pagar? Os Dandys conseguem sobreviver somente das gigs? Que mais as bandas podem fazer para manter o dinheiro chegando?

Nós nunca vimos muita grana vindo das vendas de ingressos. Antes todo o dinheiro ia para a Capitol e agora, bem, ninguém está fazendo dinheiro com venda de discos. Tours também nunca foram são uma grande fonte de receita. Na verdade nós quase sempre ganhamos dinheiro por meio de licenciamentos: filmes, comerciais, programas de TV. Sou muito grata por isso.

O som do Dandy Warhols é normalmente descrito por termos que vão de "indie" a "artsy". Aual seria uma tag adequada para o som que os Dandys gravam hoje?

Amiga, essa é uma questão que cada ouvinte tem que responder sozinho. Eu posso sugerir um bom par de fones de ouvido e um baseado. Sente-se, relaxe e venha com a descrição que inventar. Apenas ouça e divirta-se.
MP3
Flash Content
The Dandy Warhols - Heavenly (mp3)

Flash Content
The Dandy Warhols - I Am Over It (mp3)

Flash Content
The Dandy Warhols - Plan A (mp3)

Flash Content
The Dandy Warhols - The Last High (mp3)


Gaía Passarelli
Gaía Passarelli
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comentários
5 comentários
roseven
roseven(02.09.09)
1AprovadoQueima
eu AMO os Dandys
Maurício
Maurício(01.09.09)
1AprovadoQueima
realmente as versões do are sound são melhores, menos fácies.
boa entrevista!
Rogério Brandão
1AprovadoQueima
eu ODEIO os últimos 2 álbuns deles com todas as minhas forças, apesar de gostar muito de "All the Money...", do "Odditoum or Warlords of Mars". pra mim, o Dandy é uma banda indie pride que se recusa a desabrochar pro mainstream. ou talvez tenha sido uma banda superestimada mesmo.

conheci eles no Monkey House e, por mais que tenha falhas, há várias músicas divertidas nele. o anterior a este também é bem bacana. eu pirava quando tocavam "Bohemian Like You" ou "We Used To Be Friends" na Popscene, em Santos.
Fabio Spavieri
Fabio Spavieri(31.08.09)
2AprovadoQueima
eu adoro dandy w.
Psycho
Psycho(31.08.09)
2AprovadoQueima
Sempre soube que havia algo muito errado em Welcome do The Monkey House. Eu sei q bandas amadurecem, evoluem, etc, mas aquilo ali tava muito rebocado e botocado.