Entrevista: Halley Seidel
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Entrevista: Halley Seidel
Quando techno e história se misturam
06.08.09 08:20
Muitos anos se passaram desde que o techno se instaurou no universo musical. O gênero, que teve grande auge em clubs mundo afora, atualmente se glamouriza, se acalma - mas continua pedindo passagem. Os adeptos do bate-estaca dos anos 90 deram lugar a uma versão mais matemática em facetas minimalistas e calmas. Enquanto isso, escondidos no escuro da pista, estão os seguidores impassivos, felizes e marchantes na cadência de seus 140/150 BPMs, incólumes em sua obscuridade, tendo o techno como religião. É nesse contexto que conversamos com o DJ/produtor Halley Seidel, um dos pioneiros e entusiastas do gênero no Rio de Janeiro.

O produtor brasileiro acabou de lançar o EP "It's Not Over" pela UD2 Brazil Records. Tem no currículo 19 EPs em 20 anos de carreira - dos quais 10 são dedicados à música eletrônica. Parte dessa história encontra a do Brazilian Underground Movement - o BUM - coletivo pioneiro na ligação entre música eletrônica e trabalho social.

O BUM nasceu na periferia do Rio de Janeiro 1994, com a intenção principal de divulgar a música eletrônica em comunidades carentes, propondo a cultura como agente na solução de suas suas dificuldades. Baseado na Baixada Fluminense, o BUM foi muito relevante para a música eletrônica brasileira, mesmo sem o devido reconhecimento comercial. E é assim que começa esse bate-papo, que nos leva da Baixada até Berlim, do techno à Polysom, dos vinis aos digital plates.

rraurl: Como foi o nascimento do BUM?
Halley: O BUM nasceu da proposta de levar música alternativa para bairros onde os sons predominantes eram pagode e funk carioca. Tudo começou na Boate El templo, em 1994, onde o DJ Péricles era residende [Péricles Sodré, vítima de um aneurisma cerebral, faleceu em 2001]. A noite era regada ao som de artistas como Moby, 808 State, Chanel X.... tinha uma proposta underground e não deixava à desejar no repertório. Em 1995 o club acabou, deixando um legado de fãs. Aí nascia o BUM, com um idéia inovadora para a periferia e zona norte do Rio e com uma proposta social. Em todas as festas era cobrado 1 kg de alimento. Chegamos a arrecadar meia tonelada em nossos eventos! Era a idéia dos fundadores: Péricles, Lucia, Arthur e Marcos Pina.

Para você, como foi fazer parte do coletivo? E como surgiu a parceria com o Pragatecno (coletivo de disseminação da música eletrônica no Nordeste)
Para mim o BUM nunca morreu! É uma honra fazer parte deste movimento, que deu origem a núcleos como Pragatecno. Tínhamos muito em comum! Esse elo do BUM e Pragatecno era antigo. O Praga era o BUM no Nordeste do país, era o que o Péricles dizia. Uma estavamos na sala de sua antiga casa ouvindo ele contar a experiência de ter tocado numas das festas do grupo nordestino. Ele afirmava que cada integrante do Praga lembrava o jeito, tinha as características e som iguais aos DJs do BUM. O Praga já tinha várias ramificações pelo Nordeste do país, como Cotonete (PE) Undergroove (CE), Oversonic... Assim, o Péricles e o Cláudio Manoel Duarte, líderes dos núcleos, criaram o Pragatecno-RJ, me chamando para cuidar dos interesses do mesmo. Hoje, o núcleo Pragatecno-RJ não existe mais, mas o contato entre BUM e Pragatecno ainda existe.

Como você reagiu à morte do Péricles, em 2001? E como foi esse impacto no BUM?
Perdi um braço. Péricles foi um pai para mim, ele era o pilar do grupo! Aprendi muita coisa com ele. Uma cara que tinha visão. Sua morte foi repentina, não esperávamos. O grupo estava preparado para um reconhecimento, com lançamentos de discos e festas por todo o país. O Péricles faleceu na mesma semana da festa de lançamento do seu selo e do vinil em conjunto com o Ramilson Maia. O Ramilson e o Péricles eram amigos de longa data, estavam lançando o selo Ramper (sigla de junção de seus nomes. Ele faleceu há quase dez anos e muitos dos frequentadores de raves, festas, clubs não sabem de sua existência e do seu legado. Ele sempre fará falta.

Alguns consideram o techno como um cenário estagnado no Brasil. Como você reage a este pensamento?
Bem, existe uma resistência de pessoas, que são poucas mas perseverantes. Sinto-me confortado a cada evento que toco no Rio de Janeiro, pois faço o meu som, que é bem aceito em cada ocasião. O ''macete'', se assim posso dizer, é baixar o BPM, para ter maior aceitação por partes das pessoas. Apesar do psy trance ter iniciado muitos adeptos na eletrônica e ter uma velocidade elevada, o techno não tem a mesma aceitação com BPM em 140, 150, por aí. O techno sempre teve os olhos no underground, é um som sujo, minimalista, de teclados ácidos, que pode assustar novos "clientes" (risos). Há bons produtores no momento, o techno está com uma nova cara, mas sempre focada no underground. O techno sempre foi soberano em se firmar sobre as dificuldades mutantes do cotidiano. As festas estão indo bem, obrigado! No Rio, temos a Club UB (Club Underground Brasil) festa pioneira, uma ramificação de festa criada pelo BUM, que além de programa de rádio na web, tem edição mensal de festas. Há ainda amigos que fazem sua parte, como o DJ carioca Luck Veloso, que eventualmente utiliza em seu programa de rádio Vibe Web na Estácio Radio Site para difundir novos sons eletrônicos. Há muitas pessoas querendo que a cena esteja sempre em alta.  O grande problema da cena techno no Rio é o ego dos seus comandantes e comandados, que se acham melhor que o público.

Como foi ir pra a Alemanha em turnê própria? E tocar no Tresor, grande sonho de muito DJ de techno por aí?
Não sei nem por onde começar, mas confesso que foi uma experiência ímpar. Eu senti uma coisa que não sentia há muito tempo na cena carioca: a essência! A Tresor é o templo do techno, como o Underground Resistance. Como no Pragatecno e no BUM, todos levam a música muito a sério. Normalmente pensam que eu fui com cara e coragem, mas na verdade fui sem pagar um tostão do meu bolso. Meu namoro com a Tresor é antigo... O Max, gerente do club e um dos integrantes do Recyvers Dogs, junto com o Steve Dee sempre me perguntavam quando eu iria ao Tresor?! Minha tour foi confirmada pelo amigo DJ AJ Crypt, mentor da Rio Parade, em uma data na Suíça. Me apresentei em duas oportunidades no Tresor. Na segunda comemorei o meu aniversário.

E essa história de ser representante da Tresor no Brasil?
Essa é uma história que poucos conhecem, mas é verdade! O mérito foi dado pelo próprio dono do club, o Dimitri, que conheci na noite do meu aniversário. Ficamos conversando por quase uma hora e ao final ele marcou um segundo encontro. Foi em 01/01/2008, quando eu completei 33 anos. Tenho o Ralph (Ballchull, um dos residentes do Tresor) como testemunha. Ele estava conosco. Tínhamos um almoço para formalizar tudo, mas não chegamos a nos reunir, infelizmente, pois na mesma semana o Dimitri teve problemas de saúde. Quem sabe esse almoço formal não aconteça em dezembro, quando faço a minha segunda tour em Berlim?

Você recentemente lançou um EP, o "It's Not Over EP." Com este, quantos lançamentos você têm exatamente? E o título é mesmo um desabafo em cima da polêmica da morte/não morte do techno?
Esse é o 19º disco! "It's Not Over" é uma frase forte, por isso decidi colocar para impactar e conquistar quem ouve techno. Não seria um desabafo e, sim, uma iniciativa entre muitas outras - que não só eu, mas milhares de militantes do gênero usam para demonstrar que o techno está vivo. E não para por aí, já tenho convite para lançar um álbum pelo selo Cause, do PET Duo. Aguarde!

Quando você produz, que softwares usa? Você usa maquinário analógico? E a discotecagem?
Uso Cubase e equipamento analógico também. Tenho uma W30 da Roland, hackeada para controlar o PC, tenho um controlador MIDI Axiom 25 da M-audio e uma TR-808 da Roland, aquisição recente em um brechó! Ah, e uma mesa analógica da Yamaha com 12 canais, série alemã. Dá pra brincar! (risos). Eu sempre toquei com vinil e ainda toco. Uso CDs para tocar as minhas produções e a de amigos. Infelizmente, não estamos preparados para produzir as "velhas bolachas." Mas estou juntando uma grana para comprar um Serato. Procuro sempre testar novas faixas nas pistas, ou na webradio, junto com o amigo, o DJ 4S0 a www.djlabradio.com. Vinil sempre será a melhor mídia!

Por fim, indique as faixas que, ainda hoje mexem contigo?
DJ Rolando - Jaguar (Underground Resistance Remix)
Hardfloor Will Survive (Chris Liebing & Andrew Wooden Remix)
Inner City - Big Fun
Tresor 06 - It's Not Over!
Derrick May - Rhythm Is Rhythm


Catarina Liarth
Catarina Liarth
A vida é feita de altos-e-baixos...
comentários
7 comentários
romulo sousa
romulo sousa(23.11.09)
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2- As noites alternativas aconteciam no EL TEMPLO com o DJ Péricles que por sinal tive o prazer de conhecê-lo e auxiliá-lo na criação do projeto BUM juntamente com Arthur. Aos sábados deliciávamos com a mistura harmônica de som que ia do Cluber (hoje House Music), Italo (Tecnho Italiano com vocal), Tecnho em versões americanas e alemão indo ao Bacallao (Ibiza Techno), Deeper e um pouco de RS ( hoje chamada de Trance). Tudo isto sem as drogas que temos hoje mas somente com muita cerveja e vodka. Diversão, beijo na boca e boa música era o que não faltava no extinto EL TEMPLO.
romulo sousa
romulo sousa(23.11.09)
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Elucidando alguns fatos:
1- o Projeto BUM nasceu com o objetivo de levar as FESTAS, hoje conhecidas como RAVES, para o subúrbio carioca. Nesta época de 1995 estava em voga o Mercado Mundo Mix na Fundição Progresso a qual tinha em sequência de suas edições a tão famosa VAL DEMENTE. Depois separada pelos produtores como Val e XDemente. O primeiro evento ocorreu em Olaria na extinta Boate Kremilin e a segunda foi em um Restaurante em Cascadura. O Nosso objetivo era de pegar locações inusitadas para a realização do evento. Assim na terceira edição, como o público de maior acesso vinha da baixada fluminense, precisamente de Nova Iguaçú as edições subsequentes aconteceram nesta região.
Benjamin Ferreira
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faço minhas as palavras de todos aí embaixo que, como eu, admiram pencas esse moço aí. o conheci através do péricles, amigo que faz muita falta mas que tá em outro plano olhando por nós.

keep on, bro! :)
Adrean Mitt
Adrean Mitt(07.08.09)
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Pow, o cara é gente fina demais, batalhador e carrega em si um negocio chamado conceito.
Sucesso mais que merecido e mais que demorado, tenho em você uma grande inspiração para continuarmos neste mundo eletrônico da musica, abraço amigo, felicidades.
Sabe aquele lance de musica eletronica aqui no Rio?????
pow cara é coisa de viado!!!!!!
é foi assim , desta época que eu ja curtia o som do halley na baixada,sai do suburbio pra baixada pra ouvir a B.U.M.
Saldoso dj de tecno Halley hoje sou amigo e continuo fã deste cara.
Halley isso aqui é apenas uma pequena parte do q vc realmente merece na cena dj.
Sucesso pra vc , pq respeito vc já tem de sobra grande amigo!!!!