"Eu me lembro quando o jungle era underground e que havia um tipo de alma naquilo, logo no começo. Então uma pessoa assinou com um selo, e com outro, e com mais um, e aí a coisa desandou. Eu percebi esse mesmo padrão aperecendo toda a vez que algo novo surgia. A música ficaria muito comercial e fraca, sem culhão. Para mim, a música, do electro em diante, sempre teve que ter culhão."
Duas décadas depois de ajudar a inventar o acid house com o hit "Voodoo Ray" (e também o drum'n'bass),
Gerald Simpson aka Guy Called Gerald admite que mantém a paixão pela música. "Nós começamos como dançarinos, eu procurava música só para dançar, não porque estivesse seguindo alguma moda. Pra gente, não havia nada além da dança. Antigamente nós realmente precisávamos de uma música ativa, com poder pra dançar bastante."
Crescendo na vizinhança mais barra-pesada de Manchester (
Moss Side), ele também teve que lidar com o desemprego em massa que abalou muitos dos subúrbios ingleses nos anos 80, desenvolvendo uma desconfiança da cobiça, típica dos mancunianos dos primórdios da cena raver. "Parece que sempre que o dinheiro entra na equação os aspectos ficam obscuros, eu nunca realmente consegui entender o porquê.".

Hoje, na altura de seus 40 anos, Gerald fala com o
rraurl na semi-escuridão do seu estúdio em Berlim, no primeiro andar de um lendário espaço para artes chamado
Taschelles. Galpão labiríntico de estúdios, lojas e stalls, ligados por escadas grafitadas, o complexo é um dos últimos exemplares da era dos
squats da Berlim Central, e ainda que o prédio seja um pouco intimidador, está recheado de rostos amigos. Perguntando por onde ficava o estúdio de Gerald, caí de sorrisos no rosto tatuado do funcionário de uma loja, enquanto o gerente de um sex shop aponta para uma porta com outro sorriso.
Ao bater, no entando, nenhuma resposta. Uma ligação de celular, e a porta se abre e revela Gerald, meio sem graça de admitir que ele nunca abre a porta para batidas desconhecidas. Entrando, ele coloca a agulha em um disco clássico e senta confortavelmente na sua poltrona.
Flash Content
A Guy Called Gerald - Voodoo Ray (mp3)
Começando com onde você está musicalmente, no seu MySpace você lista techno, house e ambient como seus três estilos de escolha, sem nenhuma menção ao drum'n'bass. O que te entusiasma hoje em dia?Eu tenho experimentado com muitos estilos diferentes ultimamente, mas para
gigs em clubs em normalmente toco house e algumas coisas que pendem para o techno. Eu tenho feito muitos sets ao vivo e de estilos mais quebrados. Eu escondo surpresas dentro dos sets, já que eu não tenho restrições a tocar faixas incompletas. Pra isso uso o Ableton Live, mas gosto de pensar que meus sets são mais orgânicos porque não levo montes de loops pré-gravados.
Tenho ainda um keyboard onde solto alguns riffs, então eu estou realmente tocando ao vivo e sequenciando. Eu toco
dirty, bassy e groovy com algumas pitadas de acid e algumas coisas mais novas.
A mídia está cheia de estórias de músicos que vivem mais de apresentações do que da venda de música. Você está nesta posição?Eu ainda tenho um distribuidor com quem trabalho e, como muitos distribuidores hoje em dia, ele está tentando ter os direitos das minhas músicas - mas eu não estou dando isso a ele. E ao mesmo tempo os direitos de todo o material que eu publiquei ao longos dos últimos 20 anos estão, aos poucos, voltando para minhas mãos. Então eu detenho todos os
royalties sobre as minhas músicas.
Ainda tenho as masters das gravações originais de quase tudo que criei. No momento estou concentrado em digitalizar minhas coisas mais antigas e colocar no website que eu chamo de "
I Think Music", que é basicamente uma loja onde você pode vender suas coisas. É um pouco mais amigável com o artista do que o iTunes ou o Beatport.
Antigamente eu costumava sonhar com levar minha música a quantas pessoas fosse possível, mas com o tempo isso fica para trás nessa cultura de dubplates onde os DJs fazem a linha de 'eu tenho essa faixa, ninguém mais pode tê-la'. Isso também veio da necessidade. Eu podia bancar a prensagem de apenas 500 cópias das primeiras músicas que fiz, e era realmente muito difícil distribuir. Como o álbum Black Secret Technology: uma certa quantidade foi prensada, mas de alguma forma isso tinha que se espalhar globalmente. Coisas assim fazem você sonhar com uma loja onde você possa controlar sua própria música.
Sobre grana, eu me senti prejudicado nos primeiros cinco anos, com a situação do 808 State e com o Voodoo Ray. Mas eu fui paciente e também tive muita sorte. Sei de muitos artistas que não continuaram, talvez seus sonhos não fossem a música. Para mim sempre foi a música. Então eu não posso dizer que eu prejudicado sim. E eu estou bastante confortável.
live @ DEMF 2007 (Detroit)

Como você vê "Voodoo Ray", 20 anos depois?Às vezes as pessoas me dizem 'você teve aquele grande sucesso', e eu penso que é incrível como 20 anos depois as pessoas ainda lembram de uma faixa underground que foi parar nos charts. Se você olhar para minhas entrevistas daquela época, eu não estaria falando que Detroit e Chicago eram minhas principais influênias, eu estava falando de seguir Stock, Aitken e Waterman. Eles estavam fazendo os grandes hits quando nossa música era underground. Então algumas pessoas decidiram que que poderiam fazer algum dinheiro disso e tiraram da sombras para transformar em algo. Mas isso não significa que as pessoas que criaram as raízes disso tenham algo a ver com 'música pop' (
diz, com certo desdém).
Você fez bastante dinheiro com "Voodoo Ray"?Um pouco, sim. Principalmente agora com
royalties, e tenho alguns contratos de licenciamento. A Ministry Of Sound continua fazendo esses contratos pela faixa, eu não sei porque... (risos) Sempre falo pra eles que tenho um monte de outras faixas, que se eles quiserem é só me dizer. Dou essa opção.
Como você acabou assinando com uma major?Foi uma decisão em parte gerencial. Na época o
Tony Wilson (chefe da Factory Records) estava planejando começar um selo dance chamado Dance Factory e eu estava realmente interessado, porque era um selo indie que parecia seguir uma rota firme, com o New Order e o Hacienda. Mas minha representação na época ficava em Londres, e eles estavam falando com a Warner e a Sony e pessoas assim, então eu realmente comprei a história do selo, de que eles eram uma máquina maior e poderiam levar minha música
Eu era bem teimoso na época, porque eles queriam que eu fizesse todo o tipo de coisa que eu não queria. O jeito que eles queriam me promover era totalmente diferente do que eu pensava sobre promoção. Fiz uma tour americana e eles não botaram muita confiança nessa empreitada. Mas aí nos acertamos e eles entraram no meio da turnê, o que foi bom, na verdade. Mas em termos de promo, eu nunca fiz o (legendário programa inglês)
Top of The Pops, por exemplo. Não me arrependo de não ter aceitado o convite.
Realmente sinto que estive underground em todos esses 20 anos com música.
O vídeo: DANCE music
Da mesma época acrescento nas "melhores de todos os tempos": "Good Life", "Beat Dis", "Theme From S'Express" e "Pump Up The Volume", todas que conheci via Stiletto no Brasil - ô época boa, descobertas e novidades a mil, estilos de fundindo e se recriando e nada do sectarismo que rola tanto hj em dia no meio eletrônico, mesmo com tanta coisa boa rolando atualmente. Tudo bem, admito que bateu uma nostalgia do caralho...