Top DJ francês reafirma seu valor, celebra a busca pela satisfação musical e não entende críticas a seu novo disco
"Paris sempre foi uma cidade mais orientada ao glitter e ao dinheiro do que à real essência da música. O rock & roll e o jazz sempre foram grandes, mas no que diz respeito ao techno, fora três ou quatro lugares underground, a cidade é vazia. A noite noturna por lá é mais sobre ter modelos e as pessoas certas da moda no clube do que estar rolando boa música e pessoas alucinadas com isso."
Vinte anos depois de se estabelecer como o primeiro DJ superstar da França, Laurent Garnier segue como uma das figuras mais opinativas e falantes da cultura dance, comentando tanto sobre suas origens quanto a cultura de celebridade que invadiu a clubelândia. "Paris Hilton? Eu acho que ela é a piada mais ridícula que existe! Apenas uma
partygirl cheia de dinheiro.", exemplifica o DJ.
Frustração com o feedback mediano de seu novo álbum em terras inglesas

Famoso por seus sets-maratona (seu mínimo hoje em dia tem sido de 6 horas) ele também é celebrado por dar conta de várias possibilidades musicais, de jazz old school, hip hop e o Detroit techno, tendências que ele aplicou precisamente em seu recém-lançado álbum
Tales Of a Kleptomaniac (
4.3 de 5 no rraurl.com). Apesar de a definição comum da cleptomania relatar um "incontrolável impulso para roubar", e o próprio Laurent classificar DJs como os "maiores cleptomaníacos da Terra", o francês é rápido em absolver qualquer conotação negativa que o álbum possa sugerir. "Sei que é uma patologia, e é por isso que juntei à palavra
tale (conto, história)", ele explica.
Isso significa que Laurent embarcou em alguns pequenos furtos quando jovem? "Não roubava em pequenas lojas, não era tão moleque assim", ele confessa, "apesar de que eu fazia outras coisas estúpidas de adolescente".
Flash Content
Laurent Garnier - Gnanmankoudji (Horny Monster Mix) (mp3)
TRAJETÓRIA E CRÍTICASMudando de Paris para a Inglaterra aos 16 anos para trabalhar como garçom na Embaixada Francesa, ele acabou em Manchester em 1986, época em que a acid house explodia. Lá tornou-se um dos primeiros DJs renomados do Hacienda (como DJ Pedro), ele retornou à França para terminar obrigações militares e consolidou-se à frente dos
decks, sem olhar para trás. Vinte anos depois, ele se tornou um aguçado anglófilo, apesar de admitir a frustração com a recepção dúbia que seu novo álbum recebeu da imprensa britânica. "Fiz toneladas de entrevistas para a França, Austrália, Bélgica, Holanda, todo lugar. Mas para a Inglaterra rolou apenas para três ou quatro sites, nada mais que isso. As revistas não quiseram falar comigo porque eles não entenderam o álbum", reclama.
"Como meu álbum pode ser criticado por 'sem sentido' quando ele é diretamente relacionado às raízes da música? Posso entender que alguém não goste do disco, mas não engulo falta de conhecimento da dance music. Quando você é jornalista, precisa saber sobre música. "Talvez haja muita música na Inglaterra. Eles amam categorizar as coisas e o disco não cabe em nenhuma categoria específica. Sinto muito, mas não quero fazer como todo mundo."
Clipe de "Pay TV", novíssimo single de Laurent, o cleptomaníacoVocê é um perfeccionista no estúdio?Nunca estou satisfeito. Preciso que alguém (o selo, por exemplo) chegue e diga 'agora calado, você passa o álbum e não toca mais nele!'. 80% do disco foi feito ano passado, mas dois dias antes de queimá-lo eu mudei uma faixa. Quanto mais eu mergulho na produção mais difícil fica de eu me satisfazer - o que eu acho ser uma boa coisa.
Para mim a coisa mais importante sobre a música é o prazer que ela me dá, aquele sentimento bruto inicial. A música é algo primário, goste você ou não. Por isso eu lanço estilos diferentes de música. A primeira coisa que pondero é 'estou sendo confiante e honesto com essa faixa, ou estou apenas tentando fazer dinheiro?'.
É um título realmente incomum, porque chamá-lo de Tales of a Kleptomaniac?Eu gosto de títulos estranhos, o último álbum por exemplo era
Cloud Making Machine ("Fábrica de Fazer Nuvens"). Como DJ, a coisa estranha sobre isso é que sempre estamos contando histórias de quem somos ao tocar pequenos trechos da música dos outros. Quando você dá conta de que sua faixa própria pertence a você, seu mundo e suas adjacências, os DJs remodelam-nas e criam todo um novo significado para elas.
Então DJs são os maiores cleptomaníacos da Terra. É basicamente o mesmo quando você cria música, não conheço nenhuma banda que não seja influenciada por outras. Posso te apontar facilmente a influência de cada faixa e de onde elas vêm. Não digo que isto é roubo. As pessoas não jogam as coisas fora, elas apenas reutilizam, reciclam.
Houve períodos em sua carreira que se cansou da música?Sou sortudo por ter participado de vários projtos diferentes. Começar a produzir foi um bom passo, por exemplo. Quando fiz
Cloud Making Machine muitas pessoas não entenderam, mas eu sabia onde queria chegar com aquilo, queria começar a trabalhar com cinema, a fazer música para filmes e dançarinos contemporâneos e esse disco me permitiu isso - estou trabalhando agora com dois dos mais famosos coreógrafos franceses, e vou trabalhar num filme ano que vem.
Também tive o cuidado de não fazer muitas
gigs em busca de dinheiro. Assim eu fico faminto para tocar e sempre detono a pista. Tocar para as pessoas é um tipo de droga, e quero manter dessa maneira: excitante.
Um leão por dia: a árdua tarefa de pescar boas faixas entre tantos lançamentos

Numa entrevista recente você mencionou que dez anos atrás todo mundo pensou que o techno estava morrendo...Sim, engraçado quando você repara na quantidade de discos de techno saindo hoje. Na Alemanha eles estão em toda a parte, mesmo na França com toda essa coisa new rave. Não acredito que alguém teria pensado que o techno estaria tão saudável 20 anos depois, mas é o que acontece.
Olhando sua carreira superficialmente nota-se que você fez sucesso ano a ano. Quais são as coisas que você mais se arrepende, as oportunidades que não queria ter perdido?Há um par de faixas que, refletindo, eu não devia ter lançado pois elas não eram sérias o suficiente, talvez no começo da minha carreira. Eu trabalhei com
Jean-Michel Jarre e isso foi um grande erro, nunca devia ter feito porque ele não era um cara bacana. A coisa boa é que esse projeto nunca saiu.
Não posso me arrepender do que fiz com a F Com, ou com nenhum dos álbums que lancei por que eu sei porque fiz cada uma dessas coisas. Sei que sou meio chato e falo demais, mas ao final do dia só quero ensinar a ser honesto - então tenho que ser honesto também. Nunca senti ter vendido minha alma ao diabo, e quando toquei em festas comerciais sempre pensava 'talvez eu consiga abrir a cabeça de dez ou vinte pessoas aqui'.
Há milhares de lançamentos toda semana, como você avalia a qualidade geral deles?Recebo em média mil por semana e muitos são bons. A coisa louca é que as faixas de péssima qualidade praticamente desapareceram. Claro, ainda tem muita coisa cafona por aí, mas mesmo estas são bem produzidas e conquistam a simpatia em algum lugar. Não tenho nada contra música comercial, apenas não é minha coisa e eu não a defendo, mas não tenho problemas. O engraçado hoje é que a tecnologia significou qualidade musical num nível geral.
São tantas faixas próximas de serem muito boas que é dificílimo selecionar. Muitas faixas hoje eu teria tocado há 15 anos atrás, mas não agora. É difícil escolher as melhores coisas.
"Boa música é uma viagem estritamente pessoal. Não tem receita"

Que conselho ou dica você daria a um jovem produtor tentando ser notado no meio de todos esses releases?(Suspirando) Eu não tenho uma solução pra isso. É a mesma situação para mim. Às vezes faço uma faixa que não lanço, mas mando para 20 amigos, bons DJs, e recebo um feedback - nesses casos 15 dos 20 me dizem que mudariam algo. Então há uma boa saída? Não creio. Mandei uma faixa semana passada para amigos e só agora estou recebendo o feedback. Um disse 'oh, o kick não está alto o suficiente', outro disse 'o break não é bom o suficiente', e aí o terceiro diz 'o break é ótimo, gostei muito, mas você deveria soltar a voz depois dele.'
Se for consultar todo mundo, você nunca lançará nada. Meu conselho então é: faça sua track o melhor possível, e não ouça sugestões de outros artistas.
Do your thing. Se você não agrada o seu vizinho, talvez dá para agradar o vizinho do seu vizinho. Não precisa saciar todo mundo, e você nem deve tentar tal coisa - isso é um grande erro. E não há razão para soar necessariamente fresco e novo, tem que cair bem aos ouvidos; isso é tudo.
O que é boa música? Eu não sei. É uma viagem estritamente pessoal, não tem receita ou coisa do tipo.
Como você considera as festas VIPs, de celebridades. Costuma tocar em muitas?Não, nunca, eu não quero. Não é minha coisa. Eu já fui até chamado pelo (jogador de futebol)
Thierry Henry para tocar numa festa e eu disse 'não'. Porque o que eu ia fazer? Gosto de criar histórias com a música e não vejo que possa fazer isso em festas como essas. Preciso me expressar, nunca fiz pelo dinheiro, mas sempre pelo amor à música. Então, não. Já fui até chamado para tocar numa festa do Festival de Cannes, e eu não topei.
Ele pode , pode tudo...O mínimo que podemos fazer é respeita-lo , por toda está bagagem e conhecimento que ele trouxe e continua trazendo para a cena mundial !!!
Always Laurent !
com certeza o disco é sensacional!
é muito amor e conhecimento junto..e isso conta muito!