Mostra passou por Rio e Brasília e fica em São Paulo até 05/07.
O
Centro Cultural Banco do Brasil está trazendo ao país, como parte da programação do ano da França no Brasil,
a mostra mais completa já vista por aqui do artista audiovisual francês Chris Marker. Com o nome "Chris Marker: Bricoleur Multimídia", já passou por Rio de Janeiro e Brasília chega agora a São Paulo, onde fica em cartaz até 05/07.
Chris Marker é um cineasta multimídia desde quando este termo não era difundido. Iniciou sua excepcional carreira há mais de 50 anos, sempre utilizando meios como filme, vídeo, fotos, séries para a TV, instalações, cd-rom, espaços virtuais na internet, ele é um verdadeiro inovador no uso de imagens. Sua especialidade são os documentários, dos quais também é roteirista, espécie de ensaios com narrativa pouco tradicional, baseada na utilização de elementos como narrações em off e fotomontagens. Sua carreira começou em 1953 como assistente de Alain Resnais (o cineasta de
O Ano Passado em Mariembad e
Hiroshima, Meu Amor) no documentário
Night and Fog, sobre os campos de concentração nazistas.
Um dos destaques da mostra no CCBB é seu trabalho mais conhecido e admirado,
La Jetée (que em tradução para o português seria um tipo de plataforma para pouso de aviões). Realizado em 1962, tem 28 minutos de duração e é todo realizado em fotos, resultando no um casamento perfeito entre imagem e som, ainda hoje muito interessante e atual. O filme é sobre como uma imagem pode marcar uma vida e mostra um personagem, já adulto, sofrendo uma regressão e lembrando perfeitamente de uma imagem de mulher e de um assassinato ocorrido numa plataforma do aeroporto parisiense de Orly. Desdobrando a imagem em vários significados e mostrando acontecimentos - ele passa a conhecer esta mulher, se apaixona por ela, mas o mundo está numa terceira guerra mundial, Paris (onde se passa o filme) está destruída, há poucos sobreviventes - Chris Marker consegue nos conduzir por este mundo caótico de forma poética, na única obra totalmente ficcional do cineasta.
Outro filme de destaque em "Chris Marker - Bricoleur multimídia" é o documentário
One Day in the life of Andrei Arsenevich ("Um dia na vida de Andrei Arsenevich"), que mostra os últimos dias de vida do grande cineasta russo
Andrei Tarkovsky, realizador de célebres filmes como a versão original de
Solaris (
refilmada em 2003 com George Clooney no elenco). O filme mostra enorme sensibilidade ao acompanhar o cineasta em seu leito de morte, perdendo a batalha contra um tumor, e mostra o reencontro de Tarkovsky com seu filho após uma separação de cinco anos imposta pela burocracia soviética. Marker realiza uma delicada homenagem ao cinema na figura do mestre Tarkovsky, expondo a ligação com a pintura e a constante utilização dos elementos ar, água, fogo e terra em todos os seus filmes, além de passar uma idéia do sistema de trabalho do genial cineasta. O documentário desfila imagens de seus filmes mais importantes - como
Nostalgia,
Andrei Rublev,
O Espelho,
Stalker - mostrando inclusive cenas dos bastidores de seu último filme,
O Sacrifício, como o diretor deitado em sua cama vendo o primeiro copião ou dando instruções a sua equipe, que inclui os grandes
Sven Nykvist (diretor de fotografia de filmes de Ingmar Bergman) e
Erland Josephson (ator de filmes como
Cenas de um Casamento):
Para os brasileiros o mais interessante são dois episódios da série "On vous parle du..." que Chris Marker realizou para uma rede de televisão francesa.
On vous parle duBrésil: Tortures de 1969, sobre os casos de tortura de presos políticos na época da ditadura militar. É chocante se deparar com os depoimentos dos torturados, relatos e imagens das próprias vítimas explicando métodos e lembrando os choques elétricos e outros momentos de horror real. Logo após os depoimentos de ativistas políticos o programa continua com
On vous parle du Brésil: Carlos Marighela.
Carlos Marighela foi um dos grandes oponentes ao regime militar e o filme reconstrói sua trajetória, que permanece esquecida pelos livros de história. O filme mostra o assassinato de Marighela e os métodos violentos usados pelo esquadrão da morte chefiado pelo delegado Sérgio Fleury, sempre com imagens marcantes da época: passeatas, revoltas estudantis e momentos de violência que marcaram o Brasil, tornando a imagem do país bastante abalada em relação a direitos humanos e do cidadão. Essencial para quem só conhece através de filmes de ficção e minisséries a história recente do Brasil -
ou para a Folha de São Paulo e sua "ditabranda". Outro destaque vai para
o programa sobre o Chile, mostrado através de uma brilhante entrevista com o então presidente eleito
Salvador Allende em 1973 - poucos meses antes de ser assassinado pelo governo militar. Esta entrevista é conduzida pelo jornalista
Régis Debray e por ela conhecemos melhor a figura histórica de Allende e as tensões pelas quais passaram vários países sul-americanos no período.
Também é imperdível o filme
Sans Soleil de 1982, espécie de diário de viagem a diferentes pontos do mundo na forma de ensaio sobre lembranças e tempo, com mais de uma hora de duração. Num dos segmentos, sobre São Francisco, Chris Marker faz um paralelo de suas experiências com a cidade e o filme
Um Corpo que Cai. Em outro momento o narrador se pergunta qual é a função do lembrar. O filme é uma colagem, passeios em lugares inesperados, sensações, um diário pessoal do cineasta:
No total a mostra exibe mais de 30 obras, entre curtas e média metragens, vídeos e ensaios de Chris Marker. Outros destaques são
A.K. Retrato de Akira Kurosawa (sobre a realização de "Ran", um dos últmos filmes do cineasta japonês),
A Lembrança de um Porvir (composto apenas por fotografias),
A Embaixada (falso documentário e parábola política sobre a invasão de uma embaixada, baseado no ocorrido no Chile em 1973),
Junkopia São Francisco (prêmio César, o Oscar francês, de melhor curta-metragem documental) e
Longe do Vietnã (documentário em seis episódios com participação de Godard, William Klein, Agnés Varda, Alain Resnais,entre outros). É difícil ver tudo, mas como suas obras são raras de encontrar em DVD no Brasil (
La Jetée e
Sans Soleil foram lançados em um único DVD que está fora de catálogo por aqui, mas pode ser encomendado em edição importada da
Criterion Collection na
Amazon) ou mesmo em torrent e youtube, vale o esforço.
Cartaz de "Grin Without a Cat"

Recentemente, foi lançado no exterior o DVD de
Grin Without a Cat (algo como "a risada sem o gato", referência a Alice de Lewis Caroll), ensaio de 1978, com mais de três horas sobre guerras dos anos 60 e 70 como Vietnã, Bolívia, Praga, Maio de 1968 na França, entre outras. É uma versão revisitada pelo próprio Marker, que com 88 anos continua ativo: seu último trabalho é de 2004 e chama-se
Chats Perchés, também presente na mostra. Uma última curiosidade sobre Chris Marker é que ele evita fotografias suas (a desta matéria é uma das poucas encontradas) - sempre que lhe é solicitado uma foto, ele envia a foto de um gato.