Matt Wolf - um retrato de Arthur Russel
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Matt Wolf - um retrato de Arthur Russel
Documentário busca retrato do compositor, falecido em 1992
16.06.09 13:05
O DVD
Na esteira da onda neo-disco que irriga os clubs no mundo todo, o trabalho de Arthur Russell, praticamente desconhecido do grande público, vem ganhando uma reavaliação que o coloca no lugar em que merece: naquele brilhante panteão dos grandes criadores da música pop.

DJs da hora não cansam de citá-lo como grande influência, compilações aparecem nas prateleiras das lojas virtuais e álbuns raros são compartilhados na blogosfera. Mas é o recém-lançado documentário Wild Combination: a portrait of Arthur Russell que ajuda a fixar uma imagem do compositor inquieto, morto prematuramente em 1992 de complicações causadas pela AIDS. Tinha apenas 40 anos. Em sua breve carreira, transitou por universos sonoros aparentemente incompatíveis. Era violoncelista de formação clássica e foi influenciado pelo minimalismo e a música oriental. Apaixonado pela cena disco da Nova York do final dos anos 1970, forjou uma sonoridade original sustentada entre dois pólos: avant-garde e dance music.

Nascido numa zona rural no estado de Iowa, nos EUA, Arthur Russell era um adolescente obcecado por John Cage, Timothy Leary e poesia beat. Mudou-se pra uma comunidade budista na psicodélica São Francisco dos anos 1960 e lá conheceu Allen Ginsberg. Juntos, foram pra cidade insone, onde Arthur frequentou escola de música e estabeleceu contato como o creme da vanguarda da Big Apple (suas parcerias incluem o músico Phillip Glass e o dramaturgo Bob Wilson). Foi diretor musical da famosa galeria de arte The Kitchen e (à frente do Dinosaur, banda que incluía em sua formação o Talking Head David Byrne) autor do primeiro single disco da gravadora Siren, Kiss me again, de 1978.

A ousada produção do músico transita por experimentações etéreas de violoncelo, vocais sussurrados e efeitos de eco, e grooves venenosos que misturam pop, disco, funk e jazz, a tal da batida perfeita (sorry, D2). Via na batida da disco o mesmo padrão de repetição dos mantras e da música minimalista. Também ajudou a estabelecer o link entre a disco e a house music. Sua faixa de 1980 "Is It All Over My Face" gerou um dos primeiros remixes da história da música das pistas de dança, fundido no calor das picapes do DJ Larry Levan, no legendário clube Paradise Garage.

A partir de depoimentos de amigos, cenas de arquivo e interpretações visuais da música de Russell, Wild Combination traça um retrato em movimento dessa vida errática, que inclui episódios dignos da biografia dos grandes artistas incompreendidos (consumo de drogas, dificuldade em se relacionar, insegurança, paranóia etc.). É o primeiro longa de Matt Wolf, diretor de 26 anos com alguns curtas experimentais na mochila.

"Antes mesmo de ouvir a música de Arthur eu estava intrigado. Um amigo me descreveu esse esquecido autor gay da disco, em camisa de fazendeiro, ouvindo obsessivamente mixes de sua própria música no Ferry de Staten Island. Essa imagem sozinha já seria suficiente, mas quando ouvi a intensidade emocional e a beleza complexa da música, fiquei obcecado."



Matt pensou imediatamente em fazer um curta experimental sobre Arthur. Escreveu pro companheiro do falecido músico pedindo autorização. Meses depois foi chamado pra um encontro no mesmo apartamento no East Village em que Arthur vivera, tendo como vizinhos de porta o poeta beat Allen Ginsberg e o príncipe punk Richard Hell. Inspirado pelo encontro, o jovem diretor percebeu que o projeto poderia se transformar em algo bem maior. Conversou com antigos colaboradores que o convenceram da necessidade um filme biográfico que explorasse o cenário cultural e histórico em que Arthur esteve envolvido, além das histórias pessoais por trás de muitas das canções.

"Mais que produzir um filme enciclopédico ou definitivo que reconstruísse uma trajetória musical inteira, escolhi fazer um retrato."

Então Matt percorreu as pegadas de Arthur pelos piers de Manhattan. Navegou a bordo do Ferry de Staten Island. Entrevistou Tom Lee no pequeno apartamento em que seu companheiro trabalhara compulsivamente. Viajou ao Iowa, conversou com os pais do artista e, munido de uma câmera VHS, correu na vastidão dos campos de milho.

"Essas experiências me ajudaram a enxergar pelo ponto de vista de Arthur e me fizeram ter uma interpretação mais profunda de sua música. No processo de realização do filme, aprendi com ele sobre ser um artista e perseguir isso a qualquer custo."

Wild Combination estreou ano passado no Festival de Berlim e segue percorrendo o circuito de mostras internacionais. No Brasil, foi exibido no Festival do Rio e na mostra Mix Brasil, em São Paulo. O filme foi lançado em DVD, pela Plexifilm. Também disponível no mercado (e altamente recomendada!) é a coletânea The World of Arthur Russell, da gravadora britânica Soul Jazz Records, um apanhado do melhor da carreira do compositor, incluindo os hits disco underground "Go bang", "Is it all over my face?" e "Wax the van".



Um bate-papo com o diretor MATT WOLF

Eleito pela revista Filmmaker um dos 25 new faces do cinema independente, Matt Wolf é bolsista na Escola de Cinema da NYU. Seus curtas, incluindo uma biografia experimental do artista e ativista da AIDS David Wojanorwicz, foram exibidos em festivais, galerias de arte e universidades de várias partes do mundo. Atualmente, Matt dirige vídeos pro New York Times e uma série de documentários pro Sundance Channel. Na semana em que Wild Combination estreava em Londres e Nova York, ele arranjou um tempo pra uma conversa rápida, por e-mail.

Você diz ter ficado fascinado com a imagem de Arthur Russell em camisa de fazendeiro, ouvindo mixes de sua própria música a bordo do Ferry de Staten Island. Mas qual foi a sensação quando ouviu sua música pela primeira vez?

Matt Wolf: Quando ouvi a música de Arthur Russel pela primeira vez, me identifiquei emocionalmente com ela, senti uma incrível intimidade. Imediatamente saquei suas obsessões com a água - o espaço infinito de oceanos profundos em contraste com os vastos planos abertos dos campos de algodão do Iowa. Foi difícil não ficar toda hora imaginando a pessoa e a história por trás daquela música maravilhosa, a partir daqueles poucos detalhes que eu sabia até então.

Durante a produção do filme, quais aspectos da vida e da obra de Arthur Russel mais lhe surpreenderam?

MW: Fiquei surpreso pela quantidade de rejeição que Arthur enfrentou, os obstáculos que talvez expliquem porque sua música foi virtualmente desconhecida até o renascimento dos últimos anos. Mas também foi inspirador ver sua determinação diante dos constantes desapontamentos.

É doloroso fazer um filme sobre um artista brilhante que morreu cedo e sem o merecido reconhecimento?

MW: Eu não diria doloroso, é peculiar. Sempre tentei manter um certo nível de empatia por Arthur. Eu precisava reconstruir e reviver sua presença através um grupo íntimo de familiares e amigos. Então sempre tentei imaginar o que ele pensaria ou como se sentiria em relação ao que tem sido dito a seu respeito. E há muita felicidade e alegria entre este grupo, agora que a música de Arthur está finalmente encontrando seu público e recebendo a aclamação da crítica.

É provável que muitos jovens amantes de música entrem em contato com a obra de Arthur Russel depois de seu filme. Essa foi uma das razões para fazê-lo? Você é um amante de música?

MW: Acredito que o grande objetivo do filme foi criar uma experiência emocional, que, espero, aprofunde a relação do espectador com a música de Arthur. Sou um amante de música - não um aficcionado ou colecionador obsessivo - mas alguém que realmente se debruça sobre a música que ama. Tenho uma grande ligação emocional com minhas músicas favoritas. Espero que o filme, de alguma maneira, compartilhe isso com quem o assiste.

Qual sua canção preferida de Arthur Russel?

MW: "Calling Out of Context", que estranhamente não está no filme. Nunca achei um lugar pra ela. Mas acho que como não foi incluída, nunca me cansarei dela!

DISCOGRAFIA SELECIONADA

24-24 Music (1982) - Lançado originalmente pelo selo Sleeping Bag (do próprio Russell), este álbum compreende gravações de 1979 de um de seus inúmeros grupos, o Dinosaur L. Disco psicodélica: viajante, abstrata, sensual e com um profundo senso de incompletude. O verdadeiro espírito do Paradise Garage.

The World of Echo (1986) - A batida pulsante conduzida pelo hit hat é eliminada nessa compilação de mantras eletrônicos em que o cello de Russell dá o ritmo. Menos é mais. Alguns efeitos, voz, o instrumento e só. Além de eco, é claro.

The World of Arthur Russell (2004) - A compilação que tirou Arthur Russell do esquecimento. Lá estão suas principais faixas disco (menos "Kiss me again", uma enorme lacuna), nas versões dos Djs Larry Levan e François Kevorkian, além de temas etéreos experimentais, grooves de cello e pequenos achados românticos como a singela "A little lost". Um excelente apanhado da gama musical do artista.

Leo Felipe
Leo Felipe
I wanna go bang
comentários
8 comentários
Rafael BZ
Rafael BZ(22.06.09)
0AprovadoQueima
Esse cara é incrível!!
Mas não vi o documentário...
Verei!
kmod
kmod(18.06.09)
3AprovadoQueima
é bem bacana!
Raul Cornejo
Raul Cornejo(18.06.09)
2AprovadoQueima
Muito bom esse doc. Vi há algum tempo e me impressionou muito saber mais em profundidade sobre alguém de cuja genialidade sempre soube.
 Markan
Markan (16.06.09)
3AprovadoQueima
Ele é muito foda!
Fabio Spavieri
Fabio Spavieri(16.06.09)
2AprovadoQueima
"This Is How We Walk on the Moon" lembra muito a voz do Antony (Antony and the Johnsons).