O chefão da Gigolo volta a nossas páginas para falar de Bryan Ferry e David Bowie
Sentado em um confortável bar no fim da tarde do inverno berlinense, DJ Hell admite que está animado com as perspectivas do seu novo álbum duplo,
Teufelswerk. Tal animação vem de seu próprio feeling artístico, e também dos promos já resenhados - uma recém-publicada critica de Tony Naylor, do Guardian, o chamou de
"um brilhante exemplo para pop stars após seu apogeu".
Em uma entrevista por email, Hell é tipicamente brusco e monossilábico. Mas, ao vivo, é uma pessoa loquaz e entusiasmada, claramente sensível à crítica que atrai: "Uma revista de Berlim recentemente disse que eu não sou
cool, por duas razões, as duas erradas", reclama, "disseram que eu cheguei a Berlim tarde demais, em 2003 e perdi a melhor época da cidade, mas eu vivo aqui desde 1993, que foi quando tudo começou, na época eu trabalhava em uma loja de discos". "Eles fizeram um top 100 de personalidades
un-cool na história de Berlim e eu fui número quarenta-e-alguma-coisa. Um amigo meu enviou o link, eu olhei, e percebi que várias pessoas na tal lista são na verdade pessoas que eu admiro bastante: artistas, estilistas. Também recentemente eu fui eleito o quarto homem mais bem-vestido em uma lista da Vanity Fair e meu primeiro pensamento foi 'como eu faço para ser o primeiro?'", diz, rindo, para completar "mas acho que um monte de gente deve ter achado que não é nada legal ver a mim, um DJ de techno, na Vanity Fair".
Teufelswerk inclui uma seleção realmente estrelar de colaboradores para todos os gostos: P Diddy, Antony Rother, Peter Kruder e o
ex-Roxy Music Bryan Ferry, uma lenda que Hell fica feliz em admitir idolatrar: "Ele é um dos maiores vocalistas de todos os tempos. Ainda é difícil acreditar que trabalhamos juntos", diz, contando que conheceu Ferry há alguns anos, depois de enviar algumas idéias de faixas. "Comecei apresentando algumas coisas mais jazzy, outras mais no estilo do Roxy Music, que achei que ele iria gostar, mas ele ficou mesmo encantado com as faixas feitas em colaboração com P Diddy ("Jack U" e "Let's Get Ill"). Eu fiquei completamente surpreso, por que não estava nos planos planejado mostrar essas para ele, são faixas mais modernas, mais techno, não achei que fariam parte do mundo de Bryan Ferry. Mas ele reagiu positivamente, disse que queria usar uma faixa que fez com
Dave Stewart nos anos 90 e que nunca havia lançado. Ele disse que ficaria feliz em me dar a faix, e acabou se tornando 'U Can Dance'. Eu voltei a Berlim e continuei a trabalhar na música, mesmo não imaginando que pudesse realmente entrar no álbum. Fiquei incrivelmente feliz de fazer isso e o nível mais alto de satisfação veio quando Ferry disse que amou a música - me dando então os direitos para que pudesse entrar no álbum".
Skrufff: O disco está sendo aclamado como o seu melhor até agora. Qual foi a diferença entre fazer esse e os anteriores?DJ Hell: Eu acho que trabalhai nesse disco, de alguma forma, durante mais de 30 anos, por que eu apliquei tudo que sei de diferentes gêneros musicais. Eu misturei tudo ao máximo, nos melhores estúdios e com os melhores produtores. Eu tenho 46 anos. Descobri muitas coisas no processo desse disco, como música clássica e o minimal inicial de
Steve Reich por exemplo. Eu nunca tinha explorado essas áreas antes. Eu acredito, e espero, que o meu toque especial, pessoal, também esteja no disco. No passado eu procurei muita inspiração nos anos 80, ouvindo hip-hop, electro e acid-house, mas agora eu voltei aos anos 70. Decidi que os anos 80 já firam revisitados demais e pra mim isso acabou. Estou explorando áreas como
Kosmiche e Roxy Music.
Como apareceu essa conexão com o Roxy Music?A idéia surgiu 3 anos atrás, quando eles estavam lançando
remixes do Roxy Music. Eu estive envolvido no processo, a idéia inicial era usar produtores de Berlim como Tiefschwarz e M.A.N.D.Y., outros que vivem na cidade agora como Fetisch, os Ricardos, os Richies: o som de Berlim relendo a música do Roxy Music. Eu já era considerado parte do som de Berlim, porque a Gigolo é baseada aqui, e eu também. Eu dei um tipo de
update na minha música, que tem sido muito influenciada por Berlim também - eu chamo de house music agora porque, você sabe, nós não podemos mais falar em minimal techno (rindo).
Bryan Ferry é conhecido por ser um perfeccionista no estúdio, ele de deu carta branca para você trabalhar?Sim, deu. Depois que eu mostrei as faixas que fiz com o Puffy Daddy ele disse "quero algo nessa linha" e eu interpretei essa direção. Eu estava surpreso só pela possibilidade de trabalhar em um remix , então uma colaboração desse tipo é o melhor que já me aconteceu. Qual é o próximo nível?
David Bowie?Espero que sim, mas não é tão simples. Eu tentei falar com Bowie no último álbum. Houve alguma comunicação com o agente, estavam basicamente me perguntando o que eu queria. Eu disse que queria trabalhar com o Bowie, e eles responderam "tá, mas para fazer o que, exatamente? Você quer desenhar uns óculos de sol?". Parece que Bowie tem trabalhado em uma série de projetos bastante inovadores, fora do âmbito musical. Ele é bem quieto em matéria de novos discos, mas super ocupado com vários outros projetos. Eu disse que queria escrever uma canção, eles pediram para mostrar uma canção. Eu estava tentando arrumar um encontro, falar com ele cara a cara, quem sabe chamar a atenção dele para toda a nova música
Bowie fez toda essa proto-música eletrônica quando estava vivendo aqui em Berlim nos anos 70, com o Iggy Pop. Ainda ouço histórias de pessoas que o conheceram. Ele é o cara. Talvez ele gostasse dessa nova música, mas eu não sei como ele veria. Ele é um cara muito inteligente, todas as suas manobras são de gênio, ele sempre esteve anos a frente. Mas ele nunca se envolveu de verdade com esse
club sound. Eu adoraria chamar sua atenção, fiaria feliz em trabalhar com ele um dia, mas realmente não sei como seu mundo é hoje.
"U Can Dance" tem quase 10 minutos de duração, Puff Daddy canta sobre tocar faixas de 15 minutos. Porque vocês fez uma faixa de 9 minutos com Bryan Ferry?Tem um
radio edit que tem 4 minutos de duração. A versão original tem 13 minutos e eu estava pressionando todo mundo no estúdio: "por favor, nós temos que deixar com menos de 10 minutos"! Eu estava mirando em uma versão de 7 minutos, mas a forma como acabou ficando é assim, com duas partes, com os vocais, numa direção mais Detroit, moderna, difícil descrever. Ainda é bem Ferry, mas também não é. Funciona nos clubs. É o Ferry com meu toque, mostra ele por um novo lado. Talvez a gente faça um vídeo, não tenho certeza.
Você está comandando um selo, discotecando, produzindo e viajando o mundo, sem parar. Como você encontra suas prioridades e segue fazendo isso, ano após ano?Esse estilo de vida de fazer música, viajar e comandar os selos se tornou algo que exige 24 horas do meu dia, mas a coisa mais importante pra mim é não sentir que estou trabalhando. Eu quero seguir fazendo as coisas que eu gosto, por que essa é a minha vida. Eu decidi fazer isso até o fim dos meus dias, e se começar a sentir que tenho que fazer pelo dinheiro ou outras razões, eu não seguiria. Eu tentaria ser um treinador de futebol (nt: oi?!). Eu ainda gosto muito de estar na indústria musical, e trabalhando com o Bryan Ferry, por exemplo. Eu cheguei em um nível que nunca sonhei ser possível. Minha questão agora é: qual o próximo passo? Onde eu posso ir depois desse álbum?
E qual é o próximo passo?Eu sempre quis fazer um filme, com todos os freaks que eu conheci ao longo dos anos, ótimos artistas de Nova Yorque, Berlim, de várias partes do mundo. A trilha-sonora já estaria pronta, com os releases da Gigolo. Gente como a
Amanda Lepore e o
Fischerspooner dão ótimos personagens.
O que aconteceu com a Amanda Lepore? Ela não está mais no logo da Gigolo?Nós tivemos um contrato de 4 anos. Eu tive problemas no passado usando o Arnold Schwarzeneger, e algumas pessoas não gostaram do Sid Vicious, então quando a Amanda apareceu muita gente ficou meio confusa, por que ela não era nada conhecida aqui na Alemanha. Todos pensavam "quem é essa garota estranha?". Eu gosto muito dela e imediatamente pensei que ela era perfeita para a Gigolo e para a música que estávamos fazendo. Ela se envolveu em um monte de coisas, fez fotos para a imprensa comigo lambendo seu joelho, essas coisas. Agora nós temos os cowboys gays dos Sex Pistols. Muita gente jovem não sabe de onde isso vem. Tivemos que modificar um pouco para ter o direito de uso. No novo logo da Gigolo teremos Iggy Pop e David Bowie.
Não é o mesmo que o antigo club de electroclash londrino Nag Nag Nag usou há alguns anos?O do
Atomizer? Sim. Eu disse para eles usarem. Foi originalmente minha idéia, eles não gostaram ,mas eu disse "isso é legal, vai ficar bom em uma capa de disco". Eles entenderam, mas eu acho que teriam ficado mais felizes se eu tivesse colocado eles na capa do disco. Eu estava realmente envolvido com a idéia dos cowboys na época. A faixa do Atomizer
"Hooked on Radiation" é um primor de produção do Jimmy Cauty (do
KLF) tanto que até os Pet Shop Boys ofereceram um remix, de graça, que eles mesmos fizeram. Eu já estava sonhando com a música entrando em um top 10, por que era tão boa... acho que tinha uma chance se os fãs do KLF estivessem por trás disso . Era uma ótima música e soava um pouco como
"What Time is Love", eu realmente tentei fazer ela rolar no Reino Unido, mas não foi muito em frente.
Porque você acha que o electroclash atraiu tanta hostilidade?Ainda atrai. Acho que foi o último hype de verdade em cima de um gênero musical. Se você pensar nos gêneros que vieram depois, eles morreram imediatamente. Veja a new rave, eu estava fazendo um esforço enorme para me lembrar do nome disso outro dia em uma entrevista. Eu fiquei chocado com a reação de todas as revistas na Alemanha entre 2005 e 2006, todas elas pularam no barco da new rave como a próxima grande coisa da música. Até grandes revistas de arte e revistas realmente bacanas de música deram capas sobre a new rave, o que me deixou espantado, porque eu sabia que esse hype não era em torno da música, era sobre todo o resto: como você se veste, qualquer coisa. Apareceu todo o tipo de DJs tocando "new rave" e você não conseguia se ligar a isso de nenhuma forma significativa. Não houve um dimensionamento musical da forma como aconteceu com o electroclash.
De repente todas essas bandas que estavam envolvidas com a new rave começaram a se distanciar disso, dizer que "não eram parte disso". E então até as revistas que falaram disso como a próxima grande coisa disseram que já estava morrendo. Com o electroclash houve muita atenção, foi uma loucura, e eu acho que soltamos ótimos discos na época. A Gigolo era o selo que refletia o electroclash. Mas então nós começamos a não querer forçar demais, por que muita gente começou a pegar carona muito cedo. Eu lembro de ter lançado em 2002 um disco do Twins, que era "early italo-trash-new wave electro-pop whatever" e dito "esse é o último disco que vamos lançar com essa direção".
Como o electroclash foi percebido na Alemanha?O electroclash nunca realmente tocou as pessoas aqui na Alemanha. Eles não abraçaram muito. Foi popular em várias partes do mundo, mas não na Alemanha - e nunca em Berlim. Quando o 2Many DJs toca em Berlim eles normalmente tocam em festas menores para, digamos, umas mil pessoas - quando eles tocam em qualquer outro lugar atraem vinte vezes isso. O LCD Soundsystem nunca chamou muito a atenção aqui também. Por aqui o mundo rock nunca teve muita conexão com o universo dos DJs e da dance music, com a house ou com o techno. Então não funcionou aqui na época que o electroclash estava nos holofotes.
Metronomy: "novo electroclash"?

Ainda hoje, em 2009, tem gente que fala que está fazendo electro-rock, eu ouço e acho tão 1998! Eu vi o
Metronomy outro dia, e gostei, o vídeo e o som são bons, mas talvez eu possa chamar de "novo electroclash"? Mas é legal, funciona com o mesmo feeling, a mesma fórmula. Algo que também foi engraçado sobre a new rave foi que quando ficou grande eles usaram muitas bandas que já estavam de alguma forma associadas com o electroclash. Eu estava trabalhando com o Presets, por exemplo, e de repente eles não eram mais considerados "electroclash", foram direto para a "new rave". Eu tenho até uma dificuldade em lembrar qual foi o hype de 2008, ou do último verão. Será que não teve um?
O último hype na Inglaterra é a ‘new disco'...Oh, desculpe...
É ainda menor que a new rave.Bem menor que a new rave. Um monte de gente fala sobre disco e eu tenho que concordar que tem uma porção de ótimos edits de disco por aí. Mas se você pegar italo-disco, por exemplo, nós já fizemos isso nos anos 90. Se eu estivesse tocando esse tipo de música agora, me sentiria velho.
O que você vê como o futuro da música hoje? Eu não sei qual será a música do futuro. Quando nós estávamos fazendo techno nos anos 80 e 90 isso era o futuro da música, soava futurista. Talvez o futuro seja trabalhar com o Bowie e o Bryan Ferry e coloca-los em um ambiente techno, seja lá o que for isso.
Agora vamos falar do seu Ford Mustang...Ah, está estacionado lá fora...
Carros têm sido queimados em Berlim recentemente, que você acha disso, acha que está conectado com a crise econômica global?Isso não tem nada a ver com a Depressão. Carros têm sido queimados durante anos em Berlim. É uma coisa anarquista, eles queimam os carros dos ricos, como as BMWs e Mercedes, é uma forma de protesto contra os estrangeiros com muito dinheiro que se mudam para Berlim e destroem o sistema local. De certa forma é verdade que os alugueis aumentaram, assim como estão mais altos os preços nos cafés. Tudo está ficando mais caro, mas os estrangeiros podem pagar, porque para eles é barato. É barato agora, mas era 50% mais barato há 10 anos.
Isso é uma coisa de pessoas de Berlim que viveram aqui e viram as mudanças radicais e não estão felizes com isso. O Bono, do U2, disse em uma entrevista recentemente que Berlim é a Meca de toda uma nova geração. Eu entendo o que ele está dizendo, e talvez esteja certo. As pessoas dizem que sentem uma certa energia quando andam por Berlim, eu concordo. Mas também tinha uma certa energia há 10 anos, há 20 anos. As mudanças são muito radicais agora. Algumas mudanças são boas, mas discordo de outras, como fechar aeroportos, o que obviamente é importante para mim pessoalmente, uma vez que eu uso aviões umas 3 vezes por semana. Todos esses novos prédios também são um problema - eu não vejo nenhum prédio novo e bonito, todos são muito feios. Por que ninguém está correndo riscos e desenhando prédios originais, renovando alguns edifícios antigos ao invés de destrui-los?
Teufelswerk do DJ Hell sai em breve pela Gigolo Records"
