Grafiteiro inglês produz música eletrônica e traz a São Paulo exposição em que híbridos de homens e animais duelam em mundo caótico e desencantado
Quando o potencial artístico da fábula animalesca encontra o spray grafiteiro, pensa-se na ternura infantil, e não em ilustrações que expressam a dualidade entre bem e mal. É justamente a maldade circunscrita em um mundo de animais humanóides que o artista Charlie Uzzel Eduards expressa, ele que é conhecido por seu codinome grafiteiro
Pure Evil e apresenta em São Paulo a exposição Dark Carnival até dia 27/fev, na galeria Choque Cultural.

O inglês Eduards aka
Pure Evil é conhecido pela imagem de um simpático coelho diabólico, ícone de sua intenção em mostrar o fracasso da utopia dos homens. No carnaval obscuro apresentado na exposição paulistana, coelhos adquirem pernas humanas e assimilam o mal, representado pela guerra, a destruição, o caos e a morte. Animais voam ao epicentro de explosões e coelhos diabólicos escondidos atrás da mão de Vossa Santidade dividem espaço com stencils aplicados em páginas de livros infantis antigos, pregados por ratoeiras. Pure Evil buscou essas edições antigas na pequena cidade de
Hay-on-Wye, conhecida no Reino Unido como cidade dos livros e achou muitos livrinhos velhos mesmo, alguns de até 1910.
"É preciso destruir para criar o novo", diz o artista, ao mostrar como os livros adquirirem ar mórbido em fusão com as pinturas. "Encontrei até livros de 400 anos de idade, alguns com antigas leis que ementa sobre os livros infantis, que ele aponta nsinavam como comerciar ópio". A vontade por animais remete, claro, à infância, quando um pequeno Charlie aos 10 anos matou um coelho com uma arma de brinquedo, sem querer. "Desde então eu amo animais, odeio qualquer tipo de crueldade contra eles". Em suas pinturas, é como ao transformar em híbridos humanos, os animais descobrissem a desgraça da guerra e da fuga da consciência - a derrota dos sonhos. Macacos assumem o controle, coelhos transforman-se em piratas somalianos e tentando dizimar o poderio militar e a força do elefante, retratado na fábula de Pure Evil como o símbolo da poder e da inteligência.
RAVES, CATOLICISMO, GRAFITE E UMA CARREIRA SÉRIA"Dark Carnival diz respeito ao lado sombrio das coisas, pode ser colorido e hippie até, mas há sempre um lado obscuro, aquele quando o morto retorna para te assombrar.". Outros elementos e referências no traço de Pure Evil ajudam a pintar este mundo desencantado: propaganda comunista, cultura americana (rock, pop art, motocross), o século 19 na Inglaterra e França e a morte através de um olhar latino. "A morte é uma coisa tão bonita", suspira Eduards, um neto de chlienos que se encantou com o Cemitério da Consolação em São Paulo, lugar que rendeu lindas fotos para seu
flickr.
ANIMAIS NO PODER: "O passado mostra como as criaturas no topo sempre sucumbem"

Ainda em São Paulo, o artista se hospedou num famigerado hotel do centrão que será reformado em breve, e ilustrou a tentação de Santo Ântonio (
veja aqui). "Ele é um exemplo dessa coisa católica de vivermos sempre à beira da tentação. Isso aqui em São Paulo é fortíssimo, nas ruas sempre algo te chamando e te atraindo. Sexo, drogas, é difícil resistir..."
Eduards sempre teve interesse por História da Arte e deixou a capital inglesa no começo dos anos 90, "um rapaz de classe média, católico, que achava Londres uma cidade depressiva", e partiu em direção à Califórnia, onde entre sol, cultura TexMex, cogumelos mágicos e noitadas como DJ, adquiriu a inspiração para criar camisetas ravers inspiradas no skatewear. Desenvolveu a técnica e daí em diante dividiu seu tempo entre música eletrônica e grafite, até despontar como Pure Evil. Enquadrado pela rigorosa imigração americana por ganhar dinheiro com sua arte, foi mandado de volta para Londres em 2000, onde hoje mantém a The Pure Evil Gallery, que tem inclusive um estúdio no porão de onde tira descompromissadas jam sessions com amigos, criadas com drum machines, guitarras, teclados e um computador central. Ouça.
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- Third Session 0005 10 (mp3)
Quando se trata do alcance e da legitimidade social do grafite, a posição de Pure Evil é dúbia, porém esclarecida. O grafite há tempos já é sua arte e meio de vida, mas ele ainda acredita no espontâneo potencial político do grafite e das "tags" (o pixo nos muros). "Quando se interfere numa parede, contesta-se alguém que diz que é dono daquele lugar. Nada melhor que esse contexto para criar um desenho ou passar uma mensagem, nem que seja pixar seu nome repetidas vezes".
"SOU UM CAPITALISTA"Mas ele admite que certo protesto pode significar o senso-comum e esbarrar na justificativa do vandalismo. Logo, rumar para uma carreira nas arte visuais foi o caminho que ele tomou sem arrependimento, mesmo que uma tela sua custe 100 libras. "Muito das críticas vem de inveja, de gente que não desenvolve a arte e fala mal dos outros.

Eu era socialista, agora sou capitalista mesmo, sempre terei esse conflito", admite. "Eu posso vender minha tela até. Mas com isso compro material, tenho uma galeria, desenvolvi minha arte e exponho meu trabalho - mas ainda pixo Pure Evil na rua com a mesma paixão".
Mas pixar, ao menos em Londres, é algo que ele já não faz tanto. Com uma galeria comercial devidamente reconhecida, marcar sua ‘tag' por aí é assinar o talão de multa. "Já aconteceu de fiscais baixarem aqui para e eu dizer que era apenas um funcionário, que não sabia onde o Pure Devil estava", relembra, listando em quais lugares da região paulistana de Pinheiros ele tinha deixado um coelhinho Pure Evil, com devido orgulho de estar ao lado de grafites de gente como Nunca, ou os Gêmeos.
Sobre a invasão de pixadores na Choque Cultural e na Bienal, Eduards prefere não comentar. Mas fala sobre outro artista de rua,
Shepard Fairey, que ao fazer sucesso ilustrando Barack Obama tornou-se símbolo político e ícone pop em 2008. Provando de como o grafite e o traço urbano podem interferir na sociedade. "No começo achei um pouco cínico ele representar um político, aquilo era
mainstream demais. Mas depois percebi que muita gente que não votava foi às urnas por Obama por causa daquele desenho. Passei a admirá-lo."
A exposição na Choque Cultural foi montada pelo próprio Eduards, e fica em cartaz até o dia 27/fev, junto com outras exposições temporárias e o acervo fixo da galeria.
SERVIÇOPURE EVILSOLO SHOW BRASILGaleria Choque CulturalRua João Moura, 997
São Paulo - até 27/fev
(11) 3061-4051
www.choquecultural.com.br
Odeio Carnaval e seus derivados
Atraso de vida
Mais,vou dar uma passada por lá poque achei bem interessante
:P
"É preciso destruir para construir o novo" nada mais é do que o famoso "nada se cria tudo se transforma", destruido e construido pros dias atuais.
"...diz respeito ao lado sombrio das coisas, pode ser colorido e hippie até, mas há sempre um lado obscuro, aquele quando o morto retorna para te assombrar...";
Brincadeiras à parte, a entrevista tá muito bacana. É sempre inspirador ver artistas assumidos, que não tem vergonha de expor seus conflitos pessoais em entrevistas, compartilhando uma visão de interesse público... como fala na sua auto-afirmação capitalista... diferente de nós brasileiros colonizados, sempre com máscaras.... sempre pronto para mais um carnaval..