Bookers, produtores e empresários mostram como a crise mundial e a escassez de crédito já interfere na cena noturna da América Latina
Como um monstro horrendo, "A CRISE" surgiu numa panacéia inversa, representando todos os males do mundo. Onipresente, a quebradeira financeira já ferrou com bancos, gigantes, com os BRICs antes inatingíveis, e com vários aspectos da vida cotidiana, - o emprego está caindo, o dinheiro é escasso e os projetos vão por água abaixo. Talvez não de maneira tão forte aqui no Brasil como nos Estados Unidos e na Europa - mas sim, ela está entre nós.
Os hormônios instáveis dessa crise elevam o dólar para cima e para baixo, amedrontam viagens e projetos internacionais, ou seja, sobra para todo mundo. Até mesmo para um até então estabelecido e abastado roteiro de música e festas noturnas na América Latina.
Para entender a relação entre a crise e a noite, conversamos com produtores, empresários e bookers neste
painel rraurl. Alguns comentários são bem pessimistas, e a realidade de alguns fatos assusta - muitos clubes já diminuíram investimentos e contratação de gringos. Mas uma constatação repetida soa óbvio e otimista: no auge dos problemas de uma crise, as pessoas acabam saindo mais! Confira.
ANDRÉ BARCINSKIJORNALISTA E SÓCIO DO CLASH CLUBE (SÃO PAULO)-INSTABILIDADE CAMBIALO impacto é imenso, claro. É difícil fazer contratações com o dólar a 1,70 e ter de pagar o dólar a 2,50.
-A CRISE CHEGOU PRA VOCÊ?- Sim, claro, porque tivemos custos maiores com aristtas que já estavam contratados e tivemos de repensar diversos bookings que estavam em andamento. Quando o custo de uma noite sobe quase 50%, isso afeta as contas.
-QUAL SERIA O CÂMBIO IDEAL?Eu acho que R$ 2 seria um bom número. Menos que isso era bom demais para ser verdade...
-COMO SOBREVIVERNão há saída. Infelizmente, o mercado na Europa e Ásia está tão inflacionado que, se os DJs não tocarem aqui, vão conseguir outras gigs ganhando mais na Europa ou no Japão. A verdade é que apenas uma ínfima minoria dos artistas e agentes parece se importar com a saúde financeira dos clubes. Por sorte, temos parcerias longas com artistas que têm uma visão mais ampla de mundo. Gente como Chris Liebing e Surgeon aceitam vir ao Brasil ganhando bem menos do que ganhariam na Europa, porque sabem que a realidade financeira dos clubes aqui, especialmente dos clubes que os bookariam, é bem diferente das realidades européia ou asiática.
INSTABILIDADE: Menor valor do dólar em agosto de 2008: R$ 1,55. Em 08/dez, chegou a R$ 2,50. Fechou a R$ 2,37 em 20/jan/09, dia da posse de Barack Obama nos EUA

CLAUDIO DA ROCHA MIRANDA FILHOSÓCIO DA DIRECTA PRODUÇÕES E DO CLUBE LOUNGE 69 (RJ)-A CRISE CHEGOU PRA VOCÊ?Sim, o crédito está escasso e como na nossa área de negócios necessitamos adiantar cachês, passagens internacionais, hotéis e outros insumos. O custo do capital de giro está mais caro, gerando menos lucratividade.
-QUAL SERIA O CÂMBIO IDEAL?Sei que na atual conjuntura é utopia imaginar 1 dólar ao preço de 1 real - esse seria o ideal. Mas com o dólar a 1,3 ou 1,4 é um bom patamar para um volume alto de circulação de artistas estrangeiros.
-COMO SOBREVIVERPlanejar seu projeto, seja ele uma noite em um clube ou um festival, conhecer o tamanho do mercado e o que a atração representa nele, ter bons parceiros e, principalmente, saber que só a atração não vira o jogo. O produto deve ser completo, uma boa locação, boa data, promoção adequada e, nem mais nem menos importante, a atração, além de uma boa pitada de sorte, que não faz mal a ninguém.
MARCOS BOFFA - PRODUTORPRODUTOR DE SHOWS E EVENTOS (SÃO PAULO)-INSTABILIDADE CAMBIALAcho que o câmbio ainda não influi totalmente pois os eventos do final de 2008, no início da crise econômica, já estavam bastante encaminhados para que pudéssemos notar uma grande repercussão, que pudesse representar cancelamentos significativos.
Creio que vamos sentir estas repercussões no primeiro semestre do próximo ano.Fica a expectativa para saber como a economia global ira reagir no segundo semestre de 2009.
-QUAL SERIA O CÂMBIO IDEAL?Difícil dize,r pois tudo depende do custo do artista. Mas penso que um dólar a R$ 2 seria razoável para todos.
-COMO FECHAR BONS NEGÓCIOS NA CRISE?Negociar o Maximo possível, pois trata-se de uma crise global que afetara todos os mercados. Talvez seja até uma situação interessante para países como o Brasil, que ainda não se encontram tão afundados na recessão.
-MEMÓRIAS DE TEMPOS DIFÍCEISLembro que no final dos 90 o dólar saiu da cotação (quase fictícia) de R$1 para US$ 1. Ficou muito complicada a situação para todos promotores.
Protesto na Islândia, maior afetado da crise: colapso dos três maiores bancos, queda de 90% da bolsa, dívida de 50 bilhões de euros, índice de confiabilidade caiu de A+ para BBB-, Banco Central listado como organização terrorista pelo governo britânico

FERNANDO MORENOSÓCIO E BOOKER - AGÊNCIA DE DJS SMARTBIZ-A CRISE CHEGOU PRA VOCÊ?Sim, mas ainda não podemos perceber claramente o quanto. As negociações tem tomado outro formato, caminhado na direção de encontrar um balanço entre os custos em dólar e a disponibilidade em reais dos produtores locais.
-QUAL SERIA O CÂMBIO IDEAL?Se voltasse aos patamares anteriores (à crise), facilitaria. E o artista tem que ter uma certa flexibilidade. De modo geral, eles estão abertos a isso, são cientes que a crise é mundial e a vivenciam também. Mas cada caso um caso, pois depende ainda do porte do artista, características do evento, etc.
É muito importante termos uma estabilidade na cotação, para que possa existir um planejamento por parte dos contratantes. Quando oscila , como agora (e ainda para cima), a programação financeira fica dificultada. A tendência é negociar valores mais baixos, já que se fecha os estrangeiros em dólar, mas baseado em uma realidade em Reais.
Criatividade, flexibilidade, busca de parcerias. Muito útil em tempos difíceis.
EDUARDO PHILIPPSSÓCIO DA GV EVENTOS, DONA DO GREEN VALEY E ENJOY (SC)-INSTABILIDADE CAMBIALNossos camarotes não são muitos baratos, e muitos empresários com investimentos na Europa os alugavam. Sentimos que lá por dezembro, com a crise, a frequência teve um baque, caiu, mas agora já voltou ao patamar de antes. Tivemos que repensar os preços. Até que não foi de imediato, em novembro tivemos uma festa especial com o Carl Cox então lotou. Quando o pessoal quer se divertir, eles dão um jeito. Ainda mais em tempo de crise, as pessoas querem esquecer os problemas.
Muita coisa já estava negociada, e na hora de pagar, sempre em dólar o preço era outro. Não tinha muito o que fazer, foi um prejuízo no susto.
-A CRISE CHEGOU PRA VOCÊ?Não senti mudança brusca no público do Green Valley e de nossos outros clubes. E olha que em Santa Catarina ainda tiveram as enchentes, Balneário Camboriú é vizinha de Itajaí, cidade em que 70% das pessoas perderam quase tudo. Uma casa de shows que temos, o Rancho Maria's, para eventos mais populares, esse sim baixou de oito para cinco mil o público.
Mas os clubes são mais para elite, então o público não diminuiu quase nada. Ajuda o fato de a casa ser grande, os camarotes vão de R$ 2500 até 14 mil, o preço médio de um com sofá é seis mil reais.
-QUAL SERIA O CÂMBIO IDEAL?Pra gente seria bom se o dólar custasse no máximo R$ 2. Mas desde a metade de 2008 já temos o planejamento para o verão até o carnaval, e como o Green Vallely é grande e está sempre cheio, vale a pena o risco.
RENATO RATIERDJ E PROPRIETÁRIO DO CLUBE D-EDGE (SP)-INSTABILIDADE CAMBIALCom o aumento, ficou mais caro. Estamos mantendo os mesmos preços de valores de entrada, então já dá pra imaginar (o aperto). Como a gente tinha compromisso contratual, mantivemos muitos artistas com um aumento considerável de preço. Não derrubamos nada. Outra coisa, é que nesse momento, final de ano, alta temporada, e ainda a crise, as passagens estão muito caras. Eu estou pagando o dobro. Para o D-Edge Concept, tudo custou o dobro do valor que seria normalmente.
-A CRISE CHEGOU PRA VOCÊ?Depende do referencial. Em relação aos artistas, afeta já que temos que honrar os contratos antes firmados e não aumentamos o preço de entrada no clube. Mas também temos um aumento considerável de público no D-Edge a cada ano. Com a crise, isso não diminuiu. As pessoas não deixaram de sair, nem de beber. No entanto, toda a carta de bebidas internacionais teve o seu valor aumentado.
Resumindo, o público não diminuiu. Mas o clube poderia ter um faturamento melhor se não fosse a crise.
-QUAL SERIA O CÂMBIO IDEAL?A paridade. (risos)
Em 12/jan, Sony anuncia prejuízo de US$ 1.1 bilhão e corte de 16 mil vagas. Mais de um milhão de vagas fechadas nos EUA em dez/nov de 2008. US$ 17.4 bilhões de ajuda do governo americano para salvar as montadoras Chyrsler, GM e Ford.

ADOLFO CORTES (aka UDOLPH)DJ E SÓCIO DO CLUBE COCOLICHE (BUENOS AIRES - ARGENTINA)-INSTABILIDADE CAMBIALBem, aqui na Argentina estamos acostumados às idas e vindas de uma economia pouco estável e muito volátil. Mas a maioria dos patrocinadores que depositam dinheiro na cena é internacional, e com essa crise se reduziram os investimentos em todo o mundo, o que isso significou para a gente? Que nos deixaram sozinhos, tiraram apoio financeiro de eventos não só em nosso clube, mas em quase todos.
Agora não podemos bookar os artistas que queremos sem antes fazer uma rigorosa análise do negócio, coisa que antes não fazíamos. Queríamos Marc Houle, poderíamos tê-lo tido; queríamos Mathew Jonson, poderíamos.. E a lista segue. De quatro a cinco internacionais por mês, agora só trazemos um muito forte e outro mais light.
Antes da crise chegar de fato, muitas pessoas já guardavam dinheiro aqui esperando o fim de mundo. Mas era paranóia! Chegavam no clube e não gastavam um centavo, mudaram hábitos: passaram a beber bebidas nacionais, mais cerveja e menos champagne...
-A CRISE CHEGOU PRA VOCÊ?Sim, e muito. Em setembro o faturamento caiu 50% e seguiu baixando até novembro. Subiu um pouco e agora se estabilizou em valores normais. Faturamos hoje 25% menos do que julho/2008 com a mesma quantidade de gente no clube.
Com a crise, surgiu um fenômeno estranho. Quanto mais problemas as pessoas têm, mas necessita-se sair e se distrair. Então estamos investindo na programação nacional e oferecendo ofertas, descontos e benefícios.
Aqui na Argentina há um ditado famos que diz "
A rio revuelto, ganância de pescadores" (Em águas turbulentas, os pescadores ganham). Todos estes problemas tiveram como resultado vários cancelamentos de shows, então surge a oportunidade de bookar grandes artistas a baixos custos já que não se tem muitas opções.
-QUAL SERIA O CÂMBIO IDEAL?US$ 1 = 2 pesos argentinos.
FACUNDO GUERRASÓCIO DO VEGAS CLUB (SÃO PAULO)-INSTABILIDADE CAMBIALRefreamos um pouco a quantidade de artistas estrangeiros programados para o clube - antes a média era entre três e quatro gringos por mês, e hoje em dia estamos tratando de trazer apenas dois. Estamos mais conservadores em apostar em novos nomes, que não tem uma base de "fãs" por estes lados ou que são ainda muito desconhecidos e estamos mais duros na negociação com os agentes internacionais, para que reduzam os cachês e viabilizem as gigs. Clubes na Argentina e no Chile, que normalmente participavam da turnê de um gringo na América Latina estão em situação ainda mais delicada, o que encarece as apresentações no Brasil. Em suma, momento de contenção total.
-A CRISE CHEGOU PRA VOCÊ?Não percebi um reflexo direto entre os consumidores, mas é lógico que todo mundo está pensando em poupar para os tempos de vacas magras que estão se assomando - e a primeira coisa que você faz quando quer economizar é alugar um DVD e chamar uma pizza em casa no sábado a noite. As pessoas tendem a se esconder em tempos econômicos difíceis, e toda a indústria do entretenimento acaba sofrendo o golpe. Ainda não sentimos os efeitos da recessão, mas desconfio que sentiremos mais dia menos dia.
Por outro lado, as empresas, que antes apoiavam com mais ânimo projetos menores, tendem a ficar conservadoras e enxugar suas linhas de marketing, o que pode refletir diretamente nas finanças do clube.
-QUAL SERIA O CÂMBIO IDEAL?Um real comprar dez dólares. Traria até o Jeff Mills pra tocar na cozinha de casa para os amigos.
Valeu mais uma vez!
A pena é que, mesmo contratando djs nacionais, o preço para "ouvir música num bom ssystem acompanhado de amigos" continuará o mesmo, nem um tostão a menos. Nenhum dono de club vai aceitar ganhar menos, mesmo já tendo lucrado o suficiente na última década pra abrir outros negócios..
Tá na hora das festinhas pequenas, do dj apaixonado louco pra mostrar música pra alguém, de novos conceitos... Foi nesse clima que os maiores talentos nacionais na cena nasceram, e essa crise é uma chance de surgir uma nova leva, interessada na música e não na profissão.
E fica a esperança de que em tempos de crise os artistas nacionais sejam mais valorizados ;)