Que o Rio de Janeiro é terreiro de bambas e do samba isso meio mundo e um pouco mais já sabe. A safadeza, a carne em festa, a esbórnia, a boêmia sempre foram sinônimos de Rio de Janeiro e já faz parte do imaginário da gringolândia aquela mulata carnuda, se jogando em meio a corpos desnudos ao frenético ritmo do samba na Lapa. E quando aplicada a noite eletrônica, o cenário muda, os gêneros variam e, especialmente, a música muda - mas o resultado é quase o mesmo. Seja um exagero ou não, aqui na terrinha oficial da jogação gringa a coisa não anda tão bem das pernas assim.
Sim, atrações internacionais vieram, fizeram e foram e embora nossos vizinhos paulistanos tivessem quase uma atração internacional por dia, o mesmo não aconteceu por terras cariocas. Já, venho notando há anos a programação de temporada (aliás, como qualquer cidade turística) que acontece por aqui. Com a proximidade do verão, pululam grandes festas e atrações em uma velocidade que beira a da luz, afinal está começando uma nova temporada no Rio de Janeiro. Pessoas de todos os cantos começam a entupir hotéis, hostels e afins e a diversidade lingüística se torna ainda mais perceptível. Não que não tenham grandes festas por todo o ano, mas de outubro até março é a "alta" carioca, e é aí que estão os bafos!
Funk carioca: consagração ano após ano

2008 foi mais um episódio na sacramentação do funk carioca, alçado ao mainstream através de um movimento que se iniciou anos atrás, e que hoje capitaliza o seu reconhecimento internacional. Muito além dos esforços de Diplo esse ano, por exemplo, foi o ano em que mais se ouviu funk carioca no TIM Festival carioca e a melhor atração do evento, exceto talvez por Gogol Bordello - aquela que pôs mais gente pra dançar - foi Sany Pitbull.
Com os cabelos ao vento e muito Sol no rosto que o Rio, em Ipanema, amargou nas últimas semanas uma das maiores derrotas no entretenimento eletrônico: o cancelamento da festa eletrônica de réveillon nas areias da praia tão cantada em verso e prosa (
saiba mais). Impressionante como a força de famílias abastadas podem mudar uma realidade de muitos em tão pouco tempo. A festa em Ipanema já era considerado um marco no Reveillon carioca.
NA PRAIA NÃO PODE, MAS EM CLUBE PODE!O Rio de Janeiro, há pouco mais de cinco anos, não tinha muita diversidade musical "alternativa", digamos assim. À noite ou esperava-se por uma rave (festas em sítios) ou se podia ir a alguns dos poucos submundos musicais: Fosfobox, Dama de Ferro, 00 ou Bunker (já em decadência) eram algumas das poucas opções que se tinha então. Hoje, a Bunker está se transformando em uma loja Americanas Express (e o novo pessoal da noite nem imagina a importância que teve aquele lugar ali), e as opções aumentaram deliciosamente. Lugares como o Namastê Clube, o Up, o Vertigo Lounge são somente is algumas das opções.
Aproveitando o ensejo, a Fosfobox passou por uma reforma em 2008 que o deixou mais extravagente e o ampliou aproveitando ainda mais seu espaço que conta agora com duas pistas: uma ao nível da rua (Fosfobar) e outra no subsolo. O Namastê Clube conta também com bom soundsystem e aposta no tamanho; já o Vertigo Lounge é mais voltado para o público das guitarras, muito embora uma noite eletrônica já esteja rolando por lá. E o Up é um lugar para os eletrônicos da vida, assim como o Vertigo, o Up, ainda cheira a novo. Mas, ambos são bebês que prometem.
O Rio vem sofrendo de problemas de adequação musical, com o boom do minimal para além do submundo, algumas das melhores atrações a aportarem por aqui acabam por terminar em lugares mais que inesperados. Por exemplo, Marc Houle fez sua gig na Nuth Lounge para um público que, em sua maioria, não compreendia o som e/ou que nem sabia quem era o dito DJ/produtor que acabou sentindo isso e tocou meio que sem vontade. Conversando com um amigo, outro dia, comentei essa "extravagância" e chegamos ao seguinte parecer: embora tenham festas acontecendo todos os finais
Chemical Music

de semana nos mais variados lugares, quase não há novidades por aqui e quando acontecem é, de maneira geral, para além de seu público.
E o
Chemical Music Festival? Este sim, continua um gigante. Ainda que galgado em suas raízes trance, o olhar de seus produtores buscou os arredores do mundo eletrônico já faz alguns anos, e atrações como Ellen Allien, Gui Boratto, Oliver Huntemann, Sebastian Ingrosso, Kammy e Anthony Rother foram alguns dos nomes que passaram por lá. O festival de 2008, apesar dos atrasos e da miscelânea na pista/tenda Platinum, renderam alguns dos mais memoráveis sets, como o de Oliver Huntemann e de Anthony Rother que pôs todos para dançar com seu electro poderoso.
HOURS-CONCOURSO Circo Voador, berço da Música Brasileira na Lapa, manteve seu leque de opções de forma vasto. Num ano de mesmice musical, primou por trazer grandes atrações para agradar o gosto da garotada: Bloc Party e Justice, Mixhell, The Twelves foram alguns dos bafos do lugar no quesito eletrônico. E não foi neste ano que isso aconteceu, há alguns anos atrás Deep Dish, com direito a visita de P.Diddy, foi o "prato" da vez. Como ano ainda não acabou ainda espero surpresas. O que vale no Circo é a possibilidade de se estar embaixo de um dos cartões postais do Rio ouvindo boa música, num palco pequeno e íntimo. O lugar ainda que aberto e com o som vazando tem seu charme, e serve como bom palco para boas atrações.
Não tem rave certa: praias são eternos hit do verão carioca

As praias continuam sendo a grande atração carioca, quer queiram, quer não, este ano elas brilharam por ser um espaço público e por ter sido a grande diversão de turistas e interessados em música eletrônica. Especialmente trance, vertente esta que em se falando de Rio, continua firme e forte (fora do nicho "under,"submundo) em eventos portentosos, ou na praia e privates espalhadas por aqui. De qualquer jeito, houve muitas festas nas praias e o trance, pelo menos esse ano, não foi uma unanimidade, muito minimal e electro tmabém foram amarrados com farofa para Iemanjá. Além das iniciativas na Lapa do povo do Apavoramento Soundsystem, o que foi sair de casa e subir a Ladeira dos Tabajaras (Favela ali em Copa, bem em frente ao Fosfobox) e dançar Funk, um pouquinho de miami bass e electro sem preocupações?
Muita água correu por baixo da ponte de festas e produções, muitas novidades, festas e bons DJs apareceram por aqui. Além da consagração do The Twelves, da MOO (como uma das melhores festas daqui), da Maja e da Electroshake (como apostas de grandes festas futuras), alguns nomes se destacaram este ano na cena techno carioca, como por exemplo:
Bernardo Campos e
Chris Rocha, o primeiro com um "approach" mais minimalista e a segunda uma representante do techno per se, uma pupila de Kammy, outra carioca arretada, e que me concedeu entrevista aproventando a oportunidade dessa retrospectiva, leia aqui.
Ambos responderam as mesmas cinco perguntas sobre noite, 2008, produção e música. Confira!
2008 acabou e muita coisa aconteceu, boas e ruins, mundo afora. Para vocês, claro, não poderia ser diferente. Profissionalmente, houve alguma mudança significante? Podemos esperar algumas produções para o próximo ano?Bernardo Campos: Com certeza o ano de 2008 mudou e muito minha vida. Foi o ano mais expressivo da minha carreira, principalmente a partir de julho, quando senti que amadureci musical e profissionalmente.
Também conquistei algumas residências e fui lembrado no line-up de festas importantes, além de ter sido convidado para integrar o casting da agência Request DJs. Me joguei também na produção de eventos e, nessa área, tive experiências ótimas ao trabalhar com excelentes artistas nacionais e internacionais como Jamanta Crew, Kollektiv Turmstrasse (Ale), Jonas Kopp (Arg) e Maurício Lopes. Já na produção de faixas próprias, ainda sou novato e mal comecei a engatinhar. Acho que o ano de 2009 é ano de estudar mais e quem sabe lançar algo em 2010.
Chris Rocha: Em relação às produções, acho que ainda não é o momento de investir nesse segmento, considerando a minha carreira, atualmente tenho focado em consolidar a mesma e me apresentar com maior freqüência em 2009.
Bernardo Campos

E o que você notou na cena techno em geral?Bernardo: Os BPMs caíram e o techno ganhou uma cara mais minimalista. Até techno-heads de vanguarda como Renato Cohen e Anderson Noise mostraram em suas novas produções este novo jeito de fazer techno. Mas ainda existem os remanescentes que mantém a velha forma de tocar techno como a Kammy e o Mau Mau, dois dos meus DJs preferidos, que sempre dou um jeito de ver quando eles vêm ao Rio.
Chris: O techno jamais morrerá, mas atualmente as últimas produções, em sua grande maioria, são péssimas, cada vez com BPMs frios e desanimados. Parece que estamos vivendo a era da formalidade na e-music, pessoas fazendo carão, apreciando as "mixagens" frias e sem vibração. Sou do tempo em que as pessoas saíam para se divertir e na pista esquecer do mundo e dançar pra valer... Não ficar fazendo pose.
Em relação a cena em si, o que notei foi um esvaziamento por completo das festas do techno "genuíno," no Rio de Janeiro, por exemplo: só temos a Quebra Tudo e a Double Drops.
O Rio de Janeiro vem sofrendo uma espécie de "suspensão", digamos assim, na cena eletrônica. São poucos lugares para tocar, poucas festas e etc. Você concorda com essa afirmação? Por quê?Bernardo: Acho que isso mudou bastante conforme a música eletrônica foi se tornando mais pop. Hoje, você pode escolher entre curtir um evento underground pra 300 pessoas naqueles clubinhos de sempre, ou ir a mega eventos para cinco mil pessoas, como vem ocorrendo todo fim de semana.
Chris Rocha

Chris: O problema do Rio de Janeiro é que ele é divulgado, lá fora, como a cidade do samba, do funk. Os turistas vêm aqui atrás disso, principalmente agora, que fervem os ensaios nas quadras das escolas de samba. Infelizmente, já tínhamos pouco apoio para executarmos algum trabalho por aqui e a música eletrônica vem sendo muito marginalizada, especialmente depois dos últimos episódios envolvendo as raves onde até mortes foram registradas. Uma pessoa "leiga" que escute uma notícia dessas não sabe que existem diversos segmentos dentro da música eletrônica e associa tudo a uma coisa só.
Em relação aos clubs os tempos áureos já se foram, tempos em que existiam clubs como Bunker, Funhouse. Embora, ache que essa crise não seja exclusividade do Rio, não.
Numa retrospectiva pessoal, o que foi lançado neste ano (álbuns, EPs, faixas) que tenham tido alguma relevância na cena e, especialmente, em seus sets? Teve algum lançamento que te inspirou, inspira?Bernardo: Hoje em dia eu gosto de tocar tanto sets de house, como de techno, com todas as vertentes originárias destes estilos. No techno, um artista que sempre me inspirou tanto nos sets quanto nas produções é o alemão Chris Liebing, uma faixa "fodarástica" produzida por ele no começo de 2008 se chama "Bangpop" e foi lançada pelo selo do próprio Chris,o CLR. É botar ela na pista e correr pro abraço !! (rs)
Chris: Radial -
Firm To Farm EP (Part 2); Luka Baumann -
Emergence Thirteen:IOU9 Remixes; DJ Link -
Quarto EP; Charlton -
No Rest For The Brave EP; Vince Watson - "Reconstruction".
Você poderia citar 5 faixas que não podem faltar nos seus sets?
Bernardo:Shoxy - 24 itens
Chris Liebing - Puckelbop
Renato Cohen - Power
Rafael Droors - Break This
Mastiksoul - Assen
Chris:Takaaki Itoh - Bloom After Broken Life
The Advent Vs Joey Beltram - Rock Botton
Technasia - Oxide
The Advent - Master Blaster 2
Jamie Bissmire(feat Dj Slam) - Tear The Club Up
Esse comentário do kaks ae abaixo tem bastante coerência..lembrei da eletroshake, a massa de invasores na festa, kk..
Vida boa pra cidade maravilhosa em 2009!
BERNARDO vs BREJCHA
e assim vamo que vamo!!!!
abraço pros amigos Bernardo C. e Chris R.
Outra coisa, ainda agüentaria mais uns 15 graus sob o sol escaldante p ver o live do Rother de novo ;
Mas o circuito mais underground vai bem também na minha opinião, com opções variadas e bons eventos constantes, principalmente pelas mãos do citado Bernardo Campos.
Em 2008, sempre pude escolher entre techno e miami, passando pela house e alguns lapsos de bom eletro (vide o live do Rother sob um sol escaldante às 8:00 da manhã). Poder ouvir Jamanta Crew live no fosfobox também foi dos grandes privilégios.
E que venha 2009 com mais novidades e um live do Metro Area para encerrar logo essa espera.
ps: Discussões a parte, o grande problema do Rio será sempre o fato de que festas boas não duram muito. A grande parte do público da noite carioca é ruim e ponto. Assim, quando uma festa fica falada, essa massa invade e acaba com a alegria. O caminho é reinventar sempre e saber driblar esse problema.